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Bruna Vermeuln, Caroline Pinna, Kayque Fabiano e Nadine Alves – Percorrendo toda a história da humanidade, é notável a tradição do homem em cultuar ídolos. Uma das associações mais antigas e imediatas que fazemos dessa veneração por personas ou coisas, sejam reais ou imaginárias, é através de práticas religiosas. Ao redor do mundo, muitos povos sempre cultivaram ao menos um deus, oferecendo a ele preces, oferendas e sacrifícios de vários tipos.

Com o passar das décadas e a constante evolução dos meios de mídia, intensificou-se a criação de ídolos através do cinema, revistas, rádio, televisão, esportes, livros e, por fim, internet. Esta última plataforma contribuiu enormemente para esse eixo fã-ídolo, distinguindo-se pela maior possibilidade de visibilidade e divulgação, bem como a ampliação dos meios de contato, mas também de observação.

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Através disso, vemos não só uma plataforma que complementa a divulgação dessas personas e a relação dos fãs com seus ídolos e vice-versa, mas também uma plataforma que é responsável por criar muitos ídolos. Atualmente, bloggers e vloggers estão cada vez mais presentes no ambiente virtual, possuindo milhares de seguidores e muitos fãs em suas redes sociais. No âmbito da música, o cantor canadense Justin Bieber, por exemplo, foi descoberto após colocar alguns vídeos cantando no Youtube. O garoto logo chamou a atenção e admiração de muitas pessoas, inclusive de um empresário do ramo musical.  Lily Allen, Owl City e Mallu Magalhães também são exemplos dessa conquista inicial de fãs através da internet.

Essa cultura de ídolos presentes nos meios de mídia é muito comum durante a infância e adolescência, sendo enxergado como forma de identificação, comum nessas etapas da vida, onde a busca por referências que o representem é muito importante. Segundo Adriano Jardim, professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), o sistema de aprendizagem humana é feito por observação de comportamento. ‘‘Nós somos programados para desde criança observar o comportamento de adultos, dos nossos amigos e colegas. Quando a gente cresce, a nossa relação cognitiva vai se sofisticando e ganhamos mais recursos para conseguir montar esses protótipos de comportamento de uma maneira mais complexa. Através de pessoas públicas como artistas, acabamos elegendo alguns desses indivíduos como modelos de comportamento por remeterem à um protótipo que simboliza de alguma maneira tudo aquilo que a gente tem como ideal’’, afirma o professor.

Ainda de acordo com Jardim, é esperado que, após a adolescência, com a evolução do indivíduo em vários âmbitos, ele deixe de lado essa paixão exagerada por algum ídolo ou crie uma relação mais racional, mesclando características idealizadas com características mais reais. Nada impede que pessoas já adultas tenham ídolos, porém o importante é fazê-lo de uma forma mais madura e real.

O essencial, como muitos especialistas em psicologia afirmam, é ter cuidado para essa admiração não virar uma idolatria exagerada, acarretando várias consequências nocivas, tanto para o fã quanto para o ídolo. ‘‘É bem importante compreendermos quando esse tipo de simpatia e admiração vai se tornando uma compulsão, uma obsessão. O indivíduo precisa parar e checar na sua vida o quanto dela gira em torno desse ídolo’’, ressalta Jardim. Quando fora da normalidade, explica ele, essa situação de obsessão começa a afetar atividades cotidianas do fã – como estudos, trabalho, relacionamentos-, que cria toda uma rotina que se torna absolutamente dependente desse conhecimento ou contato sobre o ídolo em questão.

Os ídolos musicais

No mundo da música, seja em nível nacional ou internacional, essas relações de amor-ódio/ídolos-fãs também são bem presentes e, logicamente, intensificadas com a internet e redes sociais. Mas mesmo antes de termos tantos recursos facilitando nossa vida e nossas formas de contato e informação, as relações dos fãs com ídolos já eram bem fortes. Nos anos 40, durante a Era de Ouro no rádio no Brasil, cantores como Orlando Silva, as irmãs Batista, Cauby Peixoto e Dalva de Oliveira eram alguns dos nomes que faziam muitas pessoas sintonizarem nas rádios. Na década de 50, Elvis Presley, um ídolo até hoje, revoluciona o mundo da música, sendo o pioneiro do rock n’ roll, causando polêmica com seus remelexos, mas adquirindo muitos fãs. O mesmo aconteceu com Paul, John George e Ringo. De fato, o frisson criado pelos Beatles nos anos 60 foi algo muito forte e até então nunca visto, gerando a expressão Beatlemania, que designava o interesse no quarteto de rock inglês. Ainda nessa época, há o estouro da Jovem Guarda, onde Roberto Carlos, Wanderléa, Erasmo Carlos e Ronnie Von inspiravam muitas pessoas. Através dos anos, esses cantores acumularam uma legião de fãs, muitos deles que os seguem até hoje, afinal, todos eles ainda estão no mercado musical.

Michael Jackson, sem dúvida nenhuma um dos mais icônicos artistas de todos os tempos, brilhou durante a década de 80, sendo um fenômeno mundial, atraindo atenção por onde passava. Já nos anos 90, milhares de fãs – em sua maioria garotas –, na Alemanha ou nos Estados Unidos, gritavam por membros de várias boybands, como os Backstreet Boys e o N’sync (que, por sinal, viviam enfrentando burburinhos de que não se davam bem, e então alguns fãs se ‘‘estranhavam’’). Britney Spears, Christina Aguilera e as Spice Girls agitavam muitos fãs e festas. Enquanto isso, muito brasileiros se descabelavam TAMBÉM por Sandy&Junior, um fenômeno no cenário pop brasileiro até 2007, quando decidiram se separar – deixando muitos fãs inconsolados. Nessa época, destacou-se também o ritmo do axé, sendo o grupo É o Tchan! um grande exemplo dessa notoriedade.

Atualmente, os ídolos do pop, sertanejo universitário e do funk estão em alta no cenário musical. Artistas como Beyoncé, Luan Santana, Maroon 5, Rihanna, Anitta, Lucas Lucco e Ludmilla colecionam destaque nas rádios, agendas lotadas, milhares de seguidores nas redes sociais e um grande número de fãs.

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Fãs X Fãs

Mesmo no meio de tanto amor, euforia, dedicação e até devoção, sempre há espaço para as famosas “tretas”. É natural do comportamento humano defender o que ou quem se gosta, aquilo com que se tem afinidade, mas em alguns casos os fãs exageram. Muitas vezes, os famosos entre si nem possuem algum problema de fato, mas nesse universo dos ‘‘fanáticos’’, pouquíssima coisa já serve para despertar o ‘‘ódio’’ que há dentro cada um. Críticas negativas, acusações de imitações, fofocas… tudo isso, quando dito sobre o ídolo escolhido, é motivo de uma boa discussão.

Na época de ouro do rádio brasileiro, havia uma disputa forte entre as cantoras Marlene e Emilinha Borba. Emilinha, a maior estrela da Rádio Nacional, vê a cantora novata Marlene ser escolhida como a nova estrela do rádio no concurso Rainha do Rádio. Emilinha, que era dada como vencedora, ficou em terceiro lugar. Apesar disso, elas chegaram a gravar algumas músicas juntas. Entretanto, desde então, surgiu uma ferrenha rivalidade entre os fãs das duas cantoras.

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As rainhas da Era de Ouro da Rádio: Marlene e Emilinha Borba

Ainda no Brasil, uma rixa bem conhecida é a que existe entre boa parte dos fãs das cantoras de axé Ivete Sangalo e Claudia Leitte. As duas negam qualquer desavença, mas alguns fãs de Ivete alegam que Claudia não é original, copiando muita coisa que Ivete fez ou faz. O estudante André Vidal, de 20 anos, conheceu o trabalho da cantora Claudia Leitte ainda quando ela era vocalista da banda Babado Novo, e desde então vem acompanhando a artista. ‘‘A princípio, gostei da Claudia porque ela sempre foi muito divertida e espontânea (e eu tenho uma mania de gostar de artistas que ninguém gosta) ’’, diz ele. André ainda afirma que ela o inspira por ser uma artista que se esforça muito para aprender e melhorar. Segundo ele, a maioria do pessoal critica Claudia Leitte faz só por criticar mesmo, sem embasamento, e que esse suposto climão entre Ivete e Claudia é construído pela mídia. ‘‘As duas possuem uma musicalidade diferente, com a Veveta sendo mais MPB, e a Claudia trazendo muito pop, reggae e ritmos latinos e africanos. E também acredito que há espaço para todos os artistas no mercado’’, conclui.

A jornalista Larissa Gouveia, adora Ivete e, desde 2006, vai uma vez por ano em alguma apresentação da cantora. ‘‘Além de o show ser maravilhoso, a imagem que ela passa é de uma pessoa boa de coração. Então, essas qualidades fazem com que eu queria acompanhá-la’’, diz. Larissa afirma que não gosta de Claudia Leitte, e que sempre rola uma discussão leve com algum amigo por conta dessa ‘’briga nacional’’ entre Ivete e Claudia. ‘‘Acho engraçado, os fãs da Claudia realmente levam isso muito a sério’’, observa.

No cenário internacional, uma briga grande é entre os fãs de Madonna e de Lady Gaga. Desde o estrelato internacional da MotherMonster, fãs de Madonna alegam que Gaga imitava a ‘‘paixão’’ de Madonna em polemizar, principalmente em assuntos sensíveis, como sexo e religião. O estopim para essa rivalidade foi quando, em 2011, Gaga lançou uma música chamada Born This Way, que possuía consideráveis semelhanças com Express Yourself, lançada por Madonna em 1989. Isso foi motivo de briga entre vários fãs das cantoras, sendo que a própria Madonna se manifestou sobre tal semelhança. Em entrevista ao programa Fantástico em 2012, a rainha do pop ironizou dizendo que gostava muito da música e estava feliz de ter ajudado a escrevê-la. Enquanto isso, Gaga reafirmava não se tratar de cópia em nenhum ponto – nem na melodia nem na letra – e que sinceramente não via semelhança alguma entre as músicas. Essa discussão nunca ganhou um basta e desde então foi mais um motivo para muitos fãs das cantoras se estranharem, principalmente nas redes sociais.

A publicitária Monalisa Menezes é fã de Madonna desde os 10 anos de idade, e explica as motivações de ter a cantora como ídolo. ‘‘Ela me fez enxergar as pessoas com um olhar diferente e me despiu de qualquer tipo de preconceito que eu poderia ter. Me ensinou a ser forte e lutar pelo que eu quero. Sempre admirei mulheres fortes, independentes e transgressoras e para mim a Madonna é a personificação dessas qualidades’’, conta a jovem. Quanto à rixa que paira no ar com Gaga, Monalisa disse que já comprou muita briga com fãs da cantora, mas hoje pensa diferente. ‘‘Acredito que o problema seja mais com os fãs da Lady Gaga. Se sou fã de alguém, me preocupo somente com o meu ídolo. Se o trabalho de outro artista não me agrada, procuro ignorá-lo. Fazer críticas e atacar os fãs dessa pessoa não é certo, afinal, temos o direito de gostar de quem quisermos’’, complementa.

Já a paulistana Bianca Bologna, se declara uma Little Monster – apelido dado aos fãs de Gaga – desde 2008. ‘‘Ela me chamou muito a atenção logo de cara foi a forma descontraída que ela lida com a fama e esse lado de ‘não tenho medo de parecer ridícula’. Simplesmente faz e veste o que dá vontade, ou o que quer para impactar, sem ter o receio das críticas, lidando com tudo de uma forma tranquila’’, afirma Bianca. Quanto às comparações entre Madonna e Gaga, ela firma que não consegue ver semelhança no perfil de uma e de outra para que ocorra essa “rivalidade” que tanto pregam, além de achar uma tremenda bobagem alguns fãs das duas cantoras se coloquem como rivais.

Quando o amor vira obsessão

Muitos fãs fazem algumas ‘‘loucuras’’ por seus ídolos, como acampar em porta de hotel ou no aeroporto, faltar o trabalho para ir a um show, se endividar para comprar ingressos e CD’s ou acompanhar o máximo de apresentações que puder. Porém, em alguns casos, essa relação de fã/ídolo começa a fugir de uma normalidade e ficar preocupante, se tornando perigosa. Muitos famosos como Sandra Bullock, Justin Timberlake, Emma Watson, Joss Stone, Selena Gomez e David Letterman, já enfrentaram perseguições até invasões de suas residências por fãs doentios.

Há algumas semanas, o Brasil presenciou o caso da apresentadora e modelo Ana Hickman, que foi abordada por um fã obcecado por ela em Belo Horizonte. A admiração do mineiro Rodrigo de Pádua, de 30 anos, pela apresentadora passou dos limites e se tornou uma perigosa obsessão. Rodrigo hospedou-se no dia 20 de maio, um dia antes da chegada de Ana Hickmann, no hotel onde ela ficaria. Na tarde do sábado (21), Rodrigo rendeu o cunhado da apresentadora, levando-o para o quarto onde estavam Ana e sua assessora. Apesar de armado, Rodrigo, além de dizer que foi Deus que disse onde a apresentadora estaria, falou coisas como ‘‘ eu não sou assassino’’ e que ‘‘essa mulher acabou com minha vida, ela não teve um pingo de compaixão’’.

O desfecho trágico da história foi a morte de Rodrigo. Segundo os depoimentos prestados pelos envolvidos no caso, o cunhado de Ana entrou em luta corporal com Rodrigo, desarmando-o e em seguida efetuando dois disparos. O caso é investigado como legítima defesa.

De acordo com vários especialistas, o comportamento de Rodrigo foi além do fanatismo: ele podia sofrer de erotomania, que é um transtorno psiquiátrico onde o indivíduo delira e acredita que outra pessoa, normalmente de projeção midiática ou status elevado é secretamente apaixonada por ele, e que por algum motivo eles não conseguem ficar juntos. A equipe de Ana Hickmann já tinha conhecimento de Rodrigo e já havia bloqueado ele nas redes dela por causa do teor de seus comentários. Na conta que mantinha no Instagram, tanto as postagens que ele fazia sobre a apresentadora quanto nos comentários da conta oficial dela contavam sempre com imagens em texto que mostravam ao mesmo tempo devoção e ressentimento, já que não era correspondido.

No meio musical a coisa não é diferente, e muitos artistas acabam precisando intensificar a sua segurança particular ou até mesmo fazer contato com a polícia a fim de evitar situações piores. Em 2004, um homem de 30 anos foi acusado de perseguir a canadense Avril Lavigne. Ele mandava cartas e presentes, não só para ela, mas como para membros da família dela.

Em 2014, a cantora Taylor Swift, temendo por sua segurança e da sua família, conseguiu uma ordem de restrição para um fã desequilibrado que a perseguia desde 2011. Ele enviava e-mails, cartas e postagens nos perfis nas redes sociais de Taylor, afirmando que era casado com a cantora e ameaçando matar quem se colocasse entre o casal.

Mas quando se fala da relação de um fã obcecado por algum ídolo, logo lembramos do caso da morte de John Lennon. O então ex-Beatle sofreu um atentado no dia 5 de dezembro de 1980 enquanto caminhava em frente ao edifício Dakota, em Nova York. Horas antes de efetuar cinco disparos contra Lennon, o dito fã Mark Chapman tinha conseguido um autógrafo do cantor, juntamente de outras pessoas.

Há muitas conspirações e controvérsias sobre o caso – desde que Chapman não era um fã até uma ação da CIA . Mas, de acordo com depoimentos, ele era fã dos Beatles e tinha uma fixação por Lennon. Mark Chapman não fugiu do local do crime, estando preso desde 1980, condenado à prisão perpétua.  Independente das muitas teorias criadas para a morte do músico, o episódio ficou conhecido como ‘‘o dia em que um fã enlouquecido matou seu ídolo, John Lennon’’.

O músico John Lennon, em 1980.

 

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