12 horas em Recife: confusão, emoção e problemas

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Vitor Simões – Sou o tipo de torcedor que assiste a qualquer jogo de futebol, não importa de qual divisão, de qual país ou qual a idade dos jogadores. Quando vi que tinha sido sorteado para assistir Costa do Marfim x Japão, em Recife, não pensei duas vezes. Estava feliz por ter a oportunidade de ver jogadores que sempre admirei, como Drogba e Yaya Touré, além de outras feras do futebol mundial, como Honda, Kagawa, Gervinho e Kalou.

Por incrível que pareça, consegui ótimos preços para ir e voltar da capital pernambucana. Saiu muito mais barato do que ir de BH para Brasília e depois de Brasília para Vitória, por exemplo. Logo no primeiro avião já consegui um dos meus objetivos nesta viagem: conhecer pessoas de diferentes culturas. O avião de Vitória para o Rio de Janeiro estava lotado de japoneses! Segundo a comissária de bordo, eram 211 pessoas no voo, com apenas 13 brasileiros.

Cheguei em Recife exatamente às 16 horas, começando a contar as 12 horas que ficaria na cidade. Minha primeira missão era ir ao Centro de Distribuição de Ingressos da FIFA, que ficava no Shopping Recife, buscar os meus. Peguei o primeiro táxi do dia, R$ 17 até lá. O Centro de Distribuição era bem organizado, e havia apenas umas oito pessoas na minha frente, que foram atendidas rapidamente. Na hora de pegar meus ingressos, tive um pequeno problema por estar sem carteirinha. A funcionária da FIFA disse que não aceitaria meu comprovante de matrícula carimbado e assinado mais meu documento de identidade. Tive que pedir para ela chamar um superior para que ele pudesse resolver a minha situação. Pouco mais de 10 minutos depois eu estava com os ingressos na mão, nada demais.

Passada esta parte, estava na hora de ir para a Arena Pernambuco. Como queria ir sem dificuldades, optei por pegar outro táxi. Um senhor muito gente fina me levou até lá. No caminho, ele me contou sobre a grande comunidade japonesa que existe na capital e sobre a localização da Arena Pernambuco, que, na verdade, não fica em Recife, e sim em uma cidade vizinha de nome São Lourenço da Mata. Perguntei também se ele trabalharia mais à noite, para me levar de volta do estádio ao aeroporto. Ele disse que não, mas que “toda a frota de Recife estaria lá”.

Quando chegamos a um ponto próximo ao estádio, um policial avisou ao taxista que era proibido parar no local, que deveria seguir a rodovia até encontrarmos um posto de gasolina, onde os táxis podiam parar. O posto ficava a pouco mais de 2 km à frente do estádio, já me fazendo dar uma boa caminhada. Não liguei, estava muito ansioso para sentir o clima de Copa e entrar logo em um estádio padrão FIFA. A ida do Shopping Recife até o estádio custou mais R$ 58 de táxi.

Arena Pernambuco, em São Lourenço da Mata
Arena Pernambuco, em São Lourenço da Mata / Fotos: Vitor Simões

Cheguei à região da Arena Pernambuco e já tive ótimas experiências. Encontrei japoneses fantasiados de Goku e Vegeta, norte americanos “alegres” fazendo cover de John Legend e ainda assisti a uma partida de “travinha fechada” entre garotos brasileiros e japoneses.

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Brasileiros e japoneses se divertem em uma partida de “travinha fechada”

Como a partida estava marcada para começar às 22 horas, os portões abririam três horas antes, às 19 horas. Cerca de 30 minutos antes da abertura dos portões, fui para o local marcado para início da fila. Neste momento já havia algumas centenas de pessoas na minha frente. Os portões abriram com um atraso de 15 minutos, quando pessoas de todos os lados começaram a ingressar desordenadamente na região de entrada na fila. Resultado: muita confusão, empurra-empurra, gritos de “uh, vamos invadir” e eu entrando no estádio apenas às 20h30.

Farei uma pausa na história para contar minha tristeza com o comportamento de alguns brasileiros no local. Durante o tumulto para entrar, ouvi diversos comentários preconceituosos que não vão de encontro à cordialidade do povo brasileiro. Pessoas gritando que a culpa da fila não andar era dos japoneses, que eram educados demais e ficavam deixando as pessoas passarem na frente. Ainda tive que ouvir gritos de “abre o olho e anda japonês ‘fdp’”. Também presenciei o ataque a um homem de barba longa usando um kipá (chapéu utilizado por judeus para lembra-los da onipresença divina). Ele foi chamado por diversas pessoas de “touquinha”, acompanhado de gritos de “sai dai touquinha”, Bin Laden, Saddam Hussein, homem-bomba, etc. Fatos lamentáveis.

Quando finalmente consegui entrar no estádio, senti uma emoção quase inexplicável. A Arena Pernambuco é linda, o gramado estava em perfeito estado, e mesmo eu estando na parte superior do estádio tive uma visão perfeita do jogo. Assistir a um jogo de Copa do Mundo é algo de outro nível, um nível que eu pelo menos não estou acostumado a presenciar pessoalmente. Um toque na bola de jogadores como Drogba, Yaya Touré e Kagawa já é suficiente para mostrar que eles são diferentes. Costa do Marfim venceu a partida de virada, por 2×1, com gols de Bony e Gervinho. Honda fez o primeiro gol japonês na Copa.

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Costa do Marfim venceu o Japão de virada por 2×1

Após o termino da partida, começou minha saga e as três piores horas que estive em Recife. A partida terminou às 23h45, e meu avião para Vitória partiria às 04h15, com hora de embarque marcada para 03h35. Saí do estádio e encontrei um voluntário da FIFA. Como eu queria economizar, decidi tentar voltar de metrô ou ônibus. Perguntei a ele se era possível chegar até o aeroporto de metrô, ele me respondeu que sim, que era só seguir as placas vermelhas. E lá fui eu, andando com outras milhares de pessoas pelo caminho vermelho. Quando já havia andado por uns 15 minutos, escuto outro voluntário gritando: “Pulseiras vermelhas do metrô por aqui”. Fui até ela e disse que eu não tinha a pulseira vermelha, mas que queria ir de metrô até o aeroporto. Ela me respondeu que isto não seria possível, pois o metrô só foi vendido antes do jogo, e os guichês de compra estariam fechados, sendo apenas possível entrar quem já possuia a tal da pulseira vermelha.

Tive que voltar todo o caminho já andado, debaixo de toda a chuva que caía naquela noite em Recife, procurando informações para voltar de ônibus. Perguntei para vários policiais que estavam no caminho, e ninguém sabia me dar uma informação correta! Foi impressionante! Ninguém sabia de nada, ninguém tinha um rádio para perguntar, apenas diziam para eu continuar andando que talvez “lá na frente” eu conseguisse informações. Depois de caminhar até o mesmo local que o táxi da ida havia me deixado (2 km à frente do estádio), encontrei uma policial que me informou que só estavam entrando até o local os ônibus credenciados pela FIFA, que eles tinham sido vendidos com antecedência, e que os ônibus “normais” só voltariam a circular por lá mais tarde.

Não teve jeito, tive que voltar de táxi para o aeroporto. Mas quando pensei que estava tudo certo, enfrentei outro problema. O ponto indicado pela polícia para que os táxis parassem estava abarrotado de gente, com centenas de pessoas esperando. A maioria dos táxis que passavam estava buscando alguém, e quando liguei para a central, me informaram que toda a frota já estava pela região. Eram mais de 500 pessoas disputando táxi para conseguir ir embora, isso debaixo de muita chuva na beira de uma rodovia, apenas com um posto de gasolina em volta.

Cada táxi que parava, acomodava três, quatro pessoas. Vi gente louca para ir embora oferecendo “150 reais pra você me levar pra casa”. O único taxista que parou para falar comigo queria me cobrar “200 conto” para me levar ao aeroporto. Após longas horas de espera e correria, por volta de 02h50, consegui parar outro taxi. Na hora que falei que gostaria de ir para o aeroporto, o taxista me perguntou se tinha sido eu que liguei para ele. Falei que não, mas que se ele estivesse indo levar alguém para lá eu gostaria de ir junto. Ele aceitou, e me pediu ajuda para procurar um rapaz de blusa vermelha. Andamos por 10 minutos pela rodovia com pessoas se jogando em frente ao táxi até acharmos o tal rapaz.

Fomos correndo, estávamos atrasados e com o risco de perder o voo. O taxista, seu Marcelo, era muito simpático. Segundo ele, essa confusão era toda culpa da estratégia da Policia Rodoviária Federal, já que na Copa das Confederações não tinha acontecido estes problemas. Falou que a policia não ligava para os turistas, e deu um exemplo. Na altura da rodovia que estávamos, tínhamos que andar alguns quilômetros até o local de retorno. Quando passamos em frente ao ponto que pegamos o táxi, o taxímetro já marcava R$ 21.

Depois de muito papo, cheguei ao aeroporto por volta de 03h25. Ufa, consegui. O custo total da última viagem do estádio até lá foi de R$ 80, R$ 40 para cada. Ah, e meu “amigo” de camisa vermelha que eu dividi o táxi, coitado, perdeu seu voo. Teve que ficar seis horas esperando o próximo avião para São Paulo.

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