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Laís Rocio – Uma experiência não tão particular de viajar de ônibus pelo interior do Espírito Santo, na contra mão do turismo convencional

No quilômetro 88 da Rodovia BR-262, mais precisamente em Pedra Azul, no município capixaba de Domingos Martins, jaz um homem sentado na calçada. Moreno, altura média, aparência simples e olhar sereno. Dotado de uma calmaria que contradiz a espera na estrada e o clima nublado, sinalizando a tempestade próxima, já conhecida por esses dias. A fala mansa e suave responde à pergunta da viajante – essa que vos fala – que acabara de chegar ao seu lado, avisando que ali mesmo conseguimos pegar o ônibus. No correr do diálogo, ela diz que vai à Vitória, ele indica o Ibatiba ou o Venda Nova.

O cair dos primeiros chuviscos precede o temporal que cobre o lugar por inteiro, eles então recuam para debaixo de árvores. “Ontem a chuva foi tamanha que nem consegui enxergar a vinda do ônibus, precisei ligar para a rodoviária e avisar que estava aqui” comentou, sem saber da insegurança que isso causava à turista de primeira viagem no local. A rodoviária mais próxima ficava a quarenta minutos de onde estavam. O destino turístico ao qual ela acabara de visitar naquele dia, também um dos destinos mais almejados e renomados do turismo no estado, não dispõe de uma rodoviária própria em seu território. De fato, isso explica ou dá sentido aos carros particulares que preenchem as estradas do Parque Nacional de Pedra Azul, aonde em caminhadas quase não se via pessoas à pé, assim como a viajante estava.

Este homem, o único aguardando o ônibus ali, parecia ser morador da região pelo conhecimento que mostrava ao informar sobre o transporte vigente. Em meio ao conteúdo aleatório da conversa, dessas que só acontecem em ambientes compartilhados por desconhecidos, ele perguntou se ela havia feito a trilha do Parque Nacional de Pedra Azul naquele dia. Ao negar, ela lhe disse que apesar disso ligou para os serviços turísticos mais cedo procurando saber sobre. “Você falou comigo pelo telefone”, comentou ele, identificando o nome dela. O traje que aparentava ser de um trabalhador da região pertencia, então, ao instrutor da trilha ecológica com destino às piscinas naturais de Pedra Azul. Certamente, ele costuma receber diversos turistas em todos os dias de trabalho, percorrendo o trajeto nada inédito para ele, pela reserva ambiental da região. Ao final do dia, espera pelo mesmo ônibus sempre no mesmo lugar, com destino à sua residência, alguns quilômetros estrada à diante. Divergem os cenários e os modos de vida que acompanham o cotidiano dele entre pequenas regiões ao sul do estado. Do interior de sua comunidade até os principais pontos turísticos das montanhas capixabas, aonde impera a delicadeza dos chalés e pousadas muito bem ambientados, dispostas a oferecer o desfrute de tudo que há para ser mostrado na região. Tudo isso se conecta, diariamente, por ônibus e por demandas de trabalho no tão cobiçado turismo de Pedra Azul.

Por essas e outras histórias perpassam as idas e vindas pelos municípios do Espírito Santo, especialmente quando se trata das possibilidades de viajar de ônibus. Após o percurso, uma primeira imagem: a descida no ponto de ônibus do destino a ser visitado, que geralmente coincide com algum ponto central da região.

Nesses impulsos de sair por aí, um outro destino comum entre os viajantes inquietos é o Patrimônio da Penha, localizado no município Divino São Lourenço, na região capixaba da Serra do Caparaó. Logo na chegada, saltava aos olhos a vila rústica e pacata, de um sossego que vem sempre acompanhado de elementos culturais: desde os costumes tradicionais de regiões do interior à presença de diversas religiosidades que têm no local seu sustento e santuário. Pouco discreto, logo à primeira vista de um sábado à tarde, o lugar se resume numa praça lotada de artesãos, com pessoas em volta que conversam entre si com ar fraternal, sem barulho ou movimento expressivo.

Ao aventurar-se pelas estradas do estado, sem a passagem de volta em mãos, surte a afinidade com os proprietários das acomodações, que indicam os caminhos, os horários de transporte, os pontos de chegada e partida em suas pousadas ou casinhas à disposição dos modestos viajantes. Já as eventuais caronas de pessoas que aparecem ao acaso, essas nem o mais certeiro dos turistas pode imaginar.

Dessas vivências e dessas buscas por novos cenários de dentro do estado, não se faz necessário se apropriar de serviços propriamente turísticos oferecidos convencionalmente, como agências com roteiros planejados e passeios extraordinários – de cavalos guiados ou bugres pelas estradas. Mas, quando a regra – e não exceção – é descobrir o estado, o primeiro passo é a rodoviária. Descobrir o estado, aliás, é o princípio da Secretaria de Turismo do Espírito Santo em seu projeto Descubra o Espírito Santo, que abrange oito rotas turísticas, garantidas no portal por transportadoras e agências turísticas, e em nenhum momento a possibilidade do transporte rodoviário.

O que se pode extrair dessas experiências são vivências com o cotidiano das pessoas, com suas relações mais íntimas e rotineiras, em detalhes de momentos quase despercebidos. Os diversos personagens desses lugares dão o contraste a um estado tão diverso, que ultrapassa as fronteiras das praias e montanhas e se fragmenta em distintos universos, a cada novo limite entre as rodovias dos 46 mil quilômetros quadrados de Espírito Santo.

Foto: Patrimônio da Penha, Divino São Lourenço, ES. Autor: Jota Júnior.

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