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Por que os manifestantes estão sempre com os rostos encobertos?

Rhayan Lemes – As manifestações recentes surgem nas redes sociais e a cobertura é acompanhada e detalhada por mídias alternativas, também através da internet. Apesar dessas fontes de informação oferecerem até mesmo uma cobertura em tempo real dos fatos – sem cortes ou edições -, com a intenção de dar transparência aos acontecimentos,  nota-se que esses veículos e as pessoas que os operam envolvem um anonimato nesse processo.

A Mídia Ninja (Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação), por exemplo, usa no avatar de sua página no Facebook uma foto em que só é possível ver os olhos de alguém. No Espírito Santo, a cobertura dos protestos foi feita por páginas como “Não é por 20 centavos, é por direitos ES”, “ProtestoGV” e “Moqueca Mídia”. Esta última se dedicava também a transmitir ao vivo as movimentações.

Fica perceptível nessas coberturas e páginas – onde são feitas críticas à atuação da polícia e do governo – que os administradores fazem de tudo para não ser identificados. Nas ruas, apetrechos como camisas ou blusas de frio viram máscaras que também impedem a identificação daqueles que lutam por alguma causa.

Henrique Antoun é professor da UFRJ

Henrique Antoun é professor da UFRJ

O professor pós-doutor, pesquisador e coordenador do Cibercult (Laboratório de Comunicação Distribuída e Transformação Política na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro), Henrique Antoun, dá as pistas dos motivos. Segundo ele, a busca por identificação é uma necessidade da imprensa e do governo para apontar possíveis líderes. Antoun também faz duras críticas ao papel atual dos agentes da advocacia e da polícia contra movimentos sociais. Confira os principais trechos da entrevista que ele deu ao Universo Ufes.

 

Anonimato

Além do descontrole que a polícia tem em relação à agenda da sociedade, que parece obedecer ordens que não se pode identificar com clareza de onde vem, remete à questão da repressão social e do espaço ocupado pela polícia nessa repressão, com grupos e ordens nem sempre claras e transparentes, e que balizam seu tipo de atuação. Há também o problema dos novos tipos de organização.”

Polícia

Num primeiro caso, você não se identifica por prudência. Você não quer aparecer sumido ou morto inexplicavelmente, lidando com o modo como as PMs atuam nos Estados, com suas formas pouco transparentes de se movimentarem.

O caso atual do Amarildo pode ilustrar esse tipo de possibilidade inexplicável. Ninguém sabe explicar, mas tem história fantasiosa para contar. O sujeito foi levado por um carro da PM e sumiu. Misteriosamente, todas as câmeras pararam de funcionar. É história de mistério. Mistério pouco misterioso. Segredo de polichinelo. Só é segredo nominalmente. Todo mundo sabe do que se trata, o que acontece; mas é um segredo porque formalmente nada pode ser apresentado. É um terreno de obscuridade.

Essas relações entre Estado e polícia justificam, em larga medida, o temor quando se trata do movimento social e da ação coletiva. As sanções que aparecem  não são claras e democráticas, são obscuras, opacas, impenetráveis.”

Criminalização

As lutas dos anos 70 foram liquidadas através da perseguição daqueles que eram identificados como líderes do movimento. Pouco importa a área que estiver ou os meios usados para alcançar. Geralmente são meios de violência.

No início dos anos 80, um dos cabeças do Partido dos  Panteras Negras (Partido negro revolucionário estadunidense, fundado em 1966), por exemplo, Mumia Abu-Jamal, namorado de Angela Davis, foi acusado de matar um policial, embora não tivesse provas concretas para isso. A pistola encontrada com ele era 32 e a que matou o policial 38. A Justiça ignorou a discrepância.

John Lennon enfrentou um processo de extradição nos EUA pelo governo Nixon, em função de sua ascensão política. Ele também apoiava os Panteras Negras.

Antonio Negri, na Itália, foi considerado um perigoso cabeça do terrorismo italiano, influenciador do pensamento da esquerda, foi preso. Conseguiu provar sua inocência, mesmo assim foi condenado.

Os movimentos comunitários eram identificados. Figuras tidas como centro de lideranças eram violentamente perseguidas e se tornavam alvos.”

Sem líder

A partir dos anos 80, com as ONGs e os movimentos políticos radicais e, ao longo dos anos 90, vai haver uma transformação no modo organizacional como os movimentos se orientam. A habilidade de organização que a rede possibilita vai criar movimentos sem líder, como o MPL (Movimento Passe Livre). Não é necessário uma liderança carismática para que o movimento se conduza.”

Identificação

A imprensa quer identificar porque vive do jogo da difamação. O jogo não funciona se ela fica atribuindo algo a uma sigla ou a um misterioso grupo. É o poder de coerção. É o jogo da atribuição. Fulano fez, não fez, é assim, é assado.

Se você não tem Zé Dirceu como chefe de quadrilha (caso mensalão)… A imprensa precisa ter essas figuras, identificar a todos. Se são identificados, se tornam processáveis. Pode entrar com ações na Justiça contra eles.”

Destruição

A advocacia era ligada a liberdades individuais, através de agentes, procuradores. O advogado vinha para defender. Era o homem que estava ligado à questão civil. Hoje, o advogado é alguém que longe de ser agente de defesa é poder de destruição, dos poderes institucionais e dos poderes de governo para tentar promover a destruição individual. Os governos se tornam destruição porque o Estado não gosta de ser pego de calças curtas.

Veja, por exemplo, os casos de Bradley Manning (soldado americano que vazou cerca de 700.000 documentos secretos para o WikiLeaks), Assange (mentor do WikiLeaks) e do Snowden agora. Eles vazam. É um poder de exposição. Eles simplesmente deixam vazar um fato que as instituições querem encobrir, esconder, mentir para todas as populações. Eles deixam vazar. Daí, aparecem as agendas secretas.
Não é um poder como a imprensa se tornou em termos dos anos 70 e 80. Poder editorial. Trata de simplesmente o poder de um fato, poder imputador. A multiplicação das vozes.
Mas, identificando esses agentes, é possível começar a promover ação e processo que dificilmente vai ser barrado.”

Mídia

No poder de editorial, o fato é o que menos importa. O poder da mídia atual é um poder factual. Poder de montagem editorial.  Nisso, a Mídia Ninja é extremamente frágil. Na hora que ela transmite ininterruptamente uma manifestação, a polícia vem com ação orquestrada e ela pode reagir, porque ela tem imagens. E se ela só tivesse material editado?

As ações para tentar criminalizar o movimento são todas cabalmente desmentidas pelo documental. Essa é a grande força, a publicação do que não querem que se torne público. Vaza os documentos, vaza as imagens e cada um faz a sua montagem.

O poder da imprensa é um poder de estabelecer fatos e cada um tira a conclusão que quiser. Quando honesto e baseado em fatos tem poder para fazer acusações. Sem fato, é um poder puro e simplesmente de coerção.

Se não tenho fatos, mas posso ficar insultando ancorado por advogados, meu poder é um poder repressivo.”

Coletivo

O anonimato, por um lado, é o risco de ser identificado, em função de uma atribuição: líder, mentor. Por outro, as organizações hoje, seja na empresa ou no Estado, ou nas civis, não precisam de lideranças carismáticas para levarem suas ações adiante. Elas já conseguem pelo uso da rede e do computador tornar a gestão transparente e não hierárquica. O que quebra a possibilidade de uma autoria exclusiva. Ou acusa o coletivo todo ou eu não tenho o que acusar. Mas acusar o coletivo é acusar um movimento social. É fazer uma acusação esvaziada. Nem todos são revolucionários, mas a maioria sabe que o movimento funciona. E por isso são alvos do ódio dos advogados e imprensa.

(As manifestações) tornaram-se coletivas e capazes de uma gestão independente de poderes centralizados. Os coletivos e as relações desses coletivos remetem à possibilidade de uma gestão do computador e da rede de computadores que é chamada de organização sem líder, grupo móvel e multifuncional.

Grupo não precisa de lideranças fortes e caracterizadas para poder se movimentar. Isso anda em paralelo numa sociedade onde a mídia e a advocacia se tornaram poder de difamação dos indivíduos.”

Protestos

A cidade tem que poder circular. Ir de Vitória a Vila Velha e ter um pedágio cobrado nos dois sentidos da ponte onera a população. É criminoso, absurdo, escroto.”

Desmoralização

Alguns perfis falsos são criados para tirar a credibilidade dos protestos. O poder midiático na rede serve para qualquer um. Não tem senhores exclusivos. A rede é aberta. Mas é triste quando você vê gente que faz isso ou que teve luta social e hoje está agindo como idiota e se achando espertalhão.”

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