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Rodoviárias, aeroportos, praças, ruas, hospitais. Esses não são lugares, mas sim não-lugares, um conceito que define os espaços de convívio social raso, sem memórias, sem significados. Uma visão que, vale lembrar, é relativa. Não-lugares para uns, podem ser lugares para outros.

Por Any Cometti e Viviane Machado- O não-lugar, conceito do etnólogo francês Marc Augé, define todos os espaços de passagem, nos quais as pessoas que por ali transitam não lhes atribuem vínculo de identidade e significação. Esses lugares são definidos pelo excesso de informação, característica que lhe é conferida pela supermodernidade.

Os não-lugares são o oposto da casa, do trabalho, dos lugares corriqueiros aos quais são atribuídos significados e onde são construídas memórias. Não-lugares são aeroportos, rodoviárias, supermercados, hotéis e, até mesmo, as ruas por onde grande parcela da população passa, todos os dias, sem vivenciar o espaço.

Especial: Não-lugares
Onde não existe memória
Partida e chegada por terra
Um lugar para não chamar de seu

“Para Marc Augé, esse não-lugar é o lugar público, um lugar onde você é guiado por palavras (pare, proibido, esquerda, direita), o qual não se consegue estabelecer uma identidade, transformar em um habitar”, detalha Sonia Missagia, professora do departamento de Ciências Sociais da Ufes.

Segundo Missagia, o conceito de não-lugar dialoga com o conceito de Flâneur, do teórico francês Charles Baudelaire. A professora detalha que o Flâneur é o personagem transitório, que apenas passa pelos lugares sem lhes atribuir significação. Não à toa, temos a criação do verbo flanar por João do Rio, no livro A alma encantadora das ruas, em que este detalha sua experiência ao caminhar pelas ruas do Rio de Janeiro. Flanar é andar sem compromisso, mas com inteligência, observando ao redor.

Roberto DaMatta, antropólogo brasileiro, em seu livro intitulado A Casa e a Rua, afirma que os conceitos de tempo de espaço são construídos pela “sociedade dos homens” concomitantemente à construção das dimensões em que os indivíduos se inserem. “O lugar emite significado e também recebe o significado que as pessoas emitem. Elas se identificam com o lugar a partir desse processo de busca de significação”, detalha Missagia.

Para DaMatta, cada sociedade tem suas concepções de temporalidade e espaço, o que depende que hajam situações opostas (boas e ruins, felizes e tristes) para a construção de diferentes memórias.

O antropólogo também define que o comportamento das pessoas muda conforme o local em que esta está inserida. Por exemplo, a oposição entre a casa e a rua, desde a opinião que o morador expressa diante de seus filhos e cônjuge, e a que exprime quando está sozinho, individualizado na rua; até a roupa que usa para frequentar esses diferentes lugares. Em toda sociedade, há espaços “eternos e transitórios, legais e mágicos, individualizados e coletivos”.

Na cultura romana, há o conceito de Genius loci, que seria o “espírito do lugar”, um gênio que atribui significação aos lugares e os comunica às pessoas. Missagia explica que os lugares têm significações diferentes para os diferentes indivíduos que o frequentam; assim, um não-lugar para ela pode ser um lugar para seu aluno, e vice-versa. “Questiono a existência dos não-lugares como padrão. Essas concepções variam muito com a concepção da sociedade das cidades e dos lugares. Você pode ter um conceito de não-lugar socialmente criado e pode ter um que você muda”.

 

Um lugar para não chamar de seu

 

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