“Céu azul, brilho do mar, areia de praia dourada essa terra tem”

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Bianca Vailant, Brígida Valadares, Geraldo Júnior – Com toda a costa do Estado banhada pelo Oceano Atlântico, o capixaba é fortemente ligado ao mar desde sua colonização.

Seja na cultura, na alimentação, no modo de vestir, no modo de falar ou na vivência diária, encontramos fortes ligações do estado do Espírito Santo com o litoral. Essa relação tão próxima com o mar é retratada em diversas músicas capixabas, como canta Ed Ayres: ”Céu azul, brilho do mar, areia de praia dourada essa terra tem, essa terra tem”.

Essa relação existe desde os tempos do Brasil colonial, quando a então província do Espírito Santo só se desenvolveu pela estratégica localização para a escoação de produtos e riquezas pelo Oceano Atlântico, que banha toda sua costa.  A historiadora Vilma Paraíso Ferreira Almada explica no seu livro “Escravismo e Transição – O Espírito Santo (1850 a 1885)” que, até por volta do séc. XVIII, o Estado foi ocupado quase que restritamente no litoral, em função da população indígena habitar os sertões (interior). Esse elo criado há mais de 500 anos, gerou um povo que tem o mar enraizado em sua cultura. Hoje as maiores e mais famosas cidades capixabas, como Vila Velha, Serra, Vitória e Guarapari, são litorâneas e possuem forte apelo turístico. Na culinária, os principais pratos típicos do Estado – a moqueca e a torta capixaba – são receitas que tem como base frutos do mar.

Além da alimentação e do desenvolvimento das cidades, o mar ainda se faz presente no dia a dia do povo capixaba, seja como fonte de sobrevivência, de renda ou modo de lazer. Esse é o caso do Deomárcio Vieira, 58, que veio do interior Anchieta para morar em Vila Velha quanto tinha oito anos de idade. Ele vive basicamente da pesca a 31 anos, de onde tira o sustento dos seus três filhos. Deomárcio faz parte da colônia de pescadores de Itapoã e contou que o mar o atraiu para a profissão.

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”Vim pra cá com oito anos e comecei a viver esse negócio de pescaria, aí depois fui influenciado por esse negócio de viver no mar. Eu gosto de ser pescador, vale a pena. Tem época que a gente consegue aguentar e manter a família, mas também tem época que não dá nada; por exemplo, quando o tempo muda, e o mar fica bravo a gente nem pesca. Ficamos a ver navios. Aí a gente tem que fazer um bico em outra profissão pra se manter”, explicou Deomárcio.

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Tem também quem veja o mar como um grande hobbie. Esse é o caso dos irmãos Marina (21) e Augusto Bazoni (19), de Vila Velha. Eles são estudantes e cresceram sob a influência do mar. Incentivados pelos pais, os irmãos surfam desde a infância. “A gente surfa desde novo, acho que eu surfo desde uns seis anos de idade. Mas é porque meu pai e minha mãe surfam, aí eles nos incentivaram a surfar”, contou Augusto. DCIM101GOPROG2152091.

Além de surfar, os irmãos também praticam stand-up paddle nas praias de Vila Velha e Guarapari. Marina comentou sobre esse contato da família com o mar. ”Eu já surfo há muito tempo, mas o stand-up tem uns quatro anos, a gente começou fazendo remada no dia que não tinha onda. Nós sempre tivemos esse contato com o mar, desde pequenininho. Feriado, final de semana era sempre na praia, não era montanha nem lugares como Domingos Martins; nunca existiu isso na nossa família. Sol ou chuva a gente estava na praia’, explicou.

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Os irmãos, criados praticamente na beira do mar desde crianças, contaram ainda que essa relação influenciou na construção dos gostos e do cotidiano deles, além de ser uma fonte de renda da família, que tem uma loja de pranchas e acessórios de surf. ”Essa ligação nos influenciou muito. Hoje a gente procura marcas de roupa ligadas ao surf, as nossas músicas são do surf music, reggae”. Veja o vídeo em que os irmãos comentam sobre essa proximidade com o mar:

 

 

Ainda pensando o mar como fonte de lazer, tem quem não abra mão de uma boa pescaria esportiva. Um exemplo disso é o aposentado José Antônio, de 66 anos, que ao menos uma vez por semana acorda bem cedinho para pescar na praia. “Eu pesco só por esporte, pra passar o tempo. É a coisa que eu mais gosto de fazer e faço a mais de 30 anos. Pesco pra consumo próprio ou para dar para alguns amigos. Mas nunca deixo de pescar’”, contou enquanto mostrava os frutos do dia de pescaria na orla de Itapoã, em Vila Velha.

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Outros levam a pescaria a sério e tiram do mar a sobrevivência e o sustento das suas famílias. Eduardo Rufino, 45, é um desses batalhadores. Ele vive e trabalha na colônia de pescadores de Itapoã há 35 anos. Casado e pai de três filhos, ele mantém a família exclusivamente através da pesca. “Nasci na beira de praia. Vivo de pesca e trabalho em família. Aprendi com meu pai a trabalhar com isso e sempre moramos e pescamos por aqui”, contou.

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Embora ame o que faz, Eduardo também falou das dificuldades de se viver da pesca. “As autoridades tentam tirar a gente, atrapalhar, mas nós vamos vivendo. Eles querem tirar a gente para o progresso chegar; tudo isso por causa dos impostos. Tem uns 50 a 100 anos que essa colônia está aqui, então eles não podem tirar a gente, não tem condições. Já é uma característica daqui, Itapoã é uma colônia de pescadores”, explicou. Assista ao vídeo do pescador contando sobre os desafios da profissão:

Seja como profissão, modo de sobrevivência, hobbie, lazer ou no estilo de vida, o mar está cada vez mais presente no dia a dia do capixaba. E o capixaba cada vez mais ligado ao mar. Talvez seja a paixão pelas águas salgadas. Talvez seja a beleza. Quem sabe ainda seja apenas uma ligação cultural que veio das gerações passadas. Não dá pra saber ao certo. Mas que essa terra tem o brilho do mar, isso é inegável.

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Orientação e revisão: Professor Sérgio Rodrigo

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