Que país é este? Seminário sobre o pós junho de 2013

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Felipe de Aquino e Flávio Soeiro – Junho de 2013 já ficou marcado na história da nação. Mais de um milhão de brasileiros saíram às ruas de quase 150 cidades com faixas, gritos e vontade de mudança. Mobilidade urbana, sistema eleitoral, distribuição de terra e renda, direitos indígenas, violência policial, corrupção. Estes e ainda mais temas motivaram os cidadãos da sétima maior economia do mundo a protestar.

Um ano após toda esta mobilização, as discussões suscitadas não cessaram. Quem eram aquelas pessoas nas ruas? O que elas queriam? O “gigante” realmente chegou a acordar? Manifestação pode ter vandalismo? Deve ter? O que é vandalismo? O Brasil está em crise?

Gravação da mesa de abertura do Seminário Brasil em Crise
Gravação da mesa de abertura do Seminário Brasil em Crise

Para tentar responder a estas e mais outras perguntas, um grupo de professores de diversas instituições de ensino se uniu na promoção do “I Seminário de Pesquisa Social Brasil em Crise”, que aconteceu entre os dias 03 a 05 de junho, no auditório do IC II da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). O seminário multidisciplinar contou com pesquisadores dos campos de Ciências Sociais, Comunicação Social, Direito, Educação Física, Filosofia, História, Letras e Relações Internacionais, divididos em cinco mesas de debates.

Na mesa de abertura, o niilismo de alguns manifestantes (discursos contra “tudo que está aí”), o cenário internacional (Primavera Árabe, Occupy) e a multiplicidade de subjetividades que marcaram presença nas ruas (muitas vezes com slogans vagos e despolitizados) foram algumas das perspectivas debatidas. Seriam sintomas de uma noção maior de participação política, como sugerido no debate, e frutos de uma crise de representatividade na República?

A máxima diz que as perguntas é que movem a humanidade. O debate mostrou-se, então, um combustível quase ilimitado: A demonização da classe política torna romântica a visão da sociedade civil sobre si mesma? O discurso midiático-jornalístico pode ser imparcial? Como são pensados os gastos do Ministério das Comunicações? Estes e outros questionamentos incrementaram os debates sobre o papel da mídia nos protestos.

Prof. Dr. Fábio Malini participou do debate compondo a segunda mesa

Sem dúvida, foi um bombardeio de questões. Assim como as bombas de dispersão dos manifestantes utilizadas pelas polícias militares, o estoque de perguntas foi ampliado no terceiro e último dia: O que é a tática black bloc? Uma vidraça quebrada pode ensinar o poder da resistência? Resistir consiste na reivindicação de direitos de forma radical? Resistir a quê? Ao poder constituído que governa em virtude do mercado? Há um modelo de gestão onde a cidade se torna um negócio que deve gerar mais e mais lucro? Lucro para quem, afinal? A utopia da Copa no país do futebol revelou-se distópica?

Todas essas perguntas foram deixadas pelos palestrantes durante os três dias de duração do seminário, demonstrando que o novo momento sociopolítico brasileiro ainda deixa muitas dúvidas sobre o que está acontecendo com o país.

O professor David Borges, do Departamento de Filosofia da Ufes, explicou como o seminário tomou forma: “O Vitor Cei, amigo de longa data, que atualmente faz doutorado pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), deu a ideia de um evento no qual pudéssemos discutir as manifestações de 2013 e os rumos da política em 2014. Sentimos a necessidade de realizar esse tipo de debate por, até então, não termos ficado sabendo a respeito de nenhum evento desse tipo em outras universidades brasileiras, especialmente aberto para o público”, disse.

Os temas abordados pelos palestrantes foram: O Brasil em Crise, O papel desempenhado pela mídia na cobertura dos protestos, A estratégia black bloc, A Copa do Mundo, as Olimpíadas e o que representam para o Brasil e Violência e autoritarismo do Estado.

Tais assuntos foram escolhidos “devido à relevância social, política, histórica e filosófica”, destacou David. “Pensamos em fazer uma análise completa da conjuntura, então era importante debatermos os novos atores que surgiram com as manifestações (como os black blocs), o papel da mídia, a forma como o estado lidou com as manifestações, os eventos internacionais que estão para acontecer e também fazer uma análise geral da conjuntura”, concluiu.

As palestras e diálogos contaram com boa participação do público que ocupou as cadeiras do auditório, principalmente nas mesas que ocorreram a partir das 19h. Apresentações e perguntas sobre múltiplos aspectos estruturantes da sociedade brasileira, do momento político da nação e dos protestos, suas causas e efeitos, marcaram todos os debates.

Divulgação

Para quem não pôde acompanhar o seminário, os vídeos de cada mesa serão disponibilizados em breve na internet: “Sempre acho válido levar a universidade mais para perto do restante da sociedade. E o objetivo da filmagem foi esse – tirar a produção intelectual da torre de marfim. Saberemos os efeitos asism que postarmos os primeiros vídeos, o que deve acontecer nos próximos dias”, explicou David. “No final, o resultado, a meu ver, foi fantástico”, avalia.

O evento chegou ao fim, mas as discussões estão longe de acabar. “Amanhã vai ser maior”? Não se pode afirmar. Fato é que o apito inicial da Copa do Mundo aconteceu nesta quinta-feira. Outro fato é que outubro está chegando e com ele as eleições.

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