Universo felino: uma vida de dedicação a 43 gatos

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Texto: Jéssyka Saquetto e Carina Costa  | Fotos: Rafaela Laiola

Às 16 horas de uma segunda-feira no bairro Argolas, localizado no município de Vila Velha, uma pessoa se aproxima da linha de trem que cruza a região e deposita, exatamente sobre os trilhos, um embrulho que está destinado para a locomotiva das 16:30. Dentro estão os irmãos Gabriela, Lacta, e Perola, muito bem amarrados por cordas, e ventilados por buracos feitos para a passagem de ar. Após deixar a encomenda para o próximo trem, a emissária retorna para casa e ao passar em frente da residência da sua vizinha grita à plenos pulmões:

– Você disse que não poderia ficar né? Pois bem, já dei um jeito neles, estão lá esperando o trem.

A vizinha se chama Leticia, que sabendo do que se trata, desce embalada a escadaria que separa sua casa da linha de trem em busca de resgatar os irmãos. Chega lá às 16:20, tempo suficiente para recolher a caixa. Dentro da embalagem a ninhada mia desesperadamente, por comida, carinho, ou quem sabe por agradecimento. Os irmãos são frutos de uma ninhada de gatos que nasceu na casa da sua vizinha que não suporta qualquer tipo de animal, e sabendo do afeto de Leticia pelos bichos, ameaçou que se ela não ficasse com os gatos, o fim seria a linha de trem. Destino muito comum dos animais que são rejeitados naquela região.

Leticia Zanol Moreira Zucoloto tem 36 anos, capixaba, fisioterapeuta e há 9 anos junto com seu marido, o Engenheiro de Produção, Joselio Zucoloto, 42, recolhem animais, principalmente gatos em situações semelhantes a essas. O Nego, primeiro dos 43 gatos que eles possuem hoje foi resgatado em 2007, quando ela interpelou um vizinho que tinha encontrado um gato no forro da casa e levava o bichano para a linha do trem. Desde então o casal passou a acolher os gatos que seriam assassinados e àqueles encontrados abandonados na rua.

Nego, o primeiro gato do casal, estava sendo levado para a linha do trem quando foi resgatado por Leticia em 2007.
Nego, o primeiro gato do casal, estava sendo levado para a linha do trem quando foi resgatado por Leticia em 2007.

 

 

Vivem hoje na casa dos Zucolotos, 43 gatos e 7 cachorros, todos vindos das ruas. Como a maioria dos gatos ainda não são castrados há a necessidade de uma verdadeira logística para evitar o cruzamento entre eles. O espaço no quintal da casa é dividido entre 4 cômodos, todos bem abertos, azulejados e segmentados por telas, para o melhor conforto dos animais. Em um dos espaços, ficam juntas as fêmeas não castradas e os filhotes machos. Em outro ficam os gatos machos também não castrados, mas esses são soltos pelo menos uma vez ao dia para circularem por toda a casa. Já nos outros dois espaços restantes ficam os cachorros, que também são soltos ao longo do dia, e convivem naturalmente com os demais felinos. Entre eles está o Chowder, que foi atropelado ainda filhote, recolhido pelo Centro de Controle de Zoonozes (CCZ), mas acabou ficando paraplégico. Devido a sua limitação ninguém o adotava. Após ver uma publicação na internet feita pelo CCZ, o casal foi até o lugar e deu um novo lar para o Chowder, que já vive com eles há dois anos, realiza atividades corriqueiras a cachorros como comer e brincar. No entanto, ele anda somente com as patas da frente, arrastrando o resto do corpo. “Um ambiente que possui muitos animais acaba atraindo outros, muitos dos gatos que temos hoje apareceram aqui da noite para o dia, todos debilitados. Cuidamos, alimentamos e eles acabam ficando. Em outras situações, quando vemos alguma caixa na rua já verificamos, pois pode se tratar de animais abandonados à própria sorte”, afirma Leticia. Ela ainda ressalta que tenta ao máximo não adotar mais animais devido à limitação de espaço e pelos custos, mas também deixa claro que não irá ignorar animais maltratados e que precisam de um lar. Em um desses casos de maus tratos, eles resgataram uma gata que teve a pata traseira quebrada propositalmente por adolescentes.

Letícia e Joselio com o Nego. O gato que está com o casal desde a época do namoro participou da cerimonia de casamento.
Letícia e Joselio com o Nego. O gato que está com o casal desde a época do namoro participou da cerimonia de casamento.

 


Todos esses animais demandam muita dedicação e tempo, e o casal não tira férias há 8 anos, uma vez que é difícil encontrar alguém para lidar com todos os animais. O máximo de ausência da casa é de um dia. Ao contrário do que se possa imaginar, para eles, isso não é sacrifício nenhum: “Esses animais são nossos filhos, como tirar férias dos filhos? Se eles não podem ir, nós ficamos com eles aqui, são parte da gente”, ressalta Joselio.

Além de tempo, os animais também demandam uma boa parte da renda do casal. Os custos com os animais variam em torno de mil reais por mês, sem qualquer auxilio vindo de fora. São 5 quilos de ração por dia, medicamentos, areia sanitária, veterinário, castração e demais medicamentos de acordo com a necessidade dos animais.

Joselio começa a separar em 43 potes a ração dos felinos. O barulho faz com que os gatos se aproximem.
Joselio começa a separar em 43 potes a ração dos felinos. O barulho faz com que os gatos se aproximem.

 

 

Todos os 43 gatos têm nome e Leticia conhece cada um deles, quando chegaram, quais doenças já tiveram, sua personalidade e manias. Questionada sobre sua relação com a vizinhança e se ela sofre algum estereótipo pela quantidade de gatos, Leticia responde taxativamente: “Eu deixo muito claro que eu amo meus animais e que se mexerem com eles estão mexendo comigo, eu sempre precisei ter pulso firme e hoje eles me respeitam. Muitos reclamam também, falam que sou louca, mas isso é problema meu. Os vizinhos até avisam quando vão colocar veneno para os ratos, para não correr o risco de matar algum dos meus gatos. Eu sou a velha dos gatos dos Simpsons e me orgulho muito disso”, brinca.

Segundo Leticia, um grande número de animais está abandonado nas ruas devido à adoção irresponsável, uma vez que é comum a adoção do animal filhote e depois de crescido, pode haver uma rejeição do animal e eles acabam soltos nas ruas, geralmente distantes das residências. Em uma das poucas vezes que o casal conseguiu doar alguns gatos, eles foram devolvidos porque quem os tinha adotado não os queriam mais. Em outro caso, Leticia chegou a encontrar gatos que foram adotados em sua casa mortos na rua. “É muito frequente ver uma gata prenha na rua abandonada por causa dos filhotes que estão por vir. Esse é um dos motivos pela baixa adoção das fêmeas. Os gatos pretos também sofrem preconceito por causa do estigma e ignorância da sociedade”. Todos os 8 gatos pretos do casal usam coleira justamente para evitar agressão e maldade contra eles.

Os animais não estão disponíveis para adoção, como o próprio Joselio diz. Os gatos são como filhos para eles, somente quando chega gatos filhotes eles tentam promover a adoção. Ele afirma que não pretende criar uma ONG de adoção, pois o intuito do lugar não é ser um lar provisório, é encontrar os animais necessitados e acolhê-los.

O amor pelos animais na casa dos Zucolotos transpõem conceitos de compaixão e afeto, eles veem também como cura. Atualmente Leticia faz tratamento contra a depressão, e em muitos momentos os animais foram a única motivação para ela. “Muitas vezes em meus momentos de crise eu só levantava da cama por causa dos meus animais, sabendo que eles dependem de mim para viver. Eles sabem quando não estou bem, ficam pertos, cuidam de mim. Eu os salvei um dia, mas eles me salvam todos os dias”.

A expressividade no olhar dos gatos talvez seja uma de suas seduções. Um magnetismo incompreensível que afeta seus amantes.
A expressividade no olhar dos gatos talvez seja uma de suas seduções. Um magnetismo incompreensível que afeta seus amantes.

 

 

 

 

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