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Índice de desenvolvimento humano de Vitória é superior à média do país em quase todos os critérios analisados, mas os municípios da Grande Vitória ainda seguem a passos mais lentos, e estão longe de acompanhar a capital

Raquel Henrique Pode até não parecer à primeira vista, mas o Brasil avançou muito nos últimos vinte anos. Os dados aferidos pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD, mostram que, de 1991 até 2010, saltamos de 85,8% para 0,6% em número de municípios localizados na faixa de muito baixo desenvolvimento humano. Paralelamente, cresceu significativamente o número de municípios com índices de alto e médio desenvolvimento humano, passando de 0% para 33,9% na faixa alto, e de 0,8% para 40,1% na faixa médio.

O Índice de Desenvolvi­mento Humano Municipal (IDHM) mede três dimensões do desenvolvimento hu­mano: longevidade, educação e renda. Os valores variam de 0 a 1, e quanto mais próximo de 1, maior o desenvolvimento. O IDHM do Brasil cresceu 47,5% em uma década, saindo da categoria Muito Baixo (com 0,493) em 1991, para o Alto Desenvolvimento Humano (0,727) em 2010.

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A Educação foi área onde mais avançamos nesses 20 anos, saindo da taxa de 0,279 para 0,637. Apesar do salto, continuamos na categoria médio desenvolvimento nesse quesito. Já quanto à longevidade, estamos na faixa de Muito Alto Desenvolvimento Humano, com um ganho de vida de 64,7 anos para 73,9 anos. E na categoria renda, crescemos 14,2%, com o aumento da renda per capita de R$ 447,56 para R$ 793,87.

A visualização dos mapas mostra como a desigualdade continua grande, e o quanto dista o norte e nordeste do país (que não possuem nenhum município com IDHM Muito Alto), das regiões do centro-sul (com nenhum município na faixa IDHM Muito Baixo). Não é à toa que os Estados com pior desempenho no índice são Alagoas (0,631) e Maranhão (0,639), e os que tem melhor colocação são Distrito Federal (0,824), São Paulo (0,783) e Santa Catarina (0,774).

O economista Celso Sessa, coordenador e professor do curso de Economia da Ufes, aponta que esses dados sinalizam melhoras sim, mas é importante perceber que continuamos com um imenso hiato entre as regiões norte e nordeste e o restante do país, como os números também mostram.

Em todas as três grandes áreas da pesquisa (renda, educação e longevidade), Vitória apresenta índices superiores à média nacional. E um detalhe se destaca aí: se comparados os dados da capital com os dos outros municípios da Grande Vitória (Vila Velha, Serra, Cariacica e Viana), vemos que a desigualdade também é significativa por aqui, sobretudo quando se trata de Viana.

Só para exemplificar o distanciamento, a renda per capita de Vitória é de R$ 1.866,58, contra R$ 523,61, em Viana, que se aproxima mais da média nacional, de R$ 793,87. Vitória tem mais que o dobro do país, e mais que o triplo da vizinha. Com Serra e Cariacica, a situação não é muito diferente. A renda per capita da capital é mais que o dobro da Serra, que tem R$ 705,89, e o triplo de Cariacica, com R$ 620,89. E nem mesmo os grandes centros urbanos mais expressivos no cenário nacional superam a marca capixaba, que bate Rio de Janeiro (R$ 1492,63), São Paulo (R$ 1516,21) e Brasília (R$ 1715,11).

O professor Celso explica que Vitória tem uma concentração relativamente baixa de pessoas de baixa renda, e um grupo grande de pessoas com renda alta. O fato de ser capital provoca a concentração da administração pública e seus funcionários. A sede dos escritórios das principais empresas que atuam no Estado também estão aqui e pagam salários altos para os seus executivos, o que pesa para que a renda da população seja maior. Os profissionais liberais que atendem em Vitória (especialmente a classe médica, que é grande por aqui, além de advogados e contadores) também residem no município e levantam a per capita do local.

O tamanho da cidade é outro fator que pesa nessas horas. Apesar de Rio e São Paulo movimentarem muito mais dinheiro que Vitória, o número de habitantes chega a ser mais de 30 vezes maior na capital paulista, por exemplo. E isso inclui moradores de renda alta; mas muitos, muitos deles são de renda baixa – o que acaba forçando a renda per capita para baixo nesses locais.

No meio do caminho, uma ilha…

O Espírito Santo é o estado mais ao norte do litoral brasileiro com resultados satisfatórios. A capital, na verdade, tem números muito superiores a média do país, em partes pelas razões já apontadas. Mas, mesmo aqui entre nós, a diferença na renda se mostra grande quando analisamos os valores estratificados.

Por exemplo, a renda per capita média do quinto mais rico da população da capital é de R$ 5.926,96, uma das maiores do país. Nessa mesma medição, a renda dos 20% mais ricos dos vizinhos Serra, Cariacica e Viana não chega a renda per capita média de Vitória, que é de R$ 1.866,58. Já o quinto mais pobre da população, parece ser mais remediado na Grande Vitória que no restante do país. Por aqui, a per capita desse grupo é R$ 223,47, contra ínfimos R$ 95,73 que encontramos Brasil a fora. E quem mais se aproxima de Vitória é Vila Velha, com a renda per capita de R$ 1.211,79, puxada pela região da Praia da Costa e vizinhança. O valor equivale ao dobro de Cariacica e Viana.

Mais uma vez, o professor Celso explica que nossa população de baixa renda está no entorno de Vitória. Viana é o caso mais sério, já que boa parte do município está em zona rural, e não há atividade econômica relevante por lá. Costumeiramente, a população que melhora em renda e nível de formação no município migra para Vitória, e passa a ser contada nos índices daqui. Segundo Celso, Serra e Vila Velha ainda conseguem realizar uma dinâmica local que consegue fixar a população que melhora as condições de vida por lá. E o professor alerta para o fato que “sem política de desenvolvimento local forte, a tendência é aumentar o abismo entre os municípios”.

Educação e expectativa de vida

Saindo de renda para o indicador educação, na Grande Vitória só o IDHM de Viana (0,589) está abaixo da média nacional, que é de 0,637. A capital se mantém na liderança, com 0,805. No item “percentual de pessoas com 25 anos ou mais com ensino fundamental completo”, novamente Viana e Cariacica apresentam os piores índices, com, respectivamente, 40,89% e 49,63% da população com esse grau de escolaridade. Perceba que nem metade da população adulta tem ensino fundamental completo. Em Vitória, só para efeito de comparação, são 76,83%, e no Brasil (resguardadas as diferenças regionais já citadas) a média é 50,75%.

Quando se trata de ensino médio e superior, o hiato se amplia. Enquanto Vitória tem 64,8% da população maior de 25 anos com ensino médio completo, e 31,86% com ensino superior, Viana tem apenas 23,21% da população com ensino médio completo, e 3,44% com ensino superior. Cariacica tem 32,11% com ensino médio contra 6,16% com superior. A Serra também tem apenas 7,52% com ensino superior, e, mais uma vez, é Vila Velha quem mais se aproxima da capital, com 18,49% de seus habitantes com ensino superior completo.

Para o cientista político Mauro Petersem, professor do Departamento de Ciências Sociais da Ufes, esse quadro reproduz o padrão colonial da economia capixaba. As famílias que queriam que os filhos estudassem os enviavam para a capital, e as demais regiões desenvolviam atividades que não demandavam mão-de-obra qualificada. O Espírito Santo só começou a mudar esse perfil nas décadas de 60 e 70 com o processo de industrialização. Por conta disso, a rede de ensino – sobretudo a pública – se desenvolveu tardia e lentamente. Como no padrão colonial, a capital tende a concentrar o capital educacional e cultural.

E se as coisas não vão muito bem nos critérios renda e educação para os municípios do entorno da Ilha, no quesito longevidade parece não fazer muita diferença viver aqui ou acolá. Vitória continua ligeiramente à frente, com 76,28 anos, mas mesmo a taxa mais baixa entre nós, a de Viana, é igual à média nacional, de 73,94 anos. Parece que o que é fundamental para melhorar a qualidade de vida, educação e renda, não afeta diretamente a idade da morte.

Mauro acredita que isso se deve ao fato da expectativa de vida ser mais sensível à mortalidade infantil que a outros índices, como homicídios, por exemplo. Como a questão da mortalidade foi relativamente resolvida com uma política de vacinação universalizada, o índice acaba ficando limitado em precisão, por não considerar o peso das mortes por violência nos locais aferidos.

Legado Histórico

Para o Diretor de Estudos e Pesquisas do Instituto Jones dos Santos Neves, Pablo Lira, toda essa diferença percebida hoje entre a capital e os demais municípios da Grande Vitória é consequência de um processo histórico de desenvolvimento urbano que ocorreu no Espírito Santo, que privilegiou a urbanização da capital em detrimento do interior.

Ele explicou que com a política da erradicação dos cafezais nas décadas de 1950 e 1960, afluíram para cá grande número de moradores do interior do Estado em busca de atrativos econômicos que estavam surgindo com o processo de industrialização. Eles passaram a povoar as regiões de manguezal, da grande são Pedro e os morros da capital. Numa cidade com limitação de espaço, por questões geográficas, quem foi chegando depois passou a ocupar os municípios em volta – razão pela qual, hoje só a Grande Vitória possui 48% da população de todo o Estado do Espírito Santo.

Nesse cenário, Vitória conseguiu se manter com altos padrões de renda, porque a arrecadação advinda das indústrias aqui implantadas e do setor de serviços – além dos portos e da administração pública estadual e poder público federal aqui instalados – foi capaz de atender às demandas básicas de infra-estrutura.

O mesmo não aconteceu nos demais municípios, onde a arrecadação é consideravelmente mais baixa, e há problemas estruturais que ainda são reflexos de um planejamento urbano não adequado desde a década de 70. A geração de empregos, acesso à habitação e setores como educação e saúde não atenderam às demandas da urbanização nesses municípios.

Apesar disso, Pablo acredita que embora ainda tenhamos uma distribuição de renda muito desigual, estamos caminhando para uma melhora nesse sentido. E cita um dado do PNAD (Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar), do IBGE, que aponta que o coeficiente de GINI, que mede o grau de concentração de riqueza, caiu na última década no ES. Em 2001, estávamos com 0,587 e em 2011 caímos para 0,489. Quanto mais próximo de 1, maior o grau de concentração; e, portanto, segundo a pesquisa, diminuiu a concentração de renda no Estado. Em 2011, o GINI do Espírito Santo esteve abaixo do índice do sudeste, que é de 0,493, e do Brasil, que é 0,522.

O diretor conclui dizendo que acredita que “a tendência do IDHM para 2020 é que os municípios da região metropolitana devem melhorar com uma velocidade maior que Vitória, que tende a se manter equilibrada”. E acrescenta que isso se deve às “políticas públicas que contribuíram para desconcentração de renda – políticas federais e estaduais de inclusão social e transferência de renda”, somada à geração de empregos, que abriu 65 mil novos postos de trabalho com carteira assinada entre 2011 e 2012, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego. Otimista, Pablo acredita que daqui a uma década teremos melhoras nos indicadores para mostrar. O povo capixaba, claro, agradece. E quem viver, verá.

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