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E nem banco era, muito menos sofá…

Um bloco de concreto para uns, um sofá para outros

Um bloco de concreto para uns, um sofá para outros

(Poliana Pauli)   Era um bloco de concreto, cinza, mal iluminado, que do fundo assistia o movimento de uma das ruas mais frequentadas de Vitória, a da “lama”. Viu passar por ali pessoas de todo tipo, funcionários saídos do trabalho, universitários no caminho das aulas. Ali, histórias se fizeram.

De repente, então, em meados de 2009, alguns amigos que frequentavam a tal rua perceberam o bloco. Poderia dizer que por uma leitura sensível da arquitetura urbana, mas não. Era falta de dinheiro mesmo. Eles queriam viver a alegria da rua, mas o preço da cerveja e os 10 por cento do garçom deixavam inibidos os jovens animados.

A partir daí, a ideia então surgiu. O bloco sem graça se iluminou e virou banco, e a bebida era comprada em supermercados, mais barata, e dividida ali mesmo, com copos de plástico e gelo. Instaurou-se então um ambiente de comunhão. Alguns passavam e, entre gelo e cigarros emprestados, o grupo cresceu.

Certo dia, sem mais nem menos, ele, de cabelos negros e pele clara apareceu diferente. Havia colorido os cabelos, ou melhor, descolorido. Os fios brancos, platinados, divertiram e entre um drink e outro, ele era a Hebe, e o banco, o seu sofá. Entre “gracinhas” e “selinhos”, o tempo passou, o grupo cresceu e o canto sem graça era parte da rua. E surgia o Sofá da Hebe.

Ali se criaram amizades, começaram romances e terminaram também. Ali se comemoraram aniversários, sucessos, glórias e foram chorados fracassos. Ali houve briga, houve rompimento e houve começo. Ali houve abraços, beijos, sorrisos. Ali houve história.

O sofá ficou famoso, todos sabiam onde era e o que era. Houve até matéria de jornal, que definia o sofá, aquele da Hebe, como ponto de venda de drogas. E quase ninguém sabe o porquê do nome. Não, não é mais o Sofá da Hebe.

Aquele grupo cresceu, passou a frequentar os bares e já conseguia pagar os 10 por cento do garçom. Ainda aparece lá de vez em quando, mas a visita é rápida e a empolgação já não é a mesma. E a Hebe? A Hebe não é mais loira, os selinhos e as gracinhas não estão mais lá. Mas o amor cultivado naquele banco sem graça, esse sim permaneceu, assim como as histórias vividas ali, que na imaginação de alguns já foi um acolchoado e glamuroso sofá.

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Comentários 1 Comment

  1. Emilly Horta 12 de novembro de 2013 at 11:51 — Reply

    Da para sentir emoção nas suas palavras. Emoção de quem viveu o sofá!!!
    Obrigada por trazer de volta as lembranças de uma das melhores fases da minha vida.
    Descobri o amor neste sofá, ele estava sentado lá. Foi nestas almofadas que abri meu coração para amar novamente.

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