O tempo do vinil é agora

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Mariana Bergamini – Quando eram novidade no mercado fonográfico, no final da década de 40 e nos anos subsequentes, os discos de vinil foram a sensação do momento. Um pouco mais tarde vieram os CDs, no início dos anos 90, fazendo com que os chamados bolachões caíssem em desuso. Coleções inteiras foram, vendidas, trocadas, doadas e até jogadas fora por seus donos, que buscavam se atualizar com o que havia de mais novo nas lojas: o compact disc. Por ironia do destino ou mais do que isso, hoje, quando a música pode ser encontrada em uma infinidade de formatos e plataformas digitais, os LPs voltam a ser preferência dos consumidores desse mercado. Eles deram a volta do cima e retomam seu espaço com novos lançamentos, mas, sobretudo, com os discos antigos, preciosíssimos na atualidade.

Dos últimos cinco anos para cá, o LP vive esse momento de nova ascensão. Dados da Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI) demonstram que o valor global arrecadado com a venda de discos de vinil foi 52% maior em 2012 do que no ano anterior. As pesquisas apontam um crescimento da demanda nos Estados Unidos e Europa, mas, apesar de ainda não haver um levantamento específico da Associação Brasileira de Produtores de Disco (ABPD) no Brasil, tudo indica que a terra brasílis segue a tendência dos grandes mercados.

 A reabertura da Polysom, única fábrica de LPs da América Latina, que possui sede em Belford Roxo, Rio de Janeiro, é um dos fatores que comprovam e ao mesmo contribuem para a formação de um cenário positivo para os discos de vinil. A empresa havia fechado as portas em 2007 com dificuldades financeiras; dois anos depois, em 2009, foi comprada pelos proprietários da gravadora Deckdisc e recolocada em atividade. Foi a fabricante de novas produções, como “Cavalo”, de Rodrigo Amarante e “Nunca Tem Fim”, de O Rappa, além dos clássicos relançados em 2013, “África Brasil” e “A Tábua de Esmeralda”, de Jorge Ben.

Ter uma fábrica de LPs em atividade no Brasil significa uma grande potencialidade de que o segmento prospere cada vez mais. Contudo, o valor a que são comercializados os discos novos, sejam eles novidades ou, ainda pior, relançamentos de clássicos, são um grande obstáculo para que o mercado dos vinis embale de vez um grande retorno. Em contrapartida, os fiéis escudeiros dos bolachões, que resistiram aos maus tempos em que eles estavam condenados ao ostracismo, persistem oferecendo uma alternativa mais acessível para quem procura pelo produto. “Todos os vinis que eu comprei são de sebos ou feiras de troca e venda de discos. Esses lugares têm melhores preços e mais variedade, muitas vezes funcionam à base de trocas e acabam sempre tendo coisas novas que estavam guardadas com colecionadores”, conta Fabiano Moreira, que insiste em não se dizer colecionador, mas também não consegue parar de comprar LPs.

As casas de vinil

Se o vinil está voltando com força total agora, mais de 60 anos após o seu surgimento, é porque o seu sucessor, o CD, não conseguiu substituí-lo por completo, é o que pensa o colecionador Antônio Carlos Pasolini. Por mais ofuscado que fosse, o LP sobreviveu em algumas coleções pessoais e também nos sebos, que passaram por momentos difíceis nos tempos áureos do compact disc. Os que sobreviveram, ou mesmo aqueles que surgiram há pouco, percebendo essa nova oportunidade de mercado, se tornaram os protagonistas desse comércio.

Golias em sua loja. (Foto: Mariana Bergamini)
Golias em sua loja. (Foto: Mariana Bergamini)

O Golias Discos, uma das maiores lojas do ramo no Espírito Santo, chegou a ter que fechar, mas reabriu e hoje é uma referência ao se tratar de vinil no estado. “Em toda minha vida trabalhei com LPs e com música, antes mesmo de ter a minha própria loja. Fechei em 98 por causa do CD, mas reabri meses depois com muita gente desacreditando do negócio. De uns anos pra cá percebo que a procura pelo disco está crescendo, gente que se desfez da coleção para comprar CDs hoje se arrepende”, explica Valter Viera da Silva, proprietário da loja no Centro de Vitória e conhecido mesmo como Golias.

O movimento na loja do Golias não o deixa mentir. Em meio a mais de dez mil discos o entra e sai de clientes é frequente. É gente que chega para comprar e também para vender, cena comum em qualquer tipo de sebo no mundo inteiro. Valderedo de Carvalho é dono de um em Jardim da Penha, o Sebo Veredas. Lá, os discos dividem espaço com livros, revistas, quadrinhos e CDs, sendo que este último está com os dias contados, tendo em vista a crescente demanda pelos bolachões: “Todo o meu acervo de vinis foi formado em sua maioria por trocas. Os clientes vêm aqui e me oferecem um LP, em troca de um livro e vice-versa. Eu nunca saio à procura de discos para vender na loja, as pessoas vêm e trazem o que já não querem mais, levam algo novo e assim os discos vão circulando e se renovando na estante”, explica. 

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Acervo de LPs do Sebo Veredas. (Foto: Mariana Bergamini)

Sebos muitas vezes funcionam como um tipo de comércio informal. No do Golias nem preço há nos discos, ele avalia na hora. “Vem todo tipo de pessoa comprar LP aqui. Dependendo do que ela escolher, coloco um preço que possa pagar”, conta o comerciante. E eles vão de R$ 1, 00 a R$ 100, 00. O valor do vinil depende do seu estado de conservação e, principalmente, de sua raridade. Quanto mais difícil de ser encontrado, mais caro. Entre os mais valiosos, estão álbuns dos Beatles e preciosidades da música popular brasileira, como um Pixinguinha que sai a R$ 150, 00, o valor mais alto de um disco no Sebo Veredas.

Os amantes do bolachão

Aquele chiadinho que faz quando a agulha dança sobre o LP pode ser considerado um dos principais responsáveis pela sua volta. É que ele é capaz de trazer à mente de quem ouve muitas recordações. Tendo feito sucesso décadas atrás, o disco de vinil proporciona ao consumidor de hoje muito mais do que música. Geralmente, o responsável pelo crescimento da atual demanda dos bolachões é um público diferenciado e que já teve contato com esse formato em algum momento da vida.

Antônio Carlos, Golias e Ana Paula em dia de compras no Golias Discos. (Foto: Mariana Bergamini)
Antônio Carlos, Golias e Ana Paula. (Foto: Mariana Bergamini)

Antônio Carlos Pasolini é um desses que voltou a comprar vinil de uns anos para cá. Ele se desfez de uma coleção com cerca de cinco mil discos para substituí-los pela promessa do CD. Agora, está em busca de refazer seu acervo: “Me arrependo muito de ter trocado meus LPs, mas o CD era a novidade e todo mundo estava fazendo isso. Hoje vejo que o som do vinil tem mais qualidade e é também uma coisa que dura para a vida toda, ultrapassa gerações”, explica o colecionador que estava na loja do Golias acompanhado da filha, Ana Paula Pasolini, que por influência de Antônio, também começa a comprar seus primeiros discos. “Meu pai sempre gostou muito de música e eu cresci ouvindo com ele. Toda vez que escuto um LP lembro imediatamente da minha infância”, conta Ana Paula.

Enquanto o formato de gravação dos CDs e DVDs é digital, sendo convertidos posteriormente no momento da reprodução e enviados ao amplificador como analógico, com o vinil não há a necessidade de conversão. Sendo o áudio original analógico, a gravação digital deixa de captá-lo em sua totalidade, em contrapartida,  nada se perde com os bolachões, que conservam o mesmo formato da gravação à reprodução, o que resulta em um som mais agradável e preciso. Mais do que pelo romantismo, a escolha se justifica também pela alta qualidade dos discos. E não é só em relação ao som, os encartes do LP compõem uma parte importante do álbum, pensados pelos artistas como um aspecto integrante daquele trabalho, que deve ser interpretado como um todo.

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Fabiano e seus discos. (Foto: Mariana Bergamini)

“Hoje em dia, com a música vinculada ao meio virtual e o desenvolvimento dos players modernos, mesmo que a qualidade de reprodução seja boa, perde-se muito a valorização da totalidade do álbum, que vai além das faixas, comprometendo a obra final do artista”. É o que diz Fabiano Moreira, apaixonado por música e mais um adepto do vinil. Como em muitos outros casos, Fabiano é do tempo dos CDs e os trocou pelos LPs por influência do pai, que não era colecionador, mas como um bom fã do Rei Roberto Carlos, possuía diversos vinis que agora estão na estante do filho.

Dizer que o vinil está de volta, a cada dia mais, significa que aos poucos ele está deixando de ser artigo de colecionador para ampliar seu nicho de consumo. A ideia de que os bolachões são coisa de velho se subverte a cada LP lançado e vendido. No tempo da simultaneidade, em que quase nada é capaz de prender a atenção de um espectador disperso, que vê TV, ouve rádio e navega na internet, tudo ao mesmo tempo, o toca-discos propõe uma pausa para a música. “O mais legal da vitrola é que você precisa doar uma parte do seu tempo para essa ação. Passa a ser um ritual, um momento que você dedica a ouvir música, esse é o diferencial”, conclui Fabiano.

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