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Para tornar a espera e o tratamento dos pacientes renais crônicos mais agradável, um projeto do curso de Psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo traz um pouco de esperança e novas possibilidades para aqueles que esperam pela hemodiálise. Isso acontece na Enfermaria de Nefrologia da Associação de Servidores Públicos de Vitória

Fotos: Viviane Machado

por Viviane Machado – Neto  tem 26 anos, é um paciente renal crônico desde um ano e sete meses de idade. Há 19 ele faz tratamento de hemodiálise. Avelino Neto, o Neto,  viu  nascer o Projeto Portas, de apoio psicológico ao paciente renal crônico. Ainda pequeno, fazia as atividades propostas pela psicóloga e seus alunos.  O projeto, que existe desde 1995, atua junto à Enfermaria de Nefrologia da Associação de Servidores Públicos de Vitória, no Espírito Santo.

O Neto, de 26 anos, está com o projeto Portas desde o início, em 1995.

O Neto, de 26 anos, está com o projeto Portas desde o início, em 1995.

Neto é um dos pacientes mais antigos do projeto. Ele contou que praticamente cresceu no hospital e no início participava de todas as atividades. Com 26 anos, ele estuda Administração e falou que um dos seus maiores sonhos é poder trabalhar num hospital para ajudar aqueles, que, como ele, passam ou passaram a maior parte da vida nesses ambientes. Ele lembra que no começo tinha mais crianças no hospital. “Era melhor participar do Portas antigamente. Eu lembro das atividades que eu fazia, como poesias, pinturas. Tinha mais crianças, acho que por isso era melhor. Hoje não tenho tanta vontade de participar das coisas, mas valorizo o trabalho deles”, disse.

Para a coordenação do Portas, o nome traduz o que o projeto significa para aqueles que participam – a abertura para o novo, esperança e novas possibilidades. Por meio de atividades lúdicas, eles criam um espaço hospitalar menos agressivo e mais informal.

A Insuficiência Renal Crônica

A IRC, como é conhecida a doença, tem média de incidência de 200 para cada 1 milhão de habitantes. Ela provoca a perda lenta do funcionamento dos rins. A função primordial desse órgão é remover os resíduos e o excesso de água do organismo. O paciente acaba retendo os líquidos no organismo, o que prejudica a produção de glóbulos vermelhos, o controle da pressão e a saúde dos ossos.  Diabetes e hipertensão são as causas mais comuns da doença renal. O tratamento é de alto custo e permanente, uma vez que a doença só pode ser curada através de um transplante que nem sempre pode ser aceito pelo organismo do paciente. A chance de recuperação é mínima e o controle da doença é feito por um processo maquinal chamado hemodiálise, demorado e desconfortável. O paciente fica de 4 a 5 horas realizando o tratamento, três vezes por semana, sem interrupções. Além disso, quem tem IRC deve manter uma dieta rígida, com restrição à ingestão de líquidos.

A espera

Durante as entrevistas, a Fabiane não aceitou falar, mas queria ser modelo do Universo Ufes. Ela contou que adora as atividades de pintura do Portas.

Os pacientes criam laços de amizade durante a espera pela hemodiálise. Brincadeiras e sorrisos os acompanham. Algumas vezes tem-se a impressão de que eles se esquecem das quatro horas seguintes que os esperam.Eles contaram que as muitas horas de permanência no hospital e o tempo gasto em deslocamento impossibilita vínculos empregatícios e frequência escolar, por exemplo.

É o que acontece com Gabriel, de 13 anos, morador de Nova Rosa da Penha, em Cariacica. Ele estuda o 5º ano do Ensino Fundamental em uma escola pública do bairro e contou que só consegue estudar porque passa o dia todo na escola, quando não tem hemodiálise.

A Stéfane também colocou a mão na massa e ajudou os pacientes a terminarem a pintura.

A Stéfane também ajudou os pacientes a terminarem a pintura.

A idade dos pacientes é variada. É possível ver crianças, adultos e idosos, que participam igualmente de todas as atividades do Portas. De acordo com a estudante de Psicologia, Stéfane Stolze, que participa do Portas há dois anos, no início eram oferecidas atividades de oficinas de leitura, pinturas, jogos psicopedagógicos, corte e colagem, entre outros, mas que eram atividades isoladas e se encerravam logo. Por isso, foi pensado em realizar diversos projetos, que seguiam uma lógica e faziam com que a cada encontro o paciente pudesse completar a atividade. “Agora nós estamos com o projeto ‘Entre o Preto e o Branco’. Eles fazem pinturas usando somente essas cores e suas variações, como tons de cinza. É um projeto de arte terapia. O objetivo final é criar uma releitura da obra Guernica de Picasso. É legal quando eles participam, eles gostam”, disse.

A aposentada Zilda Uliana, de 74 anos, descobriu o Portas em 2001, quando apenas 50% de um rim funcionava. Na época, ela lembra que ficou nove anos fazendo dieta. “Passei 128 dias comendo clara de ovo. Tinha que ter uma alimentação balanceada, queria melhorar”, lembrou. Há três anos e três meses ela precisa fazer o tratamento da IRC. Dona Zilda participa das atividades do Portas. “Quando começou, eu achava que estava ajudando o trabalho delas, mas agora vejo que é o contrário. Elas me ajudam. Eu gosto e dá vontade de vir. Cada um que sai faz falta”, afirmou.

O projeto Portas

As atividades do projeto são coordenadas pela professora da Ufes Kathy Amorim Marcondes. Ela acompanha o Portas desde a sua criação em 1995. Eles ainda contam com uma psicóloga hospitalar, Rafaela Feijó, que supervisiona e orienta os trabalhos dos alunos participantes. Hoje, 13 alunas do curso de Psicologia participam do Portas. Elas são responsáveis por levar um pouco mais de esperança e alegria àqueles que esperam pelo tratamento da Insuficiência Renal Crônica.

As atividades realizadas pelos pacientes, além de melhorar e tornar mais agradável a estada no hospital permitem a criação de livros, exposições e eventos. Os pacientes relatam que é muito importante ver o trabalho deles exposto. Neto contou que o diretor do hospital tem um quadro feito por ele em seu consultório. “Eu fiz a pintura quando era pequeno. Ele comprou na exposição que fizemos e hoje fica na sala dele aqui no hospital”, lembrou.

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