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por Jéssica Dantas – No final de 2013 decidi fazer um intercâmbio. Alguns problemas pessoais, somados à vontade de fazer algo novo com a minha vida foram os ingredientes que faltavam quando eu passava tardes e noites cozinhando mil e uma ideias em minha cabeça.

Lembrei certa tarde, por obra do acaso ou fruto do destino – nomeie como preferir –, de um papelzinho que havia recebido em uma aula na UFES falando sobre intercâmbios de voluntariado. Eu sempre quis o mundo, eu sempre quis tudo! Ainda detesto quando alguém ousa dizer que eu não posso ser quem eu quiser. A vida é minha, e sei que sou a responsável por me levar aonde meus pés quiserem estar. Pois bem, voltando ao papelzinho… lembrei-me dele quando ouvi falar novamente sobre a Aiesec. Eu não sabia muito bem o que era essa organização, sabia apenas que era feita e administrada por jovens universitários de todo o mundo que falavam sempre muito motivados sobre suas experiências no exterior.

Sempre sonhei em viajar para fora, fora do olhar de todos que me conheciam, fora do país que cobra caro pelas coisas, fora do lugar que eu achava que não me proporcionava mais nada de novo (puro engano, mas só percebi isso com o intercâmbio). Então o que fiz: juntei a vontade de viajar, com toda a coragem que havia em mim às férias na universidade. Conversei com meus pais sobre tudo, eles me apoiaram desde o início. Todo mundo que tem um pouco mais de visão de mundo sabe o quanto é enriquecedora uma experiência como essa.

Parecia estar tudo certo. Eu já havia decidido aonde eu queria passar dois meses da minha história: Portugal. Parecia, porque eu não imaginava que fosse gastar meses procurando vaga para a capital Lusitana. Os membros da Aiesec me ajudaram na busca. A propósito, deixe-me explicar o que é a Aiesec: é uma instituição criada no pós-guerra por jovens universitários que perceberam a necessidade de se construir um mundo mais justo e solidário, por meio da integração de pessoas de diferentes nacionalidades, projetos de voluntariado e profissionalização. A instituição tem como visão cinco pontos: aiesec-davao-recruitment-poster-1

“Ativar Liderança: liderar pelo exemplo e inspirar liderança, através da ação e de resultados. Tomar toda a responsabilidade pela função de desenvolver o potencial das pessoas.

Demonstrar Integridade: ser consistente e transparente nas decisões e ações. Satisfazer com comprometimento e trabalho de forma coerente com a nossa identidade.

Viver a Diversidade: procurar aprender através dos diferentes modos de vida e opiniões representados no ambiente multicultural. Respeitar e encorajar a contribuição de todo indivíduo.

Desfrutar da Participação: criar um ambiente dinâmico pela participação ativa e entusiástica. Desfrutar da experiência vivenciada e da participação na Aiesec.

Buscar a Excelência: procurar atingir o mais alto nível de qualidade em tudo o que é feito. Através da criatividade e inovação, buscar sempre o melhor.

Agir Sustentavelmente: preocupar-se sempre com todos os tipos de recursos necessários para as atividades. As decisões levam em conta as necessidades das gerações futuras.”

Com tudo praticamente explicado, podemos voltar à minha experiência 🙂 …
Seis meses depois da decisão de viajar, cá estava eu com os papéis do contrato de estagiário voluntário da Aiesec Lisboa assinados, passaporte e euros em mãos. Sim, por mais que eu tentasse esconder meu medo eu estava prestes a atravessar o oceano e viver a experiência mais fantástica da minha vida.

Doze horas e algumas turbulências perto das Ilhas Canárias me separavam do meu destino – eu sempre gosto de pensar que sobrevoei um dos lugares mais fascinantes da história. Tanta coisa aconteceu por lá, e tudo isso estava em meus livros da escola, e simplesmente naquele 21 de fevereiro de 2014, estava embaixo dos meus pés… foi incrível!

Quando cheguei a Lisboa só podia pensar em duas coisas: “Meu Deus, o que eu vim fazer aqui?” e “Que frio!!!”.  Mas meus pensamentos foram interrompidos com o “Seja bem-vinda, Jéssica” estampado no cartaz de meus novos amigos da Aiesec Lisboa. 10155261_10201847440087504_1938155174_n

Tudo pareceu mais fácil em um país onde o idioma era igual ao meu, o sotaque era engraçado de início, mas admito que hoje até sinto falta. Minha função era gerenciar as mídias da Fundação Salesianos Lisboa, uma tarefa que me caiu como uma luva pois trabalho com isso aqui no Brasil. O estágio foi superbacana. Eu precisava ir durante a semana – de 9:00 às 13:00 – à escola Salesianos e fazer as atividades propostas. Muitas coisas foram  propostas por mim. No estágio, eu era tratada com muito carinho. Todos os funcionários do meu setor eram competentes e muito acolhedores. Não senti a fama que os portugueses carregam de “rabugentos”, rs.

No dia-a-dia, com os outros intercambistas, muitas coisas aconteceram: risos, fofocas, conversas, intrigas. Fui tudo muito intenso, parecia até uma novela mexicana. Fiz amigas que hoje considero irmãs, e me entristece pensar que estão a um oceano de distância. Prefiro pensar na sorte que tive de conhecê-las.

Percebi nesse tempo a importância de saber falar um outro idioma, o inglês. Por mais que muitos não concordem, é fundamental. E como não me sentia preparada para conversar no idioma, perdi a oportunidade de interagir com pessoas das mais diversas nacionalidades. Retornei com a vontade de me tornar fluente, isso é bom.

São tantas coisas a dizer que sinto que nunca conseguiria transpor minhas emoções e vivências em palavras. Infelizmente não sou escritora e nem nasci poeta. De início, pensei em fazer um roteiro falando sobre o que fazer para viajar pela a Aiesec, mas percebi que não era isso o mais importante para quem quer e precisa de um incentivo para sair de sua zona de conforto. 1975266_10201762519204535_1717500727_n
Eu também precisava disso, precisava ouvir de quem havia vivido a emoção saindo da boca, a saudade demonstrada no olhar, a sensação de relembrar os bons e maus momentos em que você é simplesmente você, longe de conhecidos e longe das críticas. Não há nada melhor do que poder viver a vida como se fosse contada do zero. Para quem quiser se entregar, a dica é: faça o que você quiser! Respeite as pessoas, claro. Mas se permita, dê a você mesmo a possiblidade de ser estrangeiro, de aproveitar as maravilhas do desconhecido, de errar, de acertar, de passar por apuros. A vida é isso, amigo!1926792_10201828471853310_710430017_n

Hoje eu posso dizer de boca cheia que amo meu país e tenho orgulho de ser brasileira. Mas tenho a consciência de que sou mais forte, mais útil, mais capaz do que pensava. Sinto que a vida não é mais só os arredores da minha casa, o mundo é muito mais. Ainda me pego pensando o que algum francês que está sentado em um dos inúmeros lindos jardins está pensando enquanto eu estou aqui digitando este texto (falei de francês pois também conheci a França, e como é bela!). Sinto uma dualidade profunda e boa de que o mundo é imenso e povoado por pessoas tão diferentes e, ao mesmo tempo, essa imensidão se torna tão pequena quando lembro que não me pareceu nem um pouco irreal caminhar pelas ruas históricas de outro país e me sentir parte do mundo.
Neste momento me sinto renovada, com saudades do que poderia viver e motivada a fazer da minha vida um livro aberto, escrito por mim, apenas.

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