Ecochato sim. E daí?

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Karen Vieira – É possível ter uma alimentação saudável e ainda contribuir com o meio ambiente através práticas sustentáveis. Os pequenos produtores agrícolas apresentam aos consumidores, desde a década de 90, principalmente, uma forma de cultivo e uma prática alimentar livre de complementações químicas e baseada na mão de obra familiar: a agroecologia.

A produção agroecológica integra  meio ambiente a aspectos socieconômicos, uma vez que utiliza técnicas antigas de cultivo, com pequenas escalas de produção, e fornece alimentos denominados “limpos” por estudiosos da área. A utilização consciente  dos recursos naturais  fez parte de um processo gradual inciado no fim da 1ª Guerra Mundial, quando a  alimentação passou a ser vista como um mercado potencialmente lucrativo pelos grandes latifundiários, por meio da monocultura. Os primeiros atos de conscientização alimentar e de agricultura nativa surgiram na Austrália e na Inglaterra, com a chamada agricultura orgânica, que contestava a pouca diversificação dos alimentos e a produção em série.

O grande impacto ecológico, entretanto, veio após a 2º Guerra Mundial, com o avanço tecnológico e o alto investimento nas indústrias química e farmacêutica. Segundo o professor do Departamento de Ciências Sociais da Ufes, André Michelato, a produção tóxica era utilizada como uma tática por muitos países contra os inimigos, mas, com o fim dos conflitos, era preciso que ocorresse um reaproveitamento. A solução encontrada para intensificar a produção foram investimentos pesados em agricultura. Essa grande euforia no setor agrícola ficou conhecida como Revolução Verde. “Há 20 anos, as pessoas não acreditavam que um carro funcionaria a energia elétrica; hoje, já tem avião funcionando com essa mesma fonte. Se tivéssemos mais ferramentas e utilizássemos os recursos naturais de modo correto, também poderíamos alimentar o mundo sem uma gota de veneno”, disse.

Nesse contexto, organizações produtoras propunham debates para  resgatar o cultivo e a produção tradicional. Os movimentos de agricultura biológica, regenerativa, biodinâmica e orgânica uniram-se a uma visão integrada de preservação, cultura familiar e valor social, difundindo-se o termo agroecologia.

Agroecológico ou orgânico?

Apesar de não utilizarem elementos químicos no cultivo de alimentos, agroecológicos e orgânicos apresentam pequenas diferenças quanto à distribuição. A agroecologia, além de ser um modo de agricultura sustentável, é uma fusão de conceitos entre as ciências sociais e naturais, que busca promover ações políticas e sociais participativas, de modo que os danos causados ao meio ambiente sejam reduzidos gradativamente; é também uma contraposição direita ao agronegócio e à monocultura, priorizando as produções familiares em pequenas áreas de cultivo.

Resistência ao processo de industrialização é a grande característica dos produtores agroecológicos. Segundo o professor do Departamento de Ciências Sociais, André Michelato, o conceito de desenvolvimento passou a ser atrelado à terra em 1850, com a Lei de Terras, e, com a ditadura militar, as monoculturas tornaram-se uma moeda de troca de capital para o Estado brasileiro. “Hoje, o que faz com que o governo tenha importância internacional são as commodities agrícolas, as grandes mercadorias, moedas internacionais (café, soja, suco de laranja, algodão). A pequena agricultura está cada vez mais pressionada pela ambição por propriedade e pela ausência de tecnologia, que pode até encarecer alguns produtos”, disse.

Já a filosofia da produção dos alimentos orgânicos, que podem ou não ser agroecológicos, não se limita à agricultura que não utiliza complementos sintéticos, agrotóxicos ou trabalha com transgênicos, mas estende-se à pecuária. Na cultura orgânica, os produtos chegam às prateleiras dos grandes supermercados, integram os processos industriais, entretanto, tudo é feito sem qualquer complementação química, como o uso de conservantes.

Os agrotóxicos

Dados do dossiê da Associação Brasileira de Saúde Coletiva ( Abrasco), de 2012, apontam que o mercado brasileiro de agrotóxicos é crescente, superando duplamente a produção mundial. O mercado de complementação química movimentou no Brasil, em 2008, cerca de U$ 6 bilhões e, em 2010, o valor foi de aproximadamente U$ 7,3 bilhões, o que naquele ano representou 19% do mercado global de agrotóxicos. O resultado dessa alta utilização foram recursos naturais contaminados, prejuízos à flora e à fauna. As áreas degradadas, segundo Michelato, abrigam trabalhadores rurais e outras famílias que dependem da terra. “Além de criar um efeito nocivo ao meio ambiante, há um dano à saúde pública, que arca com gastos pelo consumo de alimentos modificados geneticamente ou tratados quimicamente, à venda nos grandes mercados”, garante.

Diante dessa situação, organizações populares de mobilizaram no país em 2011 em torno na campanha permanente “Contra os Agrotóxicos e pela Vida”. O objetivo é sensibilizar a população para os riscos dos produtos químicos e apresentar medidas que diminuam o uso dessas substâncias no Brasil. Como parte dessa iniciativa, criou-se no mesmo ano o Comitê  Estadual da campanha no Espírito Santo para apresentar aos capixabas a agroecologia como modo alternativo de consumo e produção. Na Ufes, o trabalho de conscientização é de responsabilidade do Laboratório de Estudos Territoriais (LaTerra), que  desenvolve uma série de atividades sobre territorialidades, entre elas as ações do Núcleo de Estudos em Agroecologia.

Desde 2011, o Núcleo conta com uma barraca que vende alimentos agroecológicos de pequenos agricultores do interior do estado, na Ufes, todas as quartas-feiras, a partir das 9 horas, próximo ao IC-II, no Campus de Goiabeiras.

 

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