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Naiara Arpini –  Há muito eu não andava de bicicleta. Então parei um pouco para pensar na época em que todos os dias de manhã eu pegava minha magrela vermelha – com direito a cestinha e tudo – e ia para a escola. Eu era atenciosa, sempre olhava antes de atravessar a pista e ia devagar, curtindo o nascer do sol na praia enquanto lamentava não poder ficar por ali mesmo. Mas a minha irmã, que me acompanhava todos os dias, desde essa época já dava trabalho no trânsito.

Ela já dormia de uniforme para acordar faltando poucos minutos para a aula. Era só o tempo de tomar um leite achocolatado, prender o cabelo, apanhar a mochila, subir na bicicleta e ir. As consequências dessa atitude – hã, atrapalhada -, nunca foram graves, mas a desatenção e o sono que imperavam na moça renderam algumas boas histórias. Bater de frente com outra bicicleta foi uma delas. Um pobre trabalhador, de semblante triste, certamente por também ter que acordar tão cedo, vinha em sentido contrário e acabou colidindo com a coitada, que, se bobear, pedalava de olhos fechados pra aproveitar os minutos que separavam nossa casa da escola. O acidente, por sorte, não foi grave. Apenas uns arranhões e continuamos nossa trajetória. “Não vai contar pra mamãe, heim?” ela disse com cara de brava.

Digamos que de lá pra cá, muita coisa não mudou. Até hoje ela é uma legítima ruim de roda. Seu carro tem nada mais nada menos que um retrovisor quebrado, um arranhão do lado direito e a falta do farol dianteiro. E também já chegaram multas porque o veículo estava estacionado na contramão.

Essa ‘falta de habilidade no trânsito’ deve ser genética, deve estar enraizada desde os primeiros passinhos no andador, depois no velotrol, continuou na fase da bicicleta com rodinhas, evoluiu com a pilotagem de moto e, finalmente, chegou ao automóvel. É comum presenciar freadas bruscas em cima das faixas de pedestres e curvas tão acentuadas que tiram os passageiros do lugar. Ninguém reclama, afinal, carona dada não se olha as rodas.

Mas acho que ultimamente a situação está melhorando. Há alguns dias não aparece nenhum novo arranhão e não chega nenhuma multa. Os pedestres até conseguem andar mais tranquilamente pelas ruas. Mas é melhor não esbanjar tanto otimismo. Nunca se sabe qual será a próxima peripécia automobilística. Falando nisso, acho que ouvi um barulho na garagem. Ou parte do teto despencou, ou lá se foi o retrovisor esquerdo.

 

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