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Além dos manifestantes, jornalistas da imprensa capixaba também sofreram com a violência da polícia durante as manifestações de junho

Fábio Andrade, Leonardo Ribeiro e Leone Oliveira – As manifestações que reuniram multidões pelo país com uma lista de reivindicações chegaram ao Espírito Santo em 17 de junho. Cerca de 20 mil manifestantes atravessaram a Reta da Penha e a Terceira Ponte a caminho da casa do governador do estado Renato Casagrande. Os manifestantes queriam ser ouvidos pelo governador, mas a recepção se deu pela polícia. A manifestação seguiu pacífica desde a concentração, na Ufes, até a rua na casa do governador, no bairro Praia da Costa, Vila Velha, onde manifestantes e policias entraram em confronto.

Rodrigo Gavini é fotojornalista e estava cobrindo a manifestação. Enquanto fotografava, Rodrigo acabou sendo atingido por bala de borracha, bomba de efeito moral e spray de pimenta. O fotógrafo está na lista de membros da imprensa que, além dos manifestantes, sofrem com a ação violenta da polícia. “O spray de pimenta foi jogado para todos e, como eu estava na linha de frente, acabei tomando. Mas a bomba de efeito moral e a bala de borracha foram disparadas diretamente para mim”, ele garante.

O fotógrafo conta que durante o confronto estavam cinco fotógrafos e que, embora com um tiro de bala de borracha na canela, ele continuou trabalhando. “O fotógrafo tenta tirar a melhor foto, como melhor ângulo. Se, no meio da correria, eu tomo um tiro, só vou sentir e ver o ferimento depois”, explica. Para Rodrigo, as manifestações estão cada vez mais violentas. No protesto que aconteceu no dia 20 de junho, Rodrigo conta que viu a maior truculência da polícia em manifestações do estado. Nesta, o fotógrafo foi agredido também por pessoas que estavam na manifestação. “Levei socos e chutes de algumas pessoas, quando perceberam que eu sou da imprensa”, lembra. “Mas, alguns manifestantes me ajudaram, impedindo que as agressões continuassem”.

Jornalista há 10 anos, Gilberto Medeiros já cobriu manifestações de trabalhadores rurais, de índios, quilombolas, mas essa experiência não o salvou da violência nas manifestações de 17 de junho, onde, como Gavini, também estava trabalhando. Durante o confronto, foi atingido no rosto por gás de pimenta. “Só que a violência não aconteceu apenas contra a os jornalistas. A polícia também exagerou com os manifestantes, pois logo após alvejar a imprensa, começou o tiroteio com balas de borracha e bombas de gás”, argumenta.

Durante o protesto, Gilberto acompanhou toda movimentação para anotar e escrever sua matéria, mas sempre se escondendo atrás de postes, lixeiras e carros. Enquanto isso, ele ainda estava publicando em sua conta no Twitter a sua cobertura, descrevendo a situação ao vivo. Em suma, Gilberto afirma que não foi só ele o lesado pelo que aconteceu na rua do governador. “O desfecho foi fisicamente trágico para os estudantes e politicamente trágico para Casagrande”.

Francine Spinassé também é repórter e há 5 anos cobre o cotidiano capixaba. Na passeata que aconteceu dia 20 de junho e reuniu mais de 100 mil pessoas na capital, a jornalista também foi alvo atingido da violência policial. Quando os manifestantes estavam espalhados entre a praça do pedágio da Terceira Ponte e o Tribunal de Justiça (TJ-ES), os policiais se irritaram com a presença dos jornalista e atiraram contra eles, em grupo de 10, e isolados da manifestação.

Além de bomba de efeito moral e gás lacrimogênio, Fancine foi atingida por um tiro de bala de borracha no topo da cabeça. “Não sangrou muito, mas todo o meu rosto doeu”, recorda. Francine foi para o hospital, depois voltou à redação para terminar seu texto. “Quando se é repórter, ainda que identificado como tal, tem o mesmo risco de qualquer um que está na manifestação”, ela sentencia.

Depois disso, Francine fica distante do foco do confronto. Ela ainda diz que alguns jornalistas não usam crachás de identificação da imprensa perto dos manifestantes, para evitar algum tipo de violência vinda deles. No entanto, os crachás ficam expostos quando estão perto da polícia, para evitar que a violência parta dos policiais. O fotógrafo Rodrigo afirma que usa capacete e máscara para conter gás lacrimogênio e de pimenta e balas de borracha. Já Gilberto afirma que a família fica muito preocupada quando ele vai trabalhar em alguma manifestação. “Na manifestação de 17 de junho, meu filho adolescente me mandou “se cuida rapaz” pelo celular e ficou tão indignado que passou a ir às outras manifestações que se seguiram.”

“As cenas de violência policial que vimos aqui e em outros estados, como em São Paulo, nos faz lembrar o período da ditadura militar”

Marília Poletti, presidente do Sindijornalistas ES, fala sobre a ação da polícia nas manifestações

Qual a importância da cobertura jornalística dos protestos para a população?

Resumidamente, sem cobertura jornalista as informações não chegam até aqueles que por algum motivo não participam do acontecimento. E o jornalista tem a responsabilidade de relatar aquilo que está vendo, a verdade. No caso das manifestações, a violência policial foi mostrada.

Qual a posição do Sindicato dos Jornalistas sobre o comportamento da polícia nas manifestações recentes?

De total repúdio. O uso da força policial contra jornalistas, no exercício da profissão, e contra qualquer cidadão é abominável. A polícia tem de estar preparada para agir de forma inteligente e não com truculência. Nenhum ato de violência se justifica.

Como o sindicato ficou sabendo das agressões a jornalistas? Foram eles próprios que procuraram o sindicato para relatar as agressões?

Os próprios jornalistas agredidos e os colegas que presenciaram a violência. Fizemos duas reuniões para discutir a violência contra jornalistas nas manifestações e muitos deles compareceram. Algumas ações para denunciar a violência policial e garantir a segurança dos profissionais e manifestantes na cobertura dos protestos, foram tiradas nesses encontros.

O que essa violência policial afeta nos direitos da imprensa?

É um ataque não só à liberdade de imprensa, mas à liberdade de expressão de todo o cidadão. Não é exagero dizer que as cenas de violência do aparato policial que vimos aqui e em outros estados, a exemplo de São Paulo, nos faz lembrar o período da ditadura militar, quando o povo era impedido de se manifestar e a imprensa sofria o peso da censura.

O Sindicato e os Jornalistas estão movendo alguma ação judicial a respeito disso?

A decisão da Federação Nacional dos Jornalistas e dos sindicatos, além de denunciarem as agressões aos organismos internacionais da categoria e entidades de direitos humanos é entrar com ações contra o aparato de Segurança do Estado.

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