Mulheres no Graffiti contestam o espaço urbano e os papeis de gênero em Vitória

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Júlia Zumerle, Lorraine Paixão, Luiza Marcondes e Mariah Friedrich  O Universo Ufes entrevistou quatro mulheres capixabas que usam o grafitti como instrumento de luta contra as opressões de gênero. Cada entrevistada narra sua trajetória dentro desse espaço que é majoritariamente masculino. Nas falas das grafiteiras, o leitor irá se deparar com dois termos diferentes para nós, leigos ao universo do grafitti, mas muito comum aos grafiteiros: crew e rolê. O termo inglês crew significa equipe e é usado para designar os grupos de grafiteiros, já rolês são todas as saídas para grafitar a cidade.

Kika

Kika Carvalho tem 24 anos, é estudante de artes visuais e grafiteira. Ela começou a grafitar em 2009, quando participou de uma oficina no Centro de Referência da Juventude (CRJ), em Jucutuquara, Vitória. Kika entrou para a oficina porque, apesar de já ter noções de desenho, não tinha tanta facilidade em trabalhar com cores. Assim que começou as atividades no CRJ, logo foi convidada para participar dos rolês dos grafiteiros da PMM Crew.

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Kika Carvalho era a única mulher da crew. “Toda mulher sofre opressão por onde passa. Por eu estar ali num meio majoritariamente masculino isso ficou bem explícito”, conta ela, que também já sofreu assédio em alguns rolês. Três anos depois de ter o primeiro contato com o grafitti, se reuniu com mais outras meninas grafiteiras e criaram o Coletivo Das Mina. “O coletivo só de minas, é representatividade. Aonde a gente não se vê, a gente não se acha capaz de estar naquele espaço”, diz Kika, que hoje se afirma feminista e tem como principais referências nacionais no grafitti Anarquia Boladona, do Rio de Janeiro, e Mag Magrela, de São Paulo, que também trabalham com temas feministas.

Muitos artistas veem no grafitti, além de instrumento de expressão de cada um, como uma saída para democratizar a arte na cidade. Perguntada sobre quais os espaços urbanos preferidos,Kika é certeira e diz preferir fazer seus grafittis nos muros das periferias. “Eu tenho um carinho por espaços periféricos porque sei que a relação que eles têm com pessoas que fazem intervenção urbana é outra. Em bairro nobre, esses espaços mais higienizados, as pessoas ainda têm preconceito, apesar de hoje em dia o grafitti estar se tornando uma coisa mais pop. Mas de maneira geral a periferia sempre abraçou o grafitti”.

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Kika interpreta o ato de grafitar como um ato político e faz dele também uma causa política. Atualmente, ela tem feito mais grafittis com temas que discutem o feminismo, as questões de gênero e a violência contra a mulher. Desde 2013, ela realiza o projeto “Prazer, eu sou o Espírito Santo” que denuncia através do grafitti os alarmantes números de feminicídios no estado. “Acho que é um tema [o feminicídio] que necessita ser discutido, mas as pessoas de modo geral não querem discutir. Quando você insere esse tema na paisagem urbana acaba sendo experienciado no cotidiano das pessoas, quer elas queiram ou não”, conta ela.

Além de ter o grafitti como instrumento político, Kika diz também que o tem como uma espécie de válvula de escape e acredita que ele a escolheu. “Eu não escolhi o grafitti, acho que foi o contrário. Ele me abraçou e estamos aí até hoje”.

Valente

“Ser mulher e ativista no ES significa segurar muita barra, dar conta do recado, porque se não fizer o trampo direito sabe que neguinho julga”, nos disse Naarie Valente, que tem 20 anos e começou a grafitar há 8 meses, a convite de um amigo. Antes disso, só tinha a oportunidade de usar o spray uma vez ou outra, de uma forma muito rápida.

Durante o tempo que levou para entrar no movimento, era comum questionar o próprio potencial em um espaço dominado por homens. Ela se aproximou do graffiti depois de ter conhecido o trabalho de Kika Carvalho, uma das primeiras mulheres grafiteiras que conheceu no estado. A partir daí percebeu que não estava sozinha como mulher dentro da cena. “Eu já desenhava e pixava, comecei a fazer graffiti porque me identifiquei com a ideia de expor as paradas no muro, a gente entende que passar as mensagens pode ser uma ferramenta de transformação social”, conta.

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Adepta do ciclo-pixo, percorre a Grande Vitória de bicicleta com seus sprays, mas prefere os bairros de periferia, que sofrem com a falta de estrutura e a negligência do poder público, por acreditar na transformação que o impacto visual proporciona nesses espaços. Moradora de Balneário de Carapebus, na Serra, onde é a única garota no movimento do pixo, Naarie entende o graffiti como um ato de revolução e um instrumento de conexão entre o homem e o espaço urbano. Gosta de confrontar assuntos tratados de forma arbitrária pela grande mídia, como racismo, visibilidade da mulher negra e ancestralidade do povo negro.

“É bom colocar nos muros para que a informação chegue onde tem que chegar, por isso gosto de fazer trabalhos nas periferias, onde o povo negro se encontra. A gente mora na periferia, a gente ocupa esses espaços e é importante ocupá-los com arte também. Não são só as referências ruins da televisão que contam a nossa história, a gente mesmo pode ter essa oportunidade por meio da arte”, diz Naarie.

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As composições dos graffitis permitem passar mensagens simples e de fácil entendimento. “Às vezes as palavras não dão conta. Os murais são uma forma de gente que não tem representatividade poder passar a nossa mensagem sem ser ignorada. A informação está dada, é existente, você pode até fingir que não viu, mas vai te afetar de alguma forma”, destaca a grafiteira. As pinturas não autorizadas são ainda mais perigosas quando se é mulher, significa se preocupar não só com a interferência de policiais, mas sentir como a rua à noite ainda é um espaço perigoso.

Se os homens ainda a excluem do rolê, a articulação das mulheres do graffiti não deixa que ela duvide de seu potencial como artista ou se intimide ao ocupar os espaços públicos. “O machismo ainda impera na cena, como em tantos outros campos. Já sofri assédio de homens do movimento. Os caras duvidam da nossa capacidade, já acham que a gente vai ramelar, dar mole”.

Keka

Perguntada sobre quando começou a se interessar pela arte urbana, Jessyka Florêncio, ou Keka, conta que já gostava de desenhar desde nova, um pouco por influência do pai artista, mas seu primeiro contato com o estilo aconteceu depois de ter lido uma revista sobre o tema. Em 2009, começou a arriscar os primeiros rabiscos em uma oficina promovida por grafiteiros da capital. “Sempre estive rodeada de pessoas que desenhavam e pintavam, então eu vi o graffiti na revista e me apaixonei. Logo depois assisti a uma reportagem na televisão falando que ia rolar essa oficina de graffiti. Desde essa época [2009] venho desenvolvendo meu trabalho na rua”.

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Integrante da Força Graffitacional Crew (FG Crew) e da União Nacional Crew (UNC), Keka é reconhecida por retratar delicadas figuras femininas que transitam entre uma aparente fragilidade e uma grande força interior. Como mulher vivendo no estado com a maior taxa de feminicídio do país, Keka luta para fortalecer o movimento de resistência contra a desvalorização e insegurança diária. “Ser mulher no Espírito Santo significa isso: Resistência e luta”, ressalta.

Ela pertence à geração de mulheres que vêm conquistando espaço dentro da cultura Hip Hop e rompendo a desigualdade de gênero que ainda se mantinha dentro da cena. Os cenários escolhidos para a produção de seus murais são principalmente os subúrbios da Grande Vitória, onde podem sensibilizar as pessoas que circulam por esses lugares.

“Tive dificuldade pra começar porque meus pais eram muito conservadores e tinham medo de me deixar envolver com a rua, porque eu estaria sujeita a qualquer tipo de situação. A gente se sente um pouco vulnerável, mas vai assim mesmo. Passa por alguns riscos, só que é como qualquer trabalho feito na rua. Eu me vejo como uma artista que está ali fazendo o que gosta”.

 

 

 

 

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