Os limites do machismo

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[h4]Quem nunca escutou uma cantada na rua que atire a primeira pedra. [/h4]

Fiu, fiu! Gostosa! Que delícia!

(Jéssica Rebel) Pelas expressões acima, pode-se pensar que o assunto é comida, mas não. Estamos falando do machismo que sufoca e amedronta as mulheres. Ele começa naquele machismo mascarado incorporado às cantadas masculinas e termina no machismo criminoso, causador de estupro e violência doméstica.

A professora assistente do Departamento de Ciências Sociais e Filosofia do Instituto de Letras, Ciências Sociais e Educação da Unesp, Mary Pimentel Drumont, escreveu um artigo na década de 80, afirmando que “o machismo constitui um sistema de representações-dominação que utiliza o argumento do sexo, mistificando assim as relações entre os homens e as mulheres, reduzindo-os a sexos hierarquizados, divididos em pólo dominante e pólo dominado que se confirmam mutuamente numa situação de objetos”.

Com essa definição em mente, surgem as perguntas: Qual a necessidade do homem de se firmar como gênero dominante na nossa sociedade? É patológico? Psicológico? Por que precisamos, nós, mulheres, escutar cantadas todos os dias ao sair de casa? Ou pior: ter medo de respondê-las? A gente se cala, olha para baixo ou para o lado contrário, finge que não ouviu e reza para ficar somente na agressão verbal.

Diana Klippel é estudante universitária e sente o machismo influenciando até seu guarda-roupa. “Já sofri cantadas no meio da rua, e as sensações variam entre a raiva, a repulsa, a vergonha e o medo. É constrangedor, e passei muito tempo me culpando por ser abordada, pensando que minha roupa poderia estar inadequada, ou então que eu não deveria estar passando por aquele lugar. Mas com o tempo me dei conta que o erro está no homem que acha que tem o direito de infringir minha privacidade ao me dirigir uma cantada dessas. Ainda assim, muitas vezes eu deixo de usar certas roupas e ir a certos lugares por medo de ser abordada de forma mais agressiva.”, conta.

Laura Carvalho, estudante do ensino fundamental, 14 anos, também já sofre com essa situação. “Sábado, um cara passou por mim e disse ‘princesa’. Já ouvi ‘a praia está cheia de sereia’ e ‘ô lá em casa’. Apesar disso, não faço nada. Continuo andando e finjo que não ouvi, pois tenho medo de retrucar. Minha mãe sempre me disse pra ter cuidado, pois não conheço a pessoa e podem fazer algo comigo caso eu responda”, admite. Outro caso é o da Thalita Martins, também de 14 anos, que, apesar de ficar irritada com os assobios e buzinadas, desvia o rosto, fingindo que não escutou.

A psicóloga Fernanda Dias afirma que a Psicologia Social estuda o fenômeno, procurando construir hipóteses para explicar o machismo na sociedade. “O machismo é uma questão histórica e cultural que perpassa as gerações, se reproduz e de acordo com cada contexto vai tomando um formato, uma expressão. Entender o machismo é entender as relações de gênero e os papeis que homens e mulheres assumiram historicamente na sociedade e têm assumido até hoje. Essa linha histórica e cultural explica muito bem esses sentimentos de superioridade de homens e mulheres. Bem como esses comportamentos masculinos – tipo cantadas na rua. Não é possível entender a subjetividade de um ser sem a história, a educação e os meios que o vão formando”, pontua.

Fernanda não aponta certo ou errado no comportamento da sociedade, mas questiona as motivações para tal. “Não se pode dizer que é certo ou errado, bom ou ruim, porque essas questões estão para além disso. Cabe a nós refletir: O que nós – eu, você e a sociedade toda –  estamos querendo produzir com esses comportamentos?”, questiona.

Giordano Bruno, estudante universitário opina que caso o homem queira elogiar qualquer qualidade de uma mulher, há meios respeitosos para tal. “Eu não mexo com as mulheres na rua, mas se a pessoa é incrivelmente bonita e você não consegue manter isso só pra você mesmo, pelo menos fale com respeito. Ninguém vai ficar bravo de ouvir um elogio em um tom de respeito e não de “mexer por mexer”. Parar alguém só pra dizer: nossa você é muito bonita, sério. Provavelmente é algo que vai mais fazer bem a mulher do que mal. A diferença de falar: ô lá em casa. O elogio é o mesmo, se parar pra pensar, mas faz diferença a forma como é falado.”, afirma.

Do elogio ao tráfico de mulheres

A sociedade produziu durante décadas esses comportamentos numa disputa masculino x feminino, que geram certas situações desde cantadas a violência doméstica, e as coisas acabam se confundindo. O fato de o homem bancar a casa é machismo ou é o papel masculino designado historicamente pela sociedade? “A questão é que fomos fixando e tomando certos aspectos como verdades, mas de fato, papeis sociais e estereótipos são importantes, na verdade necessário para formação de uma identidade no ser humano”, conta Fernanda.

Entretanto o assunto se agrava à medida que se conversa com mulheres de diferentes lugares do Brasil, com idades distintas, mas um só medo: a violência. Samantha Fonseca, redatora publicitária, já presenciou situação de violência contra uma amiga chegou a conversar com a amiga sobre o assunto. “Em 2011, uma amiga minha namorava um cara que a agredia de vez em quando. O cara costumava beber e agredi-la em público, puxando seus cabelos, dando-lhe socos e tapas na cara. Uma vez mandei pra ela um depoimento no Orkut, falando que ela não precisava disso, que era uma mulher linda, inteligente, capaz, e que com certeza poderia largar dele. Disse a ela que estava disposta a ajudá-la, mas que ela precisava largá-lo, para evitar sofrer os mais variados tipos de agressões por aí. Ele viu o depoimento e ligou na minha casa, às nove da manhã me xingando muito, dizendo que ia me dar um tiro na cara, dentre outras coisas. Retribui alguns xingamentos, disse que ia fazer um Boletim de Ocorrência contra ele na delegacia. E fiz. O policial me atendeu e disse que por enquanto eu podia ficar tranquila, pois quem bate em mulher, bate só na mulher – porque ela deixa. Fazendo uma ressalva a respeito do tema, homem que bate, desrespeita ou agride uma mulher não tem, no mínimo, três coisas: exemplo dentro de casa – tanto de pai, como de mãe – caráter e respeito, por ninguém”, comenta.

O tráfico de mulheres, ainda hoje é presente em nossa sociedade e dissemina o status de mulher como objeto rentável e comercializável. Flavianna Freire é estudante de Direito e está escrevendo o trabalho de conclusão de curso a respeito da violência contra mulheres, tráfico humano e prostituição. “As mulheres são as maiores vítimas do tráfico de pessoas relacionado à prostituição, sendo tanto maiores de 18 anos, quanto menores. A mulher, por ser frágil ou, muitas vezes, por inocência, acaba sendo influenciada ou sequestrada e drogada para que se prostitua. Tal prática criminosa acaba sendo esquecida pela sociedade, bem como não é muito divulgada pela mídia, escondendo de todos o quão alto é o índice desta modalidade de tráfico. O que torna esse tema pertinente é justamente é a necessidade de alertar as mulheres, bem como toda a sociedade, de como evitar esse tipo de golpe, no qual tornam-se meros objetos de exploração sexual do homem. Todos têm direito a liberdade e igualdade, como assegura a Constituição Federal, mas por motivos diversos essa liberdade é tirada de muitas mulheres vítimas da exploração sexual”.

Os papeis sociais da mulher

A estudante universitária C.C. passou por duas situações de machismo e violência física, moral e psicológica e, por algum tempo, sofreu com as consequências de ambos. Ela relata detalhadamente o que viveu, em depoimentos exclusivo ao Universo Ufes.

Situação 1. Mulher de respeito fica em casa

mulher-trabalhando-2“Meu ex-namorado teve uma criação meio arcaica. Cresceu aprendendo que mulher deve cozinhar, arrumar casa e cuidar de filho. A comida tem que estar na mesa na hora certa e a casa tem que estar impecável, afinal nascemos para isso. Trabalhar foi algo que a mulher conquistou de ousada que é, mas mulher de verdade tem que estar em casa, enquanto o homem tem que trabalhar para sustentar o lar. Mulheres não podem ter amigos homens, nem usar roupas curtas ou decotadas, muito menos postar fotos em redes sociais, porque atrai a atenção dos homens e provocando elogios que não cabem a mulheres comprometidas.

Deixei de ter amigas, pois simplesmente todas eram “putas”; e quem anda com “puta”, é considerado o mesmo. Deixei de sair, pois mulher comprometida não deve sair só, é dar chance para homens chegarem, e isso não é coisa de mulher de respeito. Deixei muitas vezes de estudar por ter que passar o final de semana inteiro arrumando casa e fazendo comida. Às 9 da manhã eu acordava para fazer o almoço que pontualmente ao meio-dia tinha que estar na mesa. À tarde arrumava a casa e já emendava com o jantar, que pontualmente às seis deveria estar pronto. À noite já estava morta, mas ainda assim saia para algum lugar, porque ele estava entediado de não fazer nada o dia todo.

Eu me sentia muito mal, chorava horrores, pelo menos todos os dias, mas achava que ele estava certo, que era realmente isso que eu precisava fazer, afinal, para estar com ele, eu precisava ser submissa. Então eu simplesmente aceitava. Sentia-me um lixo. Não me sentia uma namorada na maior parte do tempo, mas para ele se eu não agisse dessa forma, seria mais uma dessas da nova geração, preguiçosa. Mas, quando a gente terminou, vi que estava completamente alienada, que nunca na vida isso era certo. Namoramos um ano e meio, mas com o desgaste do relacionamento, eu comecei a ter muita raiva, e cada coisa que eu fazia, me dava um ódio sem fim. Percebi então que isso era doentio. E ele sentiu que eu estava diferente. Começamos a brigar muito, então acabamos. Eu depositava minha felicidade nele, quando na verdade, hoje, estou muito melhor sem ele.”

 Situação 2. O inimigo mora ao lado

9ef5b7b3-846b-401d-827b-b41c5fa65c13_violenncia-contra-mulher“Eu conheço um menino da época do colégio. Assistíamos algumas aulas juntos, éramos amigos e só. Fomos para a universidade e acabamos nos encontrando nessas festas que acontecem toda sexta-feira, e ficamos. Em outra ocasião, ele me ofereceu carona para casa, achei que não teria problemas, afinal, conhecia-o há muito tempo, aceitei. No caminho, pegamos um trânsito terrível e ele desviou em um trecho alternativo. No percurso, do nada, ele entrou rapidamente em um prédio. Não entendi, mas ele disse que era a casa dele e que só deixaria as coisas lá e me levaria embora. Fomos para o térreo do prédio e ele foi me mostrar o lugar; os vários campos, os salões de festa temáticos, até que chegamos a uma área mais isolada, um banheiro onde não havia nem luz.

Ele começou a me agarrar e tentar tirar a minha roupa de todo o jeito. Eu, com os meus 48 kg na época, ele, lutador de jiu jitsu. Com uma mão ele segurou meus dois braços e com a outra fazia o que queria. Ele era muito mais forte do que eu. Chorei, implorei, disse que não queria. E ele somente repetia que eu queria sim, que estava fazendo “cu doce”. Meu vestido era todo de botão na frente e ele se aproveitou disso. Me segurou pelo cabelo para que eu pudesse ficar imóvel, perdi muito cabelo, inclusive. Percebendo minha resistência, ele resolveu me colocar dentro de uma das cabines do banheiro. Lutei para não entrar, me segurei nas paredes, na porta, mas não adiantou. Ele já estava praticamente conseguindo o que queria, mas o celular tocou. Quando ele vacilou para pegá-lo, liberou uma mão e foi nessa hora que consegui sair correndo de lá. Fui embora o mais rápido que pude. Descabelada, com a roupa toda acabada.

Não contei pra ninguém. Tive vergonha de tudo, tive raiva, medo. Não conseguia compartilhar com ninguém, nem possuía coragem suficiente para fazer algo contra ele. Tinha medo, já que estudávamos na mesma faculdade. Passei um tempo sem ir às aulas e todos os dias ele me procurava na sala. Minhas amigas contavam das suas aparições como algo positivo e eu simplesmente fingia que estava gostando da notícia, mas estava desesperada. Quando contei a história a uma amiga, ela ficou mais perdida do que eu e resolvemos deixar pra lá. Ele parou de me procurar e o caso foi “esquecido”.

Fiquei traumatizada de uma forma, que não deixava nenhum homem chegar perto de mim. Não podiam me abraçar, nem tocar, e eu recuava. Nunca fui à delegacia. Na época não fui porque achava que isso acabaria se tornando público de alguma forma e eu não queria que ninguém soubesse. Hoje agiria de outra forma, mas já se passaram três anos. Antes esse era um assunto frágil para mim, não contava de forma alguma. Agora já superei isso tudo e hoje me vejo muito mais madura. Sarou a ferida. Até a raiva passou. Me vejo uma pessoa completamente diferente hoje, que não passaria por isso tudo de novo de forma alguma”.

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