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Thamara Machado – Assim que cheguei no quintal repleto de plantas , conheci D.G – decidi por aqui, utilizar as iniciais – que prontamente me recebeu em sua residência . Logo ao entrar ,passando pela cozinha, me chamou atenção uma espécie de beco iluminado por velas estampando o rosto de Nossa Senhora da Penha. Ao lado delas, imagens de anjos, de São Francisco e de Jesus Cristo. Ainda para complementar o cenário havia uma bíblia, um terço e um copo de água – que até então para mim, recém chegada na casa, não fazia o menor sentido. Logo D. G me chamou para sentar e contou-me que na sua casa nunca havia tido uma briga sequer, que ali era lugar de paz e que assim eu deveria me sentir. Enquanto ele falava da sua esposa e o quanto existia fidelidade entre eles reparei um quadro gigantesco de Jesus Cristo e perguntei quanto a sua religião, que ele disse ser católico, mas que nem sempre foi assim. A partir daí entramos no assunto de espiritismo e mediunidade. D.G que é de Minas Gerais e chegou a Vitória em um carregamento de porcos, contou que para conseguir sobreviver ao caos da cidade teve a ajuda de inúmeros “desconhecidos”  – que em um determinado ponto da nossa conversa, entendi o papel deles para a sua mediunidade.

A mãe de D.G era participante da Comunhão do Círculo Esotérico, de cunho espírita, no estado de Minas Gerais , mas ele diz que nunca gostou de frequentar o rito e que sempre inventava uma desculpa para não ir. “Mas você sabe como é, o mais novo tem sempre que acompanhar a mãe.” Aos dez anos ele perdeu a mãe. Ele lembrou que no leito de morte, sentiu a obrigação, mesmo que criança, de pedir perdão pelos maus feitos. A mãe apenas disse a ele: “Termine o que eu comecei”, conta. D.G não entendeu o que aquilo significava até, anos mais tarde, sentir-se muito mau e ir parar em uma casa espírita, a do Pai Valdemar, em Bicanga na Serra. Ao conversar com a entidade do Pai, que era um preto velho, descobriu que o mau estar era provocado por um conflito espiritual muito forte que D.G passava. “Foi a partir desse momento que eu descobri que tinha a mediunidade, e que eu deveria usá-la para fazer o bem às pessoas”. Nesse momento ele olha para mim com um ar de desconfiança, como se eu não acreditasse no que ouvia. Para acabar com o mal estar, D.G citou um caso de uma internação em que pela primeira vez ele esteve em contato com a cura. “Me disseram que em um determinado momento, eu me levantei da enfermaria e fui até outro leito e orei por um “desconhecido”que passava muito mal. No outro dia, ele não estava mais lá e soube que ele tinha recebido alta”

Meses depois, D.G recebe a doação de um terreno, que hoje é a sua casa, para a construção do seu centro. Aqui eu entendi o papel dos “desconhecidos” na vida dele. O centro foi todo custeado e mantido por doações desses personagens que ele não muito conhecia , mas que de alguma forma passaram por sua vida de orações. Ele me disse que no auge do terreiro ele teve cerca de “50 cabeças de santo”, que poderiam ser entendidas como integrantes que também faziam orações e benzimentos. “Chegávamos a atender de manhã até às 3 da madrugada, mas nunca cobramos nada por isso. Certa vez, uma menina chegou até mim amarrada e gritando muito. Ficamos a noite inteira rezando por ela. No final das orações, o pai dela perguntou quanto ele me devia, e eu lhe disse que não devia nada a mim, mas a fé em Jesus Cristo”, lembrou D.G . Depois de ouvir tantos casos de cura, quis entender melhor como era o ato de benzer, já que eu nunca tinha passado por isso. Pedi a ele para que “me orasse” e ele de inicio se recusou, dizendo que eu não tinha problemas a resolver, mas logo depois mudou de ideia.

Minha experiência com o benzimento
Quando pensava em benzimento, ou como D.G prefere chamar, orações, logo me vinha à cabeça os ramos incessantemente sendo batidos por todo o corpo de quem é “orado”. Surpreendeu-me quando, sentada, ele pegou um copo de água e começou a rezar em tom mais baixo – logo lembrei do copo de água que estava no oratório assim que eu cheguei em sua casa. O resto eu não sei contar, foi um estado de sinestesia, subjetividades, sentidos e percepções ainda não interpretadas por mim.


Após a oração, conversamos mais intimamente no quintal de sua casa. Lá, ele me receitou um banho de mar e de arruda, que ele mesmo extraiu da sua horta. As plantas e chás, segundo ele, são determinantes para o bom sucesso de uma oração. A conexão com a natureza, é marcante nos ensinamentos que envolvem cura, como é o caso de benzimentos. Isso é entendido por meio do sincretismo religioso e sobretudo a herança dessa prática com religiões de matriz africana, talvez por isso se dê essa relação controversa e oculta entre o oficio do benzedor em relação às religiões cristãs.
O caso de D.G reflete um pouco disso. Hoje, ele não se identifica como benzedor e sim como um “orador”. Ocupa um cargo significativo na Igreja Católica, mas continua “orando” as pessoas em troca do bem (por isso, em respeito a ele, mantive sua identidade em sigilo).

Saí de lá com a arruda na mão e inquietações na cabeça.

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