Funk no shopping

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[h4]Olhos e ouvidos da população capixaba se voltaram para o suposto arrastão que aconteceu no Shopping Vitória na tarde do dia 30 de novembro. Mas o que será que realmente aconteceu?[/h4]

(Cristian Fávaro, Edberg França, Mariana Massariol, Paula Gama e Viviann Barcelos)

Imagine que você em uma tarde de sábado vai passear no Shopping Vitória e, de repente, é surpreendido com as lojas fechando as suas portas, pessoas correndo e policias abordando jovens, majoritariamente negros, vestidos com os famosos bonés abas retas e dois lados. O que você pensaria?

Damos algumas opções:

a) Um assalto; um arrastão.
b) Um atentado terrorista ao Shopping
c) Uma manifestação cultural nas proximidades do Shopping.

As opções A e B são as mais credíveis para boa parte da população, afinal, em uma sociedade ainda marcada pelo preconceito, ver vários jovens juntos é motivo de medo e insegurança. Mas por que isso acontece?

No dia 30 de novembro, alguns jovens marcaram um encontro por meio do Facebook no píer, localizado atrás do Shopping Vitória, para um baile funk, um ritmo que tem origem na periferia do Brasil e, por isso, é diretamente relacionado à população pobre.

Após um barulho que parecia ser um tiro, durante uma abordagem da Polícia Militar no baile, os jovens entraram no Shopping e causaram pânico. Muitos lojistas fecharam as portas com medo de um suposto arrastão. E essa foi a notícia veiculada nos meios de comunicação, o que nos faz questionar o que é ser negro no Brasil e como os meios de comunicação perpetuam o preconceito.

Mesmo sem registro de denúncia de agressão ou de roubo, os jovens foram colocados em fila indiana, com as mãos na cabeça, na praça de alimentação do estabelecimento. O professor do Departamento de Filosofia da Ufes, Maurício Abdalla, avalia que muito mais do que preconceito contra o funk, ali estava evidente outro tipo de preconceito. “O que aconteceu foi uma discriminação com base social, que se reflete e se expressa no estilo musical. Quem foi perseguido no Shopping não foram os funkeiros, foram os negros, pobres, favelados; pessoas que estavam vestidas com trajes que não são aceitos socialmente. Quando você vê as imagens, na internet, dos jovens na praça de alimentação, você percebe que todos eram negros, uns mais claros que os outros, mas todos pertencentes à raça negra, pessoas da classe pobre que não costumam frequentar o shopping”, afirma o professor.

A abolição da escravidão não aboliu o preconceito

Falar de preconceito aqui no Brasil é complicado, mas necessário. Um tema que incomoda a muitos. Mas questione-se: se os jovens que entraram no Shopping fossem brancos e, aos olhos da sociedade, bem vestidos, o pânico seria o mesmo? O professor Maurício Abdalla explica que o episódio que aconteceu no Shopping é uma representação real do filme Elisyum, do diretor Neil Blomkamp, lançado este ano.

“O filme fez um retrato da nossa realidade, porém usando uma metáfora futurista. Nele, as pessoas que têm condições materiais, se isolaram em uma base espacial distante da Terra, e todos os pobres ficaram aqui sofrendo exploração e desatenção em diversas áreas. Todos aqueles que tentavam chegar a essa base eram reprimidos e até mortos no caminho. É uma metáfora do que está acontecendo em nosso mundo: cada vez mais se cria condomínios fechados, redomas e ambientes que só podem ser frequentados por uma classe social. No caso do Shopping não houve nenhuma denúncia ou agressão. Eles estavam ali. Quer dizer que todos são santos? Não. Mas também nem todos os brancos e bem vestidos que estão no Shopping são santos. É uma separação social que, no Brasil, é caracterizada também por um elemento de cor, raça e pele em função da história da escravidão que marcou o Brasil”, afirmou o professor.

O jovem que morre no Brasil é facilmente identificado: negro e de periferia. O Espírito Santo é o segundo estado do Brasil com maior número de homicídios de jovens com esse perfil, ficando atrás apenas de Alagoas. Uma violência que beira o extermínio da juventude com idade entre 15 e 24 anos.

Durante a revista dos jovens na praça de alimentação realizada pela Polícia Militar, algumas pessoas aplaudiram a ação da polícia e vaiaram os jovens ali presentes. Para o professor Maurício Abdalla isso significa intolerância e falta de capacidade de análise ao que está acontecendo ao redor. “Se as pessoas que enxergam um pouquinho além do nariz têm medo dessa situação, devem agir e agir com urgência. As pessoas que têm um pouco de noção, devem agir e agir logo”.

Grande Baile Funk- Arrastão contra o racismo

Em reposta ao episódio do Shopping, o Fórum Estadual de Juventude Negra (Fejunes), organizou um novo Baile Funk em frente ao Shopping Vitória no último sábado (07/12), este, porém, com o objetivo de protestar contra o episódio do dia 30 de novembro. O evento foi criado no Facebook e em poucos dias já contava com a confirmação de mais de 1.200 pessoas. Naiara Abdalla, integrante do Diretório Acadêmico da Ufes (DCE) e estudante universitária, estava no Grande Baile e ressalta os pontos positivos que a manifestação teve.

“Alguns setores da sociedade que não têm voz se expressaram e mostraram sua cultura. Foi também uma oportunidade de alguns MCs mostrarem seu trabalho, além de ter sido um choque para várias pessoas que frequentam o Shopping  e tratam o funk com desprezo e preconceito, principalmente se este é cantado por funkeiros negros e de periferia. Foi a reunião de vários setores da sociedade que querem dizer ‘chega de opressão’ e reivindicam uma pauta que contenha desde o fim do extermínio da juventude negra até a implementação da lei 10.639/2003, que prevê a obrigatoriedade do ensino nas escolas de História e Cultura Afro-Brasileira”, conta a estudante.

O coordenador do Fejunes, Lula Rocha, ressalta que é de suma importância essa contraposição à repressão dos jovens. “A partir do que a gente viu e da reprodução dos meios de comunicação, nessa mesma lógica, do racismo e do preconceito, nós propomos esse momento não só de reflexão, mas de reação a esse acontecimento. Não dá mais para aguentar essa situação de ausência de direitos e ferimento de nossa dignidade sem reagirmos contra isso”, afirmou.

A assessoria do Shopping Vitória informou que não cabe ao estabelecimento juízo de valores sobre o episódio do dia 30 de novembro. A Secretaria do Estado de Segurança Pública e Defesa Pessoal informou que não se manifestará sobre o assunto.

Fotos: Naiara Abdalla

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