Apressadinhos

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(Vinícius Rocha) Manhã chuviscosa e fria de sexta-feira. Uma pobre senhora se aproxima da faixa de pedestres para atravessar a rua. Ela não tem guarda-chuva. Anseia alcançar abrigo antes de encharcar-se. Os carros a ignoram apressados. Ela, apressada como quem foge de chuva e de encharcar-se, sabia que não podia ignorar os carros apressados.

(Era daquelas travessias com fundo vermelho, as quais, segundo a lei, obrigam os carros a dar preferência aos pedestres. Mas os carros estão tão apressados que ignoram a lei. E a lei anda tão apressada em proteger certos interesses que acaba por ignorar os carros apressados que ignoram a lei).

Até que um ônibus, em direção ao ponto situado poucos metros além da pobre senhora sem guarda-chuva, aponta no contorno da pracinha. O condutor a vê, diminui a velocidade e, apressado, pega a pista da direita e… dá um banho de poça d’água na pobre senhora sem guarda-chuva, encostando próximo ao ponto para pegar os passageiros que entram apressados na condução.

Os transeuntes, com ou sem guarda-chuva, olham estarrecidos e, lamentando pela pobre senhora encharcada, seguem apressados seus caminhos. A pobre senhora sem guarda-chuva já não tinha mais pressa. Nem já era mais pobre. Nem sem guarda-chuva.

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