Share Button

Carina Costa O transporte público é uma arena romana. Ele cotidianamente é palco de uma briga sangrenta por um espaço vazio. Um espaço que nos acomode a mente conturbada e inquieta de nossos dias estressantes, seja sentados, seja em pé. Um espaço que acalente e amenize as viagens sem fins dos ônibus capixabas lotados de suor.

Não bastasse esse cotidiano guerrilheiro, há uns dias o ônibus tem refletido, de maneira desproporcional e violenta, a convulsão política brasileira. Em momentos de crises, o lugar e o espaço vazio deixaram de ser os precursores das batalhas para dar lugar a um fator mais explosivo: nossas posições políticas. A cor da camisa, o broche da bolsa, a corrente do WhatsApp têm se tornado os artífices mais rentáveis da diversão de César, e basta qualquer um deles ser de cor mais avermelhada para provocar um ringue dualista inteiramente preenchido de agressões físicas e morais.

A cor de sua camisa, meu caro leitor-cidadão, preconiza seus direitos, seu caráter e a maneira com a qual deve ser tratado, ao menos é assim para uma parte da população.

O transporte público brasileiro é precário, sua lotação máxima e sua logística deficiente importunam o dia a dia de qualquer um. Utilizando um ônibus lotado, nossas personalidades vão ao limite, e conviver com as diferenças tem parecido impossível em situações estressantes como essa.

E é nesse panorama de intolerância que nós, observadores e participantes dos espetáculos gladiadores, testemunhamos e vivenciamos fatos assombrosos resultantes da atual situação política nacional. Situação essa que reflete o mais do mesmo da já velha conhecida política do pão e circo.

A arena moderna, aqui e hoje, transborda-se dentro de um ônibus. Esse é o cenário da batalha diária que nos colocamos a travar. Dessa vez, um humano qualquer, eu, você ou aquele desconhecido passageiro, traja uma camisa vermelha estampando a figura do sociólogo Karl Marx, do revolucionário Che Guevara ou de alguma outra figura de luta do seu agrado. Imediatamente, alguns olhares hostis e bestializados nos acompanham.

“Petista, comunista, vagabunda (o)!” ecoam no ambiente. Instantaneamente identificamos senhores espectadores da arena vociferando em uníssono. Nós, as vítimas do analfabetismo do panem et circense, os retaliados da vez,  não aceitamos os insultos e os contestamos. Aquilo gera uma exaltação desmedida no ânimo daqueles senhores leões, que continuam a gritar palavras de ódio.

Sentimo-nos ameaçados e desprotegidos diante daquela arena móvel que reprime e nos transmite o medo de continuar ali. Nesse momento, constatamos que os impérios continuam erguidos, ocupando novos coliseus, – e eu, você ou aquele desconhecido passageiro – tornamo-nos os alvos investidos de pânico e limitados de liberdade.

Segundo fontes midiáticas, os senhores que nos ofendem são cidadãos de bem. Cidadãos de bem que não toleram o que lhe são divergentes e desconhecem o significado da empatia. Perderam-se nos tempos do Império Antigo e aplaudem os espetáculos que lhes são oferecidos goela abaixo. Espetáculos esses que vêm em forma de discursos sensacionalistas e ruminam nos cidadãos de bem. Cidadãos de bens justiceiros da verdade, exterminadores da corrupção seletiva, que continuam a observar e participar do circo intransigente que perpetua sob os olhares dos novos gladiadores.

Share Button

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *