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[h4]Quando uma pessoa morre no mundo “real”, o que acontece com seus perfis de redes sociais? Sabemos que muitos deles permanecem “vivos” vagando pela rede, ainda recebendo recados, comentários em fotos, e, muitas vezes, até preces. [/h4]

(Cecilia Moronari e Karina Mauro) Estamos inseridos em uma era em que as pessoas possuem mais de uma vida: a vida chamada de “real” e uma vida online. Além do nosso dia-a-dia, ainda temos que administrar aquelas outras realidades em diversas plataformas – Facebook, Instagram, Twitter. Postamos fotos de momentos especiais, compartilhamos nossos status contando alguma situação inusitada do dia, além de recebermos mensagens de amigos. Mas e quando alguém deixa de existir na “vida real”, o que acontece com aquela vida que ela mantém online?

A Prof. Drª. Renata Rezende, da Universidade Federal Fluminense, pesquisou durante o seu doutorado como se dão as narrativas da morte no mundo digital. Renata trabalha com imagem e novas tecnologias de comunicação e sua pesquisa com os perfis de mortos nas redes sociais começou em 2006, como um projeto a ser desenvolvido em seu doutorado, sendo finalizado com sua tese.

“Tudo começou quando eu soube da morte de um amigo meu por meio do Orkut e daí eu comecei a observar que as pessoas continuavam escrevendo pra ele (como se ele pudesse ouvir os apelos, as lamentações, sem contar que tinha gente que enviava recados como se ele ainda estivesse vivo. Enfim, achei aquilo um fenômeno que precisava ser estudado.” conta.

A partir daí, Renata encontrou a comunidade do Orkut “Profiles de Gente Morta (PGM)”, que reúne perfis de pessoas que morreram na vida “real”, mas seus perfis ainda permanecem ativos na rede. Pessoas “vivas” que fazem parte da comunidade postavam cerca de cinco links por dia, com dados de pessoas mortas, onde era possível obter informações sobre eles. Em seguida, esta comunidade passou a ser analisada, a partir de um método configurado especialmente para esta pesquisa. “Trabalhei com análises a partir das tipologias que permanecem nas narrativas da morte: a cruz, a fotografia do morto e a lápide – (até hoje encontradas em cemitérios tradicionais). Tudo isso, é claro, a partir de estudos e referências bibliográficas  sobre a História da Morte no Ocidente.” esclarece Renata.

Página da PGM no orkut.
Página da PGM no orkut.

Para entender como se dá a morte atualmente, num cenário no qual as pessoas lidam e interagem com as redes sociais cotidianamente, Renata teve de recorrer algumas vezes a comparações desde as narrativas mais antigas da morte até os mais novos processos. Sua pesquisa conta com, como ela mesma verifica, “um percurso pela história da morte (no ocidente), particularmente, a partir da Idade Média”.

“A digitalização da morte, nos parece, passa a estabelecer uma espécie de diálogo de forma mais efetiva e interativa entre os grupos estabelecidos em torno do morto. Isso ocorre porque, numa realidade marcada pela midiatização das relações socioculturais, a morte não escapa à formatação midiática de sua performance: é necessário eternizar esse corpo, mesmo morto, e ativar relações comunicativas a seu redor a fim de conservar a presença do falecido.” (REZENDE, 2008).

A pesquisa da professora trabalhou com o mundo virtual, em particular as comunidades virtuais, como um lugar para as mortes: cemitérios digitais. Ao longo dos anos, a morte vem sendo ressignificada, e, o objetivo da pesquisa foi descobrir quais poderiam ser as novas leituras da morte na contemporaneidade midiática. Apropriando-se da concepção, da Idade Média, dos cemitérios como locais sagrados, as comunidades virtuais, e também os perfis dos mortos, são locais para a celebração e culto desse “corpo morto”: por meio de mensagens, imagens, orações e poemas. “A digitalização do ‘corpo morto’ torna-se manutenção de um laço de interatividade, presença e lembrança de um sujeito então ausente” (REZENDE, 2008). O culto aos mortos, rituais, ofertas, rezas e sacrifícios servem, na cultura ocidental, para assegurar a eles uma espécie de conforto no além. Sendo assim, nessas comunidades e perfis, essas pessoas continuam recebendo recados, como se, de alguma forma, pudessem ouvir seus apelos.

A partir da comunidade (PGM), os fragmentos da história daquela pessoa, não apenas os deixados por ela quando ainda viva, mas os relatos construídos após a morte pelos participantes da rede – mensagens, fotos, relatos do passado – traçam uma biografia do morto, atuando na manutenção e invenção desse “corpo morto”, na incansável missão de salvar o passado e fugir do esquecimento.

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Vida real

É muito comum conhecermos alguém que morreu e deixou diversos perfis ainda “vivos” na internet. O Facebook, por exemplo, dá a possibilidade de familiares excluírem a conta do seu parente do site, ou ainda manter a página como uma espécie de “memorial”. De acordo com o Facebook, essa opção faz com que todo o perfil da pessoa falecida se torne público, mas nenhuma pessoa poderá se conectar a esta conta e novos amigos não poderão ser adicionados. Assim, amigos e parentes ainda poderão deixar mensagens, ver fotos e reler os posts do seus entes queridos eternizados na rede.

Entretanto, na maioria dos casos, esses perfis, por serem privados (necessitarem de login e senha para acessar), acabam não sendo deletados e permanecem “vagando” pela rede, ainda recebendo mensagens, recados ou comentários em fotos. M. reencontrou o perfil de um amigo antigo no Facebook, depois de ter perdido o contato por mais ou menos dois anos. “Um dia resolvi buscar o nome dele e encontrei o perfil. Deixei uma mensagem perguntando se ele lembrava de mim. A mensagem até foi visualizada, mas não recebi nenhuma resposta”, conta. Só então ela percebeu as diversas mensagens de saudade deixados na linha do tempo do rapaz: “vi muitos recados desejando paz e homenagens a ele. Foi aí que me dei conta de que ele havia falecido, mas as pessoas continuavam marcando fotos em que ele estava presente e até deixando recados de feliz aniversário na página dele”.

Imortalizando usuários

A criogenia humana é uma técnica de congelamento de cadáveres humanos em baixíssimas temperaturas para que o corpo possa ser ressucitado no futuro. Esta técnica já é aplicada à óvulos já fecundados, e estima-se que 60% deles possa realmente virar um bebê. Por esse motivo, muitas pessoas acreditam que a técnica funcionará com seres humanos.

Já nas redes sociais, uma espécie de criogenia digital já está sendo desenvolvida. Uma tentativa de “imortalizar” as pessoas, que já está sendo desenvolvida e promete grandes avanços, apesar de poder ser considerado um pouco mórbido. Um projeto batizado de Eterni.me, que está sendo desenvolvido pelo Massachussetts Institute of Technology (MIT), pretende criar um avatar de pessoas mortas que permita a conversa num chat, como o Skype. A partir das memórias registradas nas redes sociais (fotos, vídeos, conversas por email), este perfil, baseado em algorítimos de inteligência artificial, conversará simulando o comportamento e personalidade da pessoa morta.

Descrição do projeto. (Imagem do site Eterni.me)
Descrição do projeto. (Imagem do site Eterni.me)

Os criadores do projeto afirmam ter criado este algoritmo extremamente sofisticado, capaz de analisar todos os dados coletados e criar uma “consciência” no computador. Dessa maneira, será possível, não somente conversar com o avatar que tenha a personalidade da pessoa morta, bem como relembrar todos os momentos dela que já foram registrados digitalmente. Mais do que apenas um jogo de perguntas e respostas, o Eterni.me pretende simular até mesmo as emoções dessa pessoa.

Quanto mais dados forem oferecidos para montar o avatar, mais completo, fiel e sofisticada a sua versão digital será. O software ainda promete o reconhecimento de voz, permitindo que os usuários se comuniquem pela fala, porém, até agora, só serão respondindos por mensagens de texto.

“Geramos uma versão virtual de você, um avatar que emula sua personalidade e pode interagir, conversar e dar conselhos para sua família e amigos depois que você morrer. É como uma conversa de chat com o passado”, explica o site do projeto.

Apesar de ainda estar em fase de testes, o Eterni.me já recebeu cerca de 1,3 mil pré-registros em seu site nas primeiras 24h de publicação.

Inteligência artificial nas telas do cinema

Her ("Ela") - filme

Lançado no dia 14 deste mês, o longa-metragem “Ela”, de Spike Jonze, fala do amor e da solidão na era digital. Já cotado para o Oscar, o filme conta a história de Theodore (Joaquin Phoenix), um escritor solitário que compra um novo sistema operacional para o seu computador, que possui inteligência artificial, e “funciona” como se fosse um humano (com emoções e desejos). Theodore acaba se apaixonando por Samantha (seu sistema operacional) e passa a conduzir uma relação amorosa com ela. O filme trata da relação contemporânea do homem com a tecnologia, e acaba trazendo em sua trama a “realização” da ideia do Eterni.me: a possibilidade da criação virtual de um avatar de alguém que já morreu. No filme, Alan Watts, fiósofo e escritor britânico morto em 1973, possui um avatar que pode conversar normalmente, tanto com humanos, quanto com outros sistemas operacionais, como se ainda estivesse vivo: com a mesma personalidade, mesmas emoções e questionamentos de sua vida “passada”.

Referências bibliográficas: REZENDE, Renata. Inferno, Purgatório ou Paraíso? Narrativas da morte na mídia digital. 2008. Disponível em <http://www.ufrgs.br/alcar/encontros-nacionais-1/6o-encontro-2008-1/Inferno-%20Purgatorio%20ou%20Paraiso.pdf>. Acesso em: 10 fev. 2014.

Links extras (Artigos da Prof. Drª. Renata Rezende): Um lugar para os mortos: os usos das comunidades virtuais como cemitérios digitais

Inferno, Purgatório ou Paraíso? Narrativas da morte na mídia digital.

Idade Média, Idade Mídia.

Fragmentos de um corpo: as novas tecnologias da comunicação e a construção da morte contemporânea

“Narrar e ser narrado”: a morte e os usos narrativos nas redes sociais

Imagem principal: Beijo da Morte, Cemitério em Barcelona. (Fonte: Barcelona4Seasons)

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