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Manoela Albuquerque – Como de minha preferência, eu estava sentada próxima à janela do ônibus na volta do trabalho. A pessoa que se sentava ao meu lado atrapalhava a minha visão para o interior do veículo, mas logo percebi do que se tratava. O barulho, de dois pés juntos, batendo no chão metálico do ônibus, repetido três ou quatro vezes, era inconfundível: um grupo fazia seu “roletacinho” diário.

Nós passávamos pela Avenida Maruípe, dentro de um 164, por volta de 18h45, ainda no horário de pico. Seria um caso comum, como acontece em tantas outras vezes ao longo de tantos outros dias – motoristas e trocadores sabem mais do que eu – se não fosse a reação do “motô” e dos passageiros indesejados (que eram apenas uns garotos) dessa viagem.

Me lembro quando certa vez presenciei uma cena semelhante, com um protagonista que chamou muito a minha atenção. Era um senhor que aparentava ter mais ou menos uns 40 anos, magro, alto, um pouco desengonçado, tinha cara de trabalhador.  Quando ele pulou a roleta, mesmo com toda a discrição, cabeça e ombros baixos, pude captar um semblante envergonhado que jamais vou esquecer. Era como se ele estivesse se sentindo humilhado. E realmente parecia estar…

Pois bem, quando pelo menos três do grupo  pularam a sagrada roleta, o sábio motorista, propositalmente, fechou a porta do “busão”. Um dos garotos ficou para trás, na rua.

– Abre aê, motô! Abre aê, motô! – gritavam eles, os de dentro e o de fora.

O “motô”, dono desse apelido sagaz recebido pelos próprios “eles”, não abriu, demonstrando certa arrogância com os garotos que entraram no ônibus sem o seu aval.

Passados alguns segundos, surpreendentemente, o mesmo barulho descrito no começo se repetiu. Desta vez, para o lado inverso. Então, aqueles que, sempre clandestinos, fazem seus trajetos por Vitória, perderam a viagem. Saíram todos pela frente para não deixarem o amigo só. De cabeça erguida e pulando a roleta mais uma vez, dando uma lição de camaradagem.

As outras pessoas que estavam dentro do ônibus ficaram como sempre estiveram.

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