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(Vinícius Rocha) Eu me encontrava sozinho em casa, como de costume. Tinha voltado de uma corrida matinal seguida de um revigorante mergulho no sagrado mar salgado. Era o último dia de férias da universidade. Preparei um café da manhã pomposo: iogurte com granola, café preto com torradas amanteigadas e acompanhadas de ovos mexidos em um fio de óleo de oliva e salpicados de orégano. Por fim, um tenro mamão papaia coberto por flocos de aveia e mel. Resultado: movimentos peristálticos indicando uma pra lá de prazerosa cagada de porta aberta!

Nina Simone na vitrola, jornal do dia sob a axila esquerda, toalha dependurada para banhar-me na sequência, instalei-me confortavelmente no majestoso trono – onde o covarde e o valente se igualam -, abandonando o jornal sobre o cesto de revistas velhas à minha direita. Pensava na moça estonteante que vi na praia e meus pensamentos eram tórridos. Decidi que me masturbaria assim que entrasse no banho. Mas eu não tinha ainda o ventre devidamente aliviado. Saquei o jornal e pus-me a passear os olhos desinteressados pelas manchetes, de forma a deixar meu preguiçoso aparato intestinal trabalhar em paz…

Na página 5, deparei-me com uma matéria de folha inteira sobre a dengue. Era mesmo um ‘dossiê’ sobre a enfermidade, suas nuances, formas de prevenção, tratamento, e uma foto do mosquito anatomicamente detalhado por um especialista. Contive-me por alguns instantes a contemplar aquela curiosa fisionomia: paletó listrado na horizontal, três pares de elegantes patas compridas (e magérrimas!), um par de asas horizontais outro de antenas verticais, bico longo, fino e de coloração amarelada, e dois temíveis olhinhos multifacetados!

Foi quando, de repente – acredite nisto ou em vírgula alguma do que escrevo! – eis que surge, ali diante do meu nariz, a zumbir suas asinhas, ele: o Aedes em sangue e exoesqueleto! (Descobri que não três – como até então se acreditava -, mas quatro, quatro coisas param no ar: helicóptero, beija-flor, Dadá Maravilha e o Aedes Aegypt).

Paralisei, de imediato, aterrorizado pelo poder de destruição daquela miúda criaturinha, que já havia me encamado por cinco ou seis dias, há um par de anos passados. Não queria outra vez aquele desconforto, aquela sofreguidão, aquela beira da morte. Tentei dialogar com o sanguinário artrópode, falei da vizinha de cima – aquela doçura! -, do gordinho do 102, que era um tremendo sangue bom, até prometi leva-lo ao banco de sangue do hospital mais próximo, mas o sinistro inseto parecia irredutível. Encarava-me com um olhar ameaçador, aguardando o momento oportuno para sugar-me o néctar precioso. (Desconfio que o funesto bichinho me espiava enquanto eu me fartava daquele pomposo desjejum…).

Evitei movimentos bruscos, enquanto concentrava no único plano que me veio à mente: Paf! Fechei o jornal na tentativa tola de esmagá-lo em seu próprio dossiê. Mas o danado escapou pelo entreaberto da porta. “Filha de uma puta!”, bradei desconfiado. Mais que depressa alcancei o repelente elétrico sobre a pia, plugando-o prontamente na tomada. Respirei fundo e virei a página. Pus-me de volta a passear os olhos desinteressados naquele jornal desinteressante…

Alguns minutos depois, já devidamente aliviado, curvei o corpo para posicionar a duchinha higiênica abaixo do meu mitigado ânus – que ainda há pouco tinha visto tocha e merecia uma refrescante e relaxante chuveirada! Foi quando tive um sobressalto: “que porra é essa no meu pé?”. Um calombinho avermelhado (que até que dava uma coceirinha gostosa!) me atemorizava mais que o pior dos hematomas… “Filha de uma puta!”, bradei indignado.

Meus pensamentos se desesperaram e me desesperaram. Eu não queria morrer assim, de repente. Nunca mais entornar vinhos, devorar chocolates? Ler um bom livro, ver um bom filme, nunca mais me embriagar de me banhar no sagrado mar salgado? Nunca mais, enfim, desfrutar das delícias deste planeta? Nunca mais foder uma boceta!? Justo agora? Justo agora que conheci Teodora?…

Quando dei por mim, estava sob a ducha morna, testa apoiada no cotovelo esquerdo apoiado na parede, e tinha os cinco dedos da mão direita envolvendo o membro teso, a esfregá-lo num ritmado vai e vem. Enquanto me masturbei como se fosse a última vez não pensei em Teodora nem na moça estonteante que mais cedo vira na praia. Na verdade, não pensei. Apenas a-pensei. Senti a vida a fervilhar no interior os meus testículos e o universo do meu corpo a se concentrar na matéria ardente daquele membro teso. Eu babava, gemia, rosnava, tremia maluco da medula. E endiabrado atingi não um orgasmo, mas o nirvana.

Passei o dia ainda desconsolado e fui dormir ainda sem nenhum sintoma enfermo, embora intermitentes pontadas na cabeça me tenham por vezes alarmado. Acordei no dia seguinte cheio de disposição. Sorri, de canto de boca: “devo ter sido condicionado pela matéria de jornal, quanta ironia para um jornalista!”. Talvez aquele que me picou tenha sido tão somente um pernilongo e não o impiedoso rival que braviamente afugentei pelo entreaberto da porta…

Olhei no relógio: eu estava, como de costume, atrasado para a universidade. Escovei os dentes, lavei o rosto, juntei minhas coisas na mochila e saí, comendo uma maçã. Ao fechar a porta, avistei a vizinha do 102: “Bom dia, Dona Rita, como vai a senhora?” “Menino, eu mal dormi essa noite, com meu filho passando mal a noite inteira… febre, vômito, dores pelo corpo… tô desconfiada que é dengue…”

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