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Júlia Pavin – Relatos e histórias de uma comunidade tradicional que vive há mais de cem anos das riquezas e recursos de um rio.

Em meio ao caos urbano, escondida e silenciosa se localiza uma das comunidades mais tradicionais da ilha de Vitória. Famosa pela pesca, pela gastronomia e pela cultura das desfiadeiras de siri, a Ilha das Caieiras é um dos bairros mais antigos da cidade, formado em sua maioria por famílias cujas histórias se cruzam formando um ponto de referência cultural e tradicional da cultura capixaba.

As ruas estreitas com casinhas coloridas e milimetricamente juntas, ao som das aguas do Rio Santa Maria que abastece a região de trabalho e alimento, se posicionando como núcleo nas relações sociais e econômicas que movimentam o bairro desde o início do século XX, quando foi fundado.

Seu Gilson, marisqueiro nascido e criado na Ilha estava chegando no cais quando o conheci. Era de manhã, por volta de 9 horas e ele voltava com quatro caixas cheias de mariscos para serem limpos e vendidos. Com toda simplicidade e simpatia características dos moradores de lá, não poupou palavras para expressar seu profundo amor, mas também revolta pela atual situação de descaso dos governantes para com o bairro.

Chegando no cais me deparei com uma construção abandonada e com resquícios de utilização recentes. A placa em frente indicava ser a Cooperativa das Desfiadeiras de Siri, em contrapartida, o péssimo estado de conservação demonstrava profundo descaso com a utilidade do local. A Cooperativa, se fosse utilizada, funcionaria como um órgão que legitima e organiza o trabalho das mulheres que trabalham como desfiadeiras.

Das conversas que tive por lá, Seu Gilson, Juliano, Dona Glicéria e Dona Claudete (moradores que vivem das riquezas do rio), não sabiam ao certo o porquê de a cooperativa estar naquela situação, mas pelos relatos identifiquei que a má administração e ambição de indivíduos que lideraram o local o fizeram como está.

Dona Glicéria desfiava uma única bacia de siri na estreita varanda de sua casa quando a conheci. Aos 85 anos, nasceu e morou sua vida inteira no local. Me encantou e emocionou em poucos minutos que estive dentro de sua casa pela sinceridade, gratidão e fé inabaláveis. Naquele dia ela tinha apenas aquela bacia de siri para vender, pois mal tinha se passado uma semana de forte vento sul que havia afastado a corrente que leva o siri para a área de pesca dos pescadores e marisqueiros da Ilha, causando uma escassez temporária do mesmo, que afeta diretamente na economia dos moradores de lá.

Com pouco mais de 30 anos de experiência, dona Claudete descascava siris como eu nunca havia imaginado tal habilidade e rapidez. Ela relembrava com tristeza os tempos de ouro do bairro, quando era apenas uma criança e se banhava nas aguas limpas do rio, enquanto descascava baldes de siri fornecidos por seu irmão e primo, pescadores moradores do bairro.

Embora exista um enorme descaso do governo, a tradição e o amor dos moradores preservam a cultura que é transmitida de geração em geração perpetuando a identidade do local e formando uma das comunidades mais tradicionais da região, referência da cultura capixaba.

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