Share Button

Lais Rocio – A essência de uma Escola de Samba não está na avenida, mas na vizinhança de onde ela nasceu e ainda vive. 

“Habitada por gente simples e tão pobre / Que só tem o sol que a todos cobre / Como podes, Mangueira, cantar?”. Assim entoou o consagrado sambista Cartola à Estação Primeira da Mangueira, escola de samba que fundou ao lado de outros seis malandros e musicistas do Morro da Mangueira, no Rio de Janeiro, em 1928. Marco da tradição do samba como expressão de identidade do povo negro e residente das periferias, a Estação Primeira da Mangueira tornou-se principal ponto de referência para o morro em que se situa, que na época de sua fundação tinha menos de 50 moradores. Há quem diga que a Mangueira faz o papel do Estado em sua comunidade, por ser parte da história de formação do morro e promover projetos sociais há mais de 20 anos. 

As escolas de samba nascem de dentro de uma comunidade, representando seus anseios e sua identidade. A partir da íntima e, por vezes, maternal ligação entra uma escola de samba e sua comunidade, o sentido do samba se torna muito mais afetivo e vital para quem dá a ele significados mais profundos, tal como acontece no interior dos barracões, quando não é fevereiro e quando as agremiações ainda não brilham nas avenidas, mas nos olhos de quem trabalha fora delas e para chegar até elas.São diversos os significados que uma agremiação assume na sua vizinhança, bem como suas formas de representar os moradores à sua volta. O renomado carnavalesco Jorge Caribé, que vivencia o samba desde 1980 e está há dois anos preparando o carnaval da capixaba Novo império, considera a comunidade indissociável e insubstituível para a escola de samba, seja qual for essa agremiação. “A comunidade de uma agremiação não é formada apenas por moradores do bairro, mas por todos aqueles que tem em comum o mesmo objetivo. Sem essas pessoas, a Escola de Samba não tem alma e não tem sangue”, esclarece o sambista.

Na característica essencial das escolas de samba, o interagir e viver com a comunidade acontece de várias formas, e em uma constante troca: de pessoas que contribuem para a manutenção de uma agremiação e de uma agremiação que preenche a vida das pessoas com cultura, lazer, educação, trabalho e sentimentos que transpõem as dimensões físicas de agir coletivamente em prol de algo comum.  “A garantia do bem-estar e divertimento da comunidade é o que a mantém próxima e dentro da quadra. A garra para fazer e vencer o carnaval são a melhor forma de representação dessas pessoas” comenta Caribé.

No Espírito Santo, o surgimento das agremiações mais antigas marcam a tradição do samba e do carnaval na capital, Vitória. Ao lado do primeiro bairro fundado na cidade, Santo Antônio, nasce uma das primeiras escolas de samba do estado: a Novo Império, antiga Império da Vila. Inicialmente, desde 1956, a Império da Vila se situava na Vila Rubim, mas desde 1973 passou a funcionar no bairro Caratoíra, na mesma região, onde foi renomeada como Novo Império e dessa forma existe até hoje.

Já consagrada no carnaval de Vitória, tendo sido oito vezes campeã, a Novo Império carrega em si o desafio de honrar o legado e a história iniciados pelos sambistas que a fundaram – alguns atuais componentes da Velha Guarda da agremiação – e ainda a responsabilidade social de garantir a permanência da vizinhança dentro da quadra, como fonte de trabalho ao longo do ano e representação da Novo Império em um único mês, durante alguns minutos, no Sambão do Povo. “Se não houver a presença da comunidade local, há um desfile frio, sem amor e sem paixão. As famílias que pertencem àquela bairro e viram a escola de samba nascer, elas são o sangue e o coração que pulsa pela agremiação”, complementa o carnavalesco Jorge Caribé, sobre a importância fundamental da comunidade da Novo Império.

Baianas, comissão de frente, bateria, alegorias, adereços, fantasias, passistas, alas inteiras, enredo e harmonia evidenciam as formas de presença e atuação da comunidade na agremiação. A demanda da Novo Império em ser símbolo de seu povo é significativa, especialmente quando seu entorno consiste em uma variedade de bairros conectados entre si.

Por trás dos holofotes da avenida, as escolas de samba dependem de um funcionamento e organização autônomos, designados pelas condições de um trabalho comunitário, árduo e hierarquizado. No caso da Novo Império, o trabalho desempenhado ao longo do ano pelos seus diversos departamentos não é remunerado, e a captação da renda necessária para a confecção de todo o carnaval provém da produção de eventos e da contribuição dos sócios imperianos.

O atual presidente da agremiação, Alessandro Souza, assumiu há um ano a nova gestão da Novo Império com alguns compromissos inadiáveis: modificar o cenário da Novo Império depois da escola ter sido rebaixada, em 2015, do Grupo Especial – onde ficam as candidatas à campeãs do Carnaval – para o Grupo de Acesso. Com o decesso registrado na história de ascensão da escola até então, veio o consequente afastamento da comunidade, que diminuiu sua frequência na quadra e a atuação direta como imperiano. Nesse contexto, a nova presidência inclui estratégias de resgatar membros, seja para frequentar ensaios, compor projetos ou trabalhar cotidianamente para que o carnaval aconteça da melhor forma possível. Desde então, com o carnaval deste ano a Novo Império teve seu primeiro objetivo conquistado: subiu novamente ao Grupo Especial e conta, atualmente, com 50 a 80 pessoas na quadra por dia.

Se os esforços necessários para o sucesso na avenida exigem um duro trabalho coletivo ligado à comunidade tradicional da Escola de Samba, o alcance dessa façanha só é possível se os membros se sentirem pertencentes à agremiação e se, enfim, o trabalho valer à pena de alguma forma. Segundo Jorge Caribé, “a melhor forma de recompensar as pessoas é contar com a presença dela nos eventos por meio das associações com a agremiação, para que possam bater no peito e dizerem que são sambistas da Novo Império. Além disso, é imprescindível oferecer alas doadas e fantasias cedidas aos moradores da comunidade”.

Ainda assim, a racionalidade acaba sendo insuficiente para se explicar o empenho comunitário e, por vezes, solidário, dedicado às escolas de samba. A motivação em comprometer-se na produção de um carnaval competitivo, por si só, demanda afetos não muito recorrentes em um trabalho convencional. Para além de ambicionar o sucesso em um desfile no carnaval, cobiçado e midiatizado, o outro lado das avenidas só chega até elas por meio de um grupo que acredita cegamente no próprio potencial, ainda que de perto ou de longe do barracão. “Qualquer agremiação do samba sobrevive hoje porque ainda tem dentro dela seus apaixonados. Na Novo Império, vi a essência e o amor das pessoas ao ver crianças de 3 anos sambando na quadra, bateristas dedicados e a porta-bandeira mais nova do carnaval muito empenhada”

Somam-se aos impulsos de fazer parte de uma agremiação tudo o que essa incumbência causa em seus membros: para muitos, a própria vida, para outros, a continuidade de uma herança. De qualquer forma, a escola de samba vem preencher espaços sensíveis dentro de uma comunidade: desde o orgulho de ser aclamado em um carnaval até uma forma de transformar a própria vida. Na tentativa de explicar o que o leva a trabalhar profundamente pela escola de samba, chamada por ele de casa, o Mestre-sala da Novo Império, Sandro Souza, comenta: “Chega a ser fanatismo”. Quando a reportagem pergunta para um dos diretores da agremiação, Marcio Drumond, para que a Novo Império existe, ele responde: “Para nos fazer feliz”.

*Foto: A.C.S.E.G.R.E.S Novo Império

Para falar sobre a essência de uma escola de samba, nada melhor do que quem vive o samba todos os dias e não só nas avenidas! Por dentro da quadra da Novo Império, dedicamos a palavra aos imperianos para sentir um pouquinho do que é ser sambista e imperiano. Assista:

 

Share Button

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *