Presente e marcante é o primeiro álbum de Emicida

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[h4]“O Glorioso retorno de quem nunca esteve aqui” é o CD de estreia do rapper Emicida e, em pouco tempo de lançamento,  já chama atenção por retratar, em letras e rimas, a sociedade contemporânea brasileira.[/h4]

Magalli Souza Lima – O single de estréia do álbum O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui, de Emicida, 28 anos, é a música “Hoje Cedo”, com participação da cantora Pitty. Nele, a letra já apresenta o tipo de realidade com que o público irá lidar, um retrato histórico contemporâneo de momentos marcantes não só no Brasil, mas em outros lugares também. Em 14 faixas, o músico atrela à trajetória de sua própria vida muitas das situações que jornais, revistas e sociedade fizeram circular como notícias. Essa característica do CD de retratar um histórico veio tão forte que, aos poucos, a crítica ao trabalho é de que o álbum soa extremamente factual, pode até não fazer sentido se escutado em outra época, em outro contexto. Sem as referências atuais.

E é dessa forma que o trabalho abre-se ao ouvinte, conversando com a realidade de muitos e dialogando com diversos gêneros. Na primeira faixa, intitulada “Milionário do sonho”, Emicida convida a poetisa capixaba Elisa Lucinda para dizer que “é difícil para um menino brasileiro, sem consideração da sociedade, crescer um homem inteiro, muito mais do que metade”, entre outras reflexões recitadas por ambos. Inicia-se aí uma gama de referências sociais mescladas por diversas vozes como Rael da Rima, Juçara Marcal, Tulipa Ruiz, Adriana Drê e a própria mãe dele, Dona Jacira, que entra na álbum para recitar o poema do dia em que morreu seu marido, a música mais introspectiva do álbum.

Entre as músicas ditas “brancas”, que estão ali para compor os diversos ritmos do CD, o cantor intercala composições pesadas, críticas e fortes como quando cita a repressão da polícia brasileira, na faixa Samba do fim do mundo – “…no país referência em arma antimanifestação”. Fazendo relação ao que o Brasil enfrentou em tempos de manistações populares pelas ruas da principais capitais. E não só por aí param as críticas. Emicida compara o país ao filho do empresário Eike Batista, Thor de Oliveira – “Meu país é um ciclista fã do filho do Eike Batista”, na faixa Bang. Thor voltava de uma festa em março de 2012, no Rio de Janeiro, quando atropelou e matou um ajudante de caminhão, Wanderson Pereira dos Santos, 30 anos. Sua pena foi resumida a serviços comunitários, habilitação suspensa por dois anos e indenização a família da vítima.

Citações a pessoas públicas não faltam no álbum que menciona desde o político Celso Pitta, imagem muito atrelada à corrupção, até a religiosa Dorothy Stang, assassinata em 2005 por lutar em prol da reforma agrária no Brasil.  O viajante Amyr Klink, a organização WikiLeaks, os artistas Os Gêmeos e o Movimento dos Sem Terra também ganham menções no disco. Tudo muito atual, remoído, não deixando cair no esquecimento dos brasileiros momentos que merecem ser lembrados, que caracterizam de alguma forma a impunidade, a corrupção, a cultura, a luta de um povo e a busca por mudanças.

Enquanto o mundo vende aos milhões o livro best seller 50 tons de cinza, Emicida o transforma em 50 tons de roxo para citar a limpeza social  promovida nas favelas do país. E o cenário músical também não passa despercebido, o rapper convidou o cantor MC Guime para representar o funk ostentação de São Paulo e dizer que “ grana não é porra nenhuma, é pela arte, não pelos prêmios. Pisa na high society, faz sua parte bem”.  Contrariando a ideia de que funk não é cultura.

Entretanto, no auge do lançamento de álbum, e entre as opiniões elogiosas, Emicida recebeu inúmeras críticas sobre a letra de Trepadeira, música que apresenta a história de uma mulher desprendidade de um homem só.  Rapidamente, a letra  passou a circular pela internet e além do conteúdo inteiro chamar atenção, dois versos receberam maior destaque, são eles: “Mamãe olhou e me disse: isso ai é igual trevo de 3 folhas, quer comer? come. Mas não dá sorte”; e “Merece era uma surra de espada de são jorge”.  Diante da polêmica e das acusações de machismo, Emicida aproveitou o lançamento de seu DVD para responder a essa questão com um poema escrito e recitado por ele.

http://www.youtube.com/watch?v=JsMKAvOE2x4

Se Emicida  já é do grande público ou não, essa é uma questão que varia de opiniões. A certeza aparente na carreira do rapper é que espaço significativo na música popular brasileira contemporânea ele já ganhou há muito tempo. E foi com pouco que conseguiu colocar seu nome, e sua música, em voga. Pouco não no sentido de significância, mas em quantidade e simbologia de trabalho.

Até agosto deste ano o rapper só havia lançado mixtapes e Ep’s, são eles: Pra quem já Mordeu um Cachorro por Comida, até que eu Cheguei Longe (2009); Sua Mina Ouve Meu Rep Tamém (2010); Emicídio (2010);  e Doozicabraba e a Revolução Silenciosa (2011). Todos gravados em home studio e de forma alternativa, mas com alta relevância para destacar Emicida e fazê-lo ser um dos responsáveis pelo solavanco de uma cena de rap nacional que estava inexpressiva na internet e na grande mídia.

E, quando em agosto ele finalmente lançou seu álbum de estúdio bastante aguardado, o público pode sentir a maturidade do rapper e a riqueza de detalhes ritmicos. Foi abusando de misturas instrumentais e, princialmente, de união de vozes significativas que o cantor mostrou porque demorou tanto a lançar esse trabalho. O Glorioso retorno… é o retrato atual de uma sociedade vivida pela geração de agora e que, daqui a alguns anos pode ser visto como parte da “reforma agrária da música brasileira”, como cita o próprio rapper.

Site oficial: http://www.emicida.com/

Página ofical no youtube: http://www.youtube.com/user/emicida/videos

 

 

 

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