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Luiza Marcondes – Aos reflexos do globo, jovens transbordam na voz de Beyoncé. Os passos bem ensaiados e cabelos prontos para serem batidos gozam da noturna sensação de liberdade. De mãos dadas, os últimos acordes soam como o despertar para a violenta realidade. Momento temido por aqueles que angustiam a volta para casa e a inquietação da espera nos pontos de ônibus vazios madrugada a dentro. “Vamos bater? Vamos bater?”, as questões ameaçadoras vem da voz de pessoas de mesma matéria, carne e osso. De mãos ainda dadas, as exclamações do amar aceleram no peito. A qual deus podem rogar aqueles que temem, por praticar o amor, não o assalto, mas a morte?

Essa foi uma das tantas ameaças que sofreram Lucio Almeida, de 19 anos, e Marcos Prado, de 21. O motivo? Demonstrar amor por uma pessoa do mesmo gênero em um local público, a intolerância escancarada da sociedade. “Isso nos lembrou que fora do nosso espaço sofremos muito preconceito. A maior preocupação da minha família nunca foi com o fato de eu ser gay, mas com a forma que a sociedade lidaria com isso”. Em fevereiro desde ano, os dois assinaram um contrato de união estável. Umbandistas, a cena mais marcante na vida do casal veio através da aceitação por uma entidade, da falange de boiadeiro, em sua religião.

“Ela colocou nós dois frente a frente e disse para olhar um para o outro sempre se apaixonando mais. A entidade colocou nossas mãos juntas, como se abençoasse a nossa união. Tem uma outra entidade, um preto velho, que sempre me aconselha para que não brigue e ore por nossa união. Isso é muito gratificante dentro da nossa religião. Veio de uma pessoa que, como medium, poderia estar cheia de preconceitos e que prega o amor”.

Mas nem sempre foi assim, de família fundamentalista cristã, Marcos encontrou muita dificuldade na aceitação de sua condição homossexual na adolescência. Ele acredita que a desconstrução de preconceitos é um processo de aprendizado na relação com o outro.

“Meu processo de descoberta como homem gay foi bastante traumático por estar inserido em um meio que não aceitava essa condição. Quando eu conheci a umbanda foi todo um processo de desconstrução dessas experiencias que eu tive, enquanto protestante. Eu tinha receio de entrar na religião e sofrer preconceito, mas isso não aconteceu, porque a lei de umbanda é basicamente amor e caridade. E quando você prega isso você não pode descriminar nenhum tipo de pessoa”.

O casal, vê o cenário político com insegurança pela possível candidatura de uma pessoa conservadora para a presidência da república. Para eles, direitos sociais conquistados a duras penas estão retrocedendo e a diferenciação de tratamento entre orientações sexuais se torna explícita no cerceamento do direito a um nome, do direito a ser família, do direito de compartilhar o seu sangue com quem precisa.

“A nossa união no campo espiritual é só uma benção, nós como seres humanos precisamos de direitos. E a gente acha isso muito importante porque, nós como duas pessoas que dividem a vida juntos precisamos de direitos.  Nós não somos reconhecidos como família e nós somos uma família. Não estamos limitados só a religião, essa é uma das coisas que nos atravessa enquanto casal homo”.

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