Share Button

“A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um sabiá mas não pode medir seus encantos.Quem acumula muita informação perde o condão de adivinhar: divinare. Os sabiás divinam.[…] Sábio é o que adivinha”.

Manoel de Barros, Livro Sobre Nada.

(Vinícius Rocha) Na noite de 21 de outubro, a presidente Dilma Roussef pronunciou em rede nacional, em defesa do assim chamado “consórcio”, consolidado no leilão do Campo de Libra naquela mesma data, para produção das riquezas do pré-sal. Segundo a presidente, “estamos transformando o pré-sal num passaporte futuro para uma sociedade mais justa e com melhor distribuição de renda”.

Além da geração de empregos e outros avanços sociais, Dilma ressaltou a importância (centenas de bilhões de reais nos próximos 35 anos!) a ser investida em educação: “Começamos a transformar uma riqueza finita, que é o petróleo, em um tesouro indestrutível que é a educação de alta qualidade”.

Mas o que há de ser uma educação de alta qualidade? Não resta dúvida que é o oposto da nossa. O sistema educacional brasileiro, salvo raríssimas exceções, deixa a desejar em todos os aspectos possíveis. Então, como transformá-lo num verdadeiro tesouro indestrutível?

Não resta dúvida que há de haver uma sintonia de esforços e fatores que interajam mutuamente: políticos, famílias, professores, escolas, universidades, têm que compreender que uma educação de alta qualidade deve, acima de tudo, envolver a perspectiva do educando. Escola no Brasil é chato por demais! As crianças, adolescentes e jovens, são cobrados, testados, avaliados o tempo todo. E praticamente não têm voz, não têm direito de escolha. A criatividade é castrada na reprodução de um saber sem sabor.

O pedagogo, poeta, cronista, ensaísta, contador de histórias, teólogo e psicanalista, Rubem Alves, sugere no livro Variações Sobre o Prazer a “erótica da educação” e a “educação da erótica”: segundo ele, “educar deve ser uma fonte de prazeres (…), nossos sentidos, órgãos do prazer, estão em estado de impotência, não se deixam excitar. É preciso acordá-los para que haja mais prazer”. Noutra obra, Ostra Feliz Não Faz Pérola, o educador desabafa: “quer ensinar um jovem a odiar literatura? Dê-lhe, como dever, fazer fichamentos de obras clássicas. A tarefa de fichar o livro desvia o aluno do único objetivo da leitura que é o prazer. (…). Em vez do fichamento, peça que o aluno fale das idéias dele, aluno, que aquele livro o fez pensar”.

Há, por incrível que pareça, um país onde este tipo de Educação – em que o aluno tem voz – é universal, gratuita e 100% estatal. Nesse país, nenhuma criança é reprovada. Não há vestibular. Os estudantes são raramente avaliados, testados, cobrados. Nesse país, as crianças iniciam mais tarde na escola. Elas passam menos tempo na escola, desfrutam de um maior período de férias, e quase não têm dever de casa. Os adolescentes escolhem a duração e a carga horária de seus cursos. Esse país é a Finlândia e, por incrível que pareça, se encontra no topo de todos os rankings educacionais do mundo há alguns bons anos.

Nesse país, por incrível que pareça, as escolas recebem fundos modestos e desenvolvem seus próprios currículos e planos de estudo. Esteiam a investigação crítica e adotam tecnologias de vanguarda. Os professores são profissionais respeitados, não lhes faltam oportunidades de emprego, recebem condições de trabalho e salários decentes, comparáveis aos de altos cargos políticos. O link abaixo é um documentário feito por professores da Universidade de Harvard, sobre o sistema educacional finlandês, considerado – com muitos méritos! – o melhor do mundo.

Evidentemente, há diferenças abissais entre Finlândia e Brasil, em vários aspectos. Mas a Finlândia encontrou um caminho para o cobiçado tesouro indestrutível. Foi, é, será sempre um caminho pedregoso a percorrer. Como cantarolou o sábio sabiá Zé Geraldo, “catedráticos voltaram pra escola para reformular os compêndios de vida; matemáticos buscaram fórmulas pra calcular a alegria incontida”. Temos muito que aprender com os finlandeses. E com o Zé, é claro.

Há outros belos exemplos. Dois deles podem ser encontrados em Seatle (EUA) e Bali (Indonésia)  o caso da Finlândia é particular porque ocorre em nível de nação – de como a educação pode ser a prática da liberdade, como recomendou Paulo Freire. Onde o professor faz papel de provocador, como sugeriu Rubem Alves e, antes dele, Roland Barthes. E, antes ainda, Sócrates.

Nessas escolas, há interdisciplinaridade. Há arte. Há fertilidade. Aprende-se por música. Não por dever, mas por prazer. O conhecimento não é concebido como algo acabado, pronto, mas como algo a ser desenvolvido. Os alunos são instigados a exercer não somente a racionalidade instrumental como também a busca intuitiva pelo sabor do saber. Os alunos são livres como passarinhos sem gaiola. Aprendem a voar como Fernão Capelo.

Há tantos caminhos para o tesouro e todos eles passam necessariamente pela cumplicidade entre educador (professores, famílias, meios de comunicação, políticos) e educando (crianças, adolescentes, jovens). E que o papel deles se enredem na escola da vida, pois, como bem disse Friedrich Nietzsche, “também se torna aluno sendo professor”.

Há tantos caminhos para o tesouro. Há também tantas pedras no caminho. Resta ao Brasil encontrar o seu, e tirar de letra as pedras do caminho. Os recursos já estão prometidos. Mas não adianta só investir. Há que se refletir. Há de haver uma sintonia de esforços e fatores que interajam mutuamente: políticos, famílias, professores, escolas, universidades, alunos, em busca da “beleza de ser eterno aprendiz”.

Há de haver uma reforma na forma de fazer educação no país. E essa reforma depende de uma reforma na forma de fazer política no país. Na forma de se viver politicamente. Urgente! Antes que centenas de bilhões de reais se percam em projetos desastrosos, obras superfaturadas e desvios de verba pública.

 

Share Button

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *