Soy loco por ti Espírito Santo

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Andreia Ferreira, Juliana Benichio, Thalita Mascarelo e Thales Delaia – Estrangeiros de diferentes partes da América Latina compartilham os desafios e as alegrias de morar em terras capixabas

Não é fácil se adaptar a uma nova cultura e, ao mesmo tempo, manter a sua própria quando se muda de país, seja para morar em definitivo, para realizar intercâmbio ou por férias. Os diferentes modos de viver, de comer, de agir, de falar, tudo passa por um processo de adaptação. Processo esse que é enfrentado diariamente pelos latino-americanos que escolhem fazer do Espírito Santo a sua casa.

Rodrigo Gutiérrez Herrera, 25 anos, é um chileno nascido na cidade de Concepción, a segunda mais povoada do Chile. Formado em Antropologia pela Universidade de Concepción, veio a terras capixabas em busca do mestrado em Educação Física. Ganhou sua bolsa de estudos através da inscrição no programa OEA (Organização dos Estados Americanos) e dentre as diversas opções de cidades brasileiras, escolheu Vitória por ser tranquila e pequena. “Não é uma grande cidade como São Paulo e Rio de Janeiro. Vitória é muito similar à Concepción, fica perto do mar e tem quase a mesma população, sendo a de Vitória um pouco maior. É um lugar tranquilo para estudar e morar”, diz.

Antropólogo Rodrigo Gutiérrez Herrera
Antropólogo Rodrigo Gutiérrez Herrera

Vivendo há apenas três meses na região, Rodrigo não teve problemas em sua adaptação. Ao chegar, se hospedou em um hostel no centro da cidade e lá ficou por três semanas. “Foi uma experiência muito boa, conheci muitas pessoas daqui de Vitória e outros estados, como Minas, Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo”, afirma. Sobre a fama dos capixabas de ser um povo mais introspectivo e antipático, Rodrigo diz que foi bem recebido. “Acho que os capixabas são mais fechados em relação aos outros brasileiros, mas no Chile as pessoas são ainda mais fechadas. Lá ninguém se fala nas ruas e os chilenos confiam mais em quem conhecem. Aqui as pessoas são mais receptivas, mais calorosas; pra mim são muito gente boa, especialmente com os estrangeiros”. Ele ainda lembra que, assim que chegou, as pessoas sempre se mostravam dispostas a ajudar, principalmente quando ele se perdia e precisava ir a algum lugar.

Sendo um antropólogo, Rodrigo afirma que aprecia as diferenças sociais e culturais. “Gosto de conhecer outras tradições, então tento sempre conhecer e pega-las quase como próprias”. Aqui, passou a se vestir praticamente como um brasileiro e ele não deixa de enfatizar seu gosto pelos famosos chinelos. “No Chile, ninguém tem esse costume por conta do clima, lá é muito frio e todos andam sempre muito agasalhados”. Rodrigo destaca, ainda, que tem frequentado muitas festas e que gosta de dançar. “Acho que os brasileiros sempre têm um motivo pra festejar, pra celebrar, eu gosto disso”, sorri. Porém, apesar de beber muito nas festas capixabas, para ele a experiência não é como no Chile. “Lá qualquer coisa é motivo para beber. Se a seleção ganha, bebem; se perde, também bebem e se nada acontece, bebem para acontecer”, ri.

Ainda no que diz respeito às diferenças entre seu país de origem e o que vive agora, além do comportamento dos habitantes e do clima (que para ele define muito a forma de vida de uma sociedade), Rodrigo ressalta que o Brasil tem uma identidade própria. “Além de nenhum outro país na América falar português, vocês criam uma identidade e gostam das tradições locais. Na música, por exemplo, vocês valorizam o nacional. No Chile, gostamos muito das músicas estrangeiras e temos muita influência de outros países”. Em relação a linguagem, Rodrigo diz que no vocabulário chileno há muito mais palavrões e gírias do que aqui. “Lá todos falam com muitas gírias, coisas que, as vezes, nem eu mesmo consigo entender”. Além disso, ele conta que lá as pessoas, pelo modo de vida, andam, caminham, fazem tudo mais rápido. “Aqui são mais devagar. Se você vai ao supermercado, por exemplo, as filas são grandes e lentas. Ninguém se preocupa, também, de chegar mais cedo na sua casa, nos lugares. Não se tem preocupações nesse sentido, do tempo. Lá, principalmente em Santiago, as pessoas são mais ansiosas, não gostam de esperar”, relata.

Em seu mestrado na Ufes, Rodrigo tem contato com muitos outros hispano- americanos, dentre eles argentinos, colombianos, mexicanos, peruanos, etc. Ele diz que alguns tentam manter as tradições de seus países por aqui. “Alguns não são tão receptivos, por exemplo, a falar português. Sempre que posso estou falando português, mas tenho amigos que em grande parte do tempo só falam espanhol”. Rodrigo expressa que gosta muito de aprender coisas novas com os capixabas, desde o modo de falar até em saborear pratos desconhecidos.

Estando há pouco tempo na capital do Espírito Santo, Rodrigo certamente ainda tem muito que conhecer. No entanto, ele ainda não sabe dizer se permanecerá aqui após o mestrado. “Por enquanto, quero focar nos estudos. Tudo vai depender de como vão acontecendo as coisas”. Sendo uma pessoa que naturalmente tem curiosidade em conhecer outras culturas e que gosta de viajar, ele não descarta a possibilidade de viver em outras cidades brasileiras. Ainda assim, Vitória tem um lugar especial em sua trajetória.

Um mexicano em Vitória

Mestrando do curso de Letras da Universidade Federal do Espírito Santo, o mexicano David Rivera compartilha com o Universo Ufes alguns dos motivos que o trouxeram para o Brasil e algumas curiosidades de seu dia a dia longe de casa.

Tempero peruano em Vila Velha

Morando no Brasil há oito anos, Ernesto Guevara Herrera encontrou em Vila Velha a oportunidade de expandir seus negócios de uma maneira muito criativa: através da culinária típica de seu país. Nascido no Peru, Ernesto e seus irmãos se mudaram para Brasília, e lá moraram por cerca de sete anos. O desejo de abrir um restaurante que servisse comida tradicional de seu país os trouxe ao Espírito Santo, onde notaram uma carência no setor.

Após muito trabalho e dinheiro investido, os irmãos Herrera inauguraram, em dezembro de 2015, o Cevichop. Localizado em Itapuã, o restaurante é o primeiro estabelecimento gastronômico dedicado à culinária peruana no estado. E as influências desse país estão por toda a parte, a começar pelo nome, que tem origem no ceviche, iguaria de destaque da gastronomia do Peru feita com cubos de peixes cozidos em uma solução cítrica.

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Ernesto em seu restaurante com a bandeira do Peru

De acordo com Guevara, a recepção dos capixabas foi positiva logo no início. “Por se tratar de uma novidade, as pessoas estavam curiosas para conhecer o espaço e saber mais da cultura do Peru, já que aqui, diferentemente de outros estados brasileiros, ela não é tão difundida”.

Apesar de muitos alimentos que são utilizados na cozinha peruana também fazerem parte do cardápio capixaba, como os frutos do mar, a forma de preparo é o diferencial. Ernesto acredita que isso é um atrativo para despertar a curiosidade nas pessoas em experimentar pratos de outras culturas.

Prato peruano Jalea e o drink cevichop
Prato peruano Jalea e o drink cevichop

Além da gastronomia, Ernesto encontra nas festas outra forma de manter o vínculo com a cultura hispano-americana. São nas festas temáticas promovidas pelos quiosques da praia de Camburi, em Vitória, que ele entra em contato com dois aspectos essenciais de sua cultura: a língua e a música.

“Em eventos assim, eu encontro muitos amigos de outras partes da América Latina, como colombianos, chilenos, argentinos e, é claro, peruanos. Inclusive, da pra “matar a saudade” da minha língua nativa e de ritmos como a bachata, merengue, salsa e reggaeton, que são muito comuns no Peru, mas que dificilmente a gente ouve em festas brasileiras”.

Lições além da sala de aula

Aqui no Espírito Santo, a professora de português Lilian Rodrigues entende bem como é ser diferente e ter que se inserir numa nova cultura, uma vez que dá aula na Ufes para estrangeiros latinos que estão no país para conhecer e aprender a língua brasileira.

 “Minha aula tem duração de uma hora, uma vez por semana e atividades para casa no intervalo das aulas. Trabalho aspectos da gramática, oralidade, discurso formal/informal, etc. Tento fazer com que as aulas sejam das mais dinâmicas possíveis, levando à galeria de arte, levando música, explicando a história do Brasil através dessas músicas, trabalhando interpretação, entre outros”, comenta.

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Lilian (a terceira da direita para a esquerda) visita com seus alunos uma galeria de arte, na Ufes

Ela acredita que por serem estudantes de outro país, eles precisam de um tratamento diferenciado, pois o andamento da aprendizagem muda. “Acho importante que ao dar as aulas de português eu adapte a minha postura para que a turma entenda bem e, aos poucos, acrescento expressões brasileiras e gírias cotidianas na minha fala”, explica.

A interação com os alunos latinos beneficia não só a eles, que precisam entender a nossa língua, como também à professora, que ao lidar com pessoas de culturas diferentes adquire mais conhecimento sobre o modo de entender a vida. “Eles são meu público alvo, trabalho diretamente com eles e procuro aprender tudo o que posso sobre a cultura, a política e economia do país deles, e tento trazer essas discussões para a sala de aula pra que eles se sintam mais motivados em expor suas ideias em português. É necessário buscar o que o aluno tem a dizer e aprender junto. Nossa aula é, na verdade, uma troca de experiências e vivências em português”, diz a professora.

Lílian Rodrigues, no momento, dá aula para alunos da Colômbia, da Venezuela, do Peru e de Cuba e essa interatividade entre latinos dos mais variados países enriquece a cultura de cada um e nos coloca todos juntos como latino-americanos. “Tenho alunos de idades variadas, desde jovens universitários a avós, de profissões muito diversas, como médicos, advogada, psicóloga, manicure, mestrandos, doutorandos. São grupos de pessoas muito diferentes que se encontram toda semana com um objetivo em comum: aprender o português e se sentir bem nesse novo lugar com quem também procura isso”, comenta Lilian.

Em relação ao modo que eles enxergam os capixabas não é diferente daquilo que nós ouvimos no dia a dia: “Com a cultura em geral não têm muitos problemas, todos dizem que somos povos muito parecidos. Alguns dizem que os capixabas são fechados, mas desconfio que eles podem ter escutado isso na rua através dos próprios capixabas e começaram a reproduzir, porque a maioria diz que foi muito bem acolhida”, diz.

Independentemente das semelhanças e diferenças, em uma parte todos concordam: viver no Espírito Santo, apesar dos desafios, é e tem se tornado uma experiência muy gratificante, em todos os sentidos.

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