• O Artista Ficore posa diante de sua mais recente obra em Jardim Camburi.
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Por Dan Zanotti e Karen Vieira – Nem sempre artistas estão em vernissages e obras em galerias. Com o chamado jeito “bicho solto” e um humor contagiante, Ficore é a prova viva de que a arte também está nas ruas; aliás, ela nasce nelas.

Ele não precisa de muita coisa para produzir e as ruas são suas grandes aliadas. Dê ao rapaz de dreads um spray colorido e qualquer pedacinho em branco de um muro ou parede. Logo verá a matemática tomando forma com triângulos, quadrados e círculos que se encontram nos contornos de algum animal cuidadosamente desenhado.

Nós últimos cinco meses, Ficore deu vida a 300 m² de um pequeno beco do Village, em Jardim Camburi, com o painel “Raízes de Cor”. Esse conjunto de casas, iniciado na década de 80, corresponde a uma área de ocupação irregular, devido à falência da Companhia Habitacional do Espírito Santo (COHAB).

No decorrer de inúmeras palavras e gargalhadas descontraídas, o orgulho do artista urbano irradiava ao pontuar cada momento e processo utilizado para realizar uma das suas maiores obras em seu próprio bairro. “Eu vou transformar o Village em um dos maiores complexos artísticos do país. Eu vou ocupar os becos e narrar a história daquele lugar. Quero um museu de arte a céu aberto”, disse o grafiteiro.

Além de ser referência nacional na arte que representa, o Filho das Cores – como também é conhecido – tem uma obra tombada como patrimônio cultural da cidade histórica de Spinoso, em Basilicata, na Itália. Sua outra paixão é a música, que rendeu participação especial em uma faixa do novo disco do MC internacional Nero. Em terras brasileiras, ele gravou o single “Siga em frente” com a banda Lion Jump, e rimou ao vivo com antigo grupo Charlie Brown Jr.

Manda a “pala”, Ficore!

O Artista Ficore posa diante de sua mais recente obra em Jardim Camburi.

O Artista Ficore posa diante de sua mais recente obra em Jardim Camburi. Créditos: Yuri Barichivich.

Como foi o processo de criação do painel de Jardim Camburi? Pensou no desenho como um todo ou a partir dos primeiros traços que você teve a definição do esboço final?

Eu havia chegado de uma turnê de três meses na Europa e queria muito fazer mais trabalhos aqui. Foi quando recebi o convite da Rede Gazeta para que fosse filmado o meu processo de pintura em um lugar da minha escolha. Achei uma parede em branco nas proximidades da minha casa e lá dei início ao trabalho. Foi tudo bem natural.

Comecei com dois elefantes, apenas. No dia da gravação, começou a chover (inclusive foi aquela fase de chuvas intensas no final do ano passado) e tivemos que interromper o processo. Mesmo assim, eu continuei trabalhando. A surpresa dessa história toda veio quando as pessoas passavam e diziam: ‘ Você vai pintar a parede toda? Pinta, cara!’. Acontece que eu não tinha estrutura para tudo aquilo, nem financeira e nem de equipamento. Comecei pegando uma escada emprestada para pintar a orelha do elefante médio. Em seguida, um amigo investiu cerca de R$ 300 para o aluguel do andaime.

E vieram mais surpresas no caminho?

Exatamente. O andaime seria mais de R$ 1 mil e ainda tinha mais coisa para entrar nessa história; e , claro, ia ficar bem caro. Quando fiz o orçamento, o responsável pelo equipamento decidiu conhecer o local da obra e como estava ficando aquela história toda. O resultado? Ganhei aluguel do andaime por tempo indeterminado. Eu estava usando as minhas tintas, mas era muita coisa e o mural estava se tornando uma coisa grandiosa. Então resolvi escrever um projeto para a Politintas e, acredite, ganhei o material que faltava. Pronto! Agora sim eu tinha tinta, muita tinta, mas ainda havia muro, muito muro em branco que precisava ser trabalhado.  Meus amigos me ajudaram e os moradores daquela região abraçaram a causa. A obra era nossa!

O painel é na lateral de um prédio. Como os moradores reagiram a isso?

Isso é engraçado (risos). Certa vez eu estava pintando e  veio a proprietária. ‘ Você está pintando meu muro? A sorte é que eu estou gostando’. Foi por pouco! Eu não havia pedido autorização nenhuma para pintar ali (risos). Tinha sido tão natural, que eu nem me liguei. As paredes eram muito sujas, com rabiscos aleatórios sem identificação, mas que fique claro que não passei por cima do trabalho de nenhum pichador ou grafiteiro. Eu respeito o trabalho de todos, porém o que tinha lá não eram assinaturas.

O que você sentiu no processo de criação do “Raízes de Cor”? Qual era  sua provocação, tendo em vista que é uma grande obra de arte em um lugar em que os moradores sofrem preconceito exatamente por serem do Village?

Foi um processo de introspecção. Cada dia eu resgatava um pedaço da minha história naquela região. Eu queria expressar a realidade do Village. Queria os valores que faziam sentindo para quem morava lá. Eu ocupei um espaço público assim como as pessoas ocuparam aquele lugar. Eu queria gritar para o mundo o que aqueles moradores desejavam gritar há 30 anos. Eles já passaram muita coisa, já foram expulsos por tropa de choque, mas resistiram.

No Village, as pessoas sempre viveram com a dúvida se permaneceriam ali, mas foram eles que construíram a estrutura daquele lugar. A grande verdade é que o Village trouxe a realidade para dentro de um bairro nobre. Essa região ganhou cara de gueto, porque as pessoas são mais humildes. São duas realidades sociais completamente diferentes dentro de um mesmo bairro. Após a especulação imobiliária, o Village foi excluído, assim como os moradores de lá.

"Raízes de Cor" é a mais nova obra de Ficore. Crédito: Rafael Nick / Elo Entretenimento  Edição: Ricardo Amado.

“Raízes de Cor” é a mais nova obra de Ficore.
Crédito: Rafael Nick / Elo Entretenimento
Edição: Ricardo Amado.

São 300 m² de graffiti em um beco de Jardim Camburi. Como a arte desmistifica construções sociais?

Lá são muitos moradores negros, diferente do bairro, que é branco, com boas casas e bons carros. Eu fiz o resgate das pessoas que moram ali. Queria a representar a força, a resistência, a riqueza cultural e a memória do Village  em uma “Raiz de Cor”. Ou seja, o nome sugere toda essa grandiosidade e multiplicidade. A África combinava com esse contexto de resistência.Tinha gente que tinha vergonha de falar que morava lá. Quem diz que lá é perigoso está mal informado. As coisas mudaram. O painel é o nosso orgulho e representa essa coletividade. Cada personagem da pintura tem um círculo na testa para simbolizar uma unidade dentro da diversidade. Somos diferentes, mas iguais na resistência.

Para representar essa luta, eu usei um guerreiro africano; busquei durante alguns dias imagens que fossem uma referência disso. Lembrei então de um amigo meu, morador do Village, Thiago Assis, que já enfrentou uma barra por lá; hoje, ele é um exemplo de superação para molecada. Percebi que o guerreiro que eu procurava estava do meu lado. Ele é o referencial do pertencimento do espaço. Outro elemento também deu vida ao painel, o último a ser pintado após cinco meses de trabalho: é um garoto, inspirado em um pequeno morador de lá, que toca um tambor. Ele dá vida a toda aquela manifestação. Ao tocar o tambor, ele resgata a cultura dele.

O que esse projeto representa para você?

Eu abri mão da minha vida pessoal, de uma vida profissional bem remunerada. Eu fiz uma residência artística que faz parte da minha história. Foi uma oportunidade mágica. E, agora, estou escrevendo um projeto para transformar o Village em um museu a céu aberto.Vou documentar tudo e ainda vai aparecer mais história por aí.

Existe muito preconceito contra os grafiteiros ainda? Como está o panorama atual deste contexto no Espírito Santo?

Existe preconceito até com meu cabelo. Preconceito tem com tudo e  arte não escapa. Tudo que vem do gueto e desafia modelos formais. O graffiti é samba na música, é capoeira dentro da dança. As pessoas tendem a atribuir valor ao que tem preço e o graffiti não é comercializado. O acessível é ignorado e as pessoas não dão valor.

Qual foi o significado em ter uma obra tombada fora do país? A sensação seria a mesma se fosse no Brasil, aqui no estado?

Meu reconhecimento legítimo tem raiz na rua. Meu conhecimento não foi sustentado pela mídia, mas por toda trajetória que eu fiz. Meu crescimento está ligado à pesquisa das ruas e à relação com o outro. A Europa foi um capítulo muito importante, é claro. Minha credibilidade também é aqui. Eu militei pela minha arte, eu fui às periferias e ao governo pelo direito de fazer arte.

 

Painel tombado como patrimônio cultural da cidade histórica de Spinoso - Basilicata, Itália. Foto divulgação.

Painel tombado como patrimônio cultural da cidade histórica de Spinoso – Basilicata, Itália. Foto divulgação.

 

 

 

 

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