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Dan Zanotti e Karen Vieira  Com os olhos do mundo voltados para o Brasil, um cenário intenso de reivindicações se estabelece em uma onda de discussões e greves. E isso não é de hoje! Os brasileiros experimentam, desde o último século, a força política que os movimentos sindicais detêm principalmente em ano de eleições presidenciais.

Às vésperas da Copa 2014, possíveis paralisações podem acontecer no país, segundo especialistas ouvidos pela BBC no último mês, como um mecanismo de pressão sobre o governo e as empresas privadas. No Espírito Santo, os serviços realizados por policiais civis, médicos e portuários foram paralisados anteriormente, enquanto servidores públicos estaduais e professores da rede estadual e municipais (Cariacica, Viana e Vila Velha) ainda se arrastam sem acordos entre as partes.

Aproximadamente 40 mil estudantes das escolas públicas da Grande Vitória estão sem aula há mais de um mês. De acordo com a Prefeitura de Serra, cerca de 77% das unidades aderiram à greve e em Cariacica 90% delas também integram o movimento.

Apesar de parecer uma causa justa, ainda há quem não concorde com as paralisações, como garante o motorista  Weverton Souza. “Eu acho importante lutar pelos seus direitos, mas tem um limite, porque o direito do outro termina quando o meu começa”, disse.

O SINDICALISMO NO BRASIL

O movimento sindical brasileiro, originado no século XIX, decorreu da ausência de regulamentações profissionais, condições precárias de trabalho e baixos salários. A união dos trabalhadores insatisfeitos deu origem às primeiras articulações sindicais, as associações. As Ligas Operárias, como eram chamadas, passaram a organizar movimentos grevistas e reivindicações como forma de ajuda recíproca.

Após a Revolução de 1930, o então presidente Getúlio Vargas a fim de consolidar sua posição no cenário político por meio de medidas populares, tomou decisões favoráveis aos trabalhadores. Em 1943, com a oficialização dos sindicatos, foi promulgada a Consolidação das Leis de Trabalho (CLT).

Com a ditadura militar, os sindicatos foram duramente perseguidos e reprimidos através de intervenções e prisões de líderes sindicais, sofrendo a maior repressão política de sua história. Posterior a essa fase obscura, o movimento ressurgiu timidamente após a década de 70, inaugurando uma nova fase do sindicalismo brasileiro, cujo cenário foi o ABC paulista.

E para melhor entender o panorama desta situação, conversamos com a vice-presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) do Estado, Noêmia Simonassi, que vai falar um pouco mais sobre os movimentos sindicais, o contexto que estamos inseridos e outras detalhes. Confira abaixo a entrevista na íntegra com Simonassi.

 Qual a importância histórica dos movimentos sindicais como um mecanismo de defesa do trabalhador?

O sindicalismo no Brasil surgiu sem ligações partidária para atender a todas as demandas do trabalhador, baseado em liberdade e autonomia. Sempre foi um mecanismo de combate à desvalorização do trabalhador.

Nas duas últimas décadas, os movimentos sindicais perderam força. Alguns estudiosos apontam esse processo como uma “crise dos movimentos sociais”, decorrente da globalização e expansão econômica acelerada. Como você analisa essa questão e quais seriam os principais fatores desse enfraquecimento?

Antes da ditadura militar, os sindicalistas possuíam um tipo de força e de formação. Com o regime de 1964, a formação política e crítica dos jovens, dentro da área de educação, foi muito reprimida. À medida que as categorias foram conseguindo ter mais direito, muitos passaram a pensar que não era preciso lutar mais. Um exemplo é que há pouco mais de 15 anos, na Educação, um sindicato parava o estado inteiro por melhores condições de trabalho. A classe trabalhadora conseguiu avançar, mas passou a acreditar que não precisava mais lutar.

O fato de sindicalistas assumirem o “poder” também é um fator, pois as forças políticas partidárias brasileiras impedem que esse indivíduo realize apenas seus ideais, afinal a classe dominante interfere muito na questão política partidária e isso deixa as bases descrentes. E claro, ter melhores condições financeiras faz com que muitos deixem a luta de lado, por estarem relativamente satisfeitas.

E o que falta ao brasileiro?

Formação sobre a questão sindical. O fato de termos um governo progressista ainda exige que lutemos por objetivos comuns a uma classe.

 Quanto às manifestações de 2013 e o jargão “o povo acordou”? Realmente acordamos?

Não; em certos pontos continuamos dormindo. O sindicalismo classicista e autônomo nunca dormiu, mas o povo precisa saber que para ter mais é preciso lutar mais. A mídia é uma das grandes responsáveis por criminalizar os movimentos sindicais, assim como a justiça e o Poder Público. Afinal, quando há uma greve a multa é tão alta que o trabalhador e seu sindicato não conseguem manter a ação.

E essa crítica da mídia aos movimentos e às ações sindicais? Como isso interfere nas manifestações?

A mídia no Brasil é muito mascarada, pois tudo depende do interesse dos grandes meios. O apoio às manifestações de 2013 se deu devidos aos interesses de um grupo colocar o povo contra o governo, mas com o chamado “quebra-quebra” essa história mudou e os movimentos sindicais foram apresentados como baderna. É uma questão política! Por isso a população acaba não percebendo que as reivindicações são para todos, pois precisamos de saúde, educação, mobilidade urbana e segurança. A mídia está fazendo sim um serviço, mas não para a classe trabalhadora.

Como utilizamos os movimentos sindicais a favor de uma realidade econômica próspera e globalizada? Qual é o futuro do sindicalismo brasileiro?

Estamos no momento de repensar o sindicalismo, mas sem deixar de lado a luta pelos direitos. Precisamos formar novas lideranças à frente das lutas, precisamos da juventude e para isso é preciso de uma educação que forme o indivíduo para a vida, com conhecimentos sobre o trabalhador, os seus direitos e a sua importância para um país. Afinal, democracia é ter o direito de falar.