Quando a gente não entende uma cultura

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[h4]A cultura cigana vive preconceitos e estereótipos que não condizem com a sua realidade[/h4]

[medium]Foto: site Ministério da Cultura[/medium]

Astrid Malacarne e Jéssica Romanha – Diante de comportamentos, culturas e hábitos estranhos a nós, geralmente, criamos uma resistência ou “pré-conceitos”. Os ciganos, hoje e outrora, vivem na carne e na alma as marcas dessa incompreensão por parte da sociedade com relação à sua cultura. Apesar de cinco séculos da presença do povo cigano no Brasil, não há dados oficiais e nem um conjunto de políticas públicas consolidadas e que atendam às necessidades dessa comunidade. Por isso, Nicolas Ramanush, antropólogo e presidente da Embaixada Cigana do Brasil, em diversos documentos e vídeos publicados na internet, define o seu povo com a palavra “resiliência”, que é essa capacidade de superar adversidades.

Segundo a graduanda em Psicologia e pesquisadora da Ufes Jéssica Faria, sua pesquisa sobre ciganidade, termo usado para se referir ao povo cigano, indica que já no século XVI, na Europa, surgiram os primeiros documentos oficiais da política anticigana, na qual diversos países assumiram rígida conduta de banimento, violência e extermínio do povo cigano.

No Brasil, podemos perceber as marcas de uma “violência invisível” e negligência aos direitos desse povo, cujas peculiaridades são muito marcantes. As tendas, as roupas coloridas e a liberdade de não se fixar acabam estereotipando-os  como festeiros e, ao mesmo tempo, como um povo amaldiçoado, ladrão, criminoso e rogadores de praga. Na opinião de Jéssica Faria, os ciganos “são um exemplo de resistência das minorias sociais”.

A resiliência cigana fez surgir em 1960 uma militância em diversos países, com ativistas que lutam em prol do “anti-ciganismo”, ressalta Ramanush. No Brasil, foi implantada a Embaixada Cigana, com o propósito de confrontar esses estereótipos e preservar a identidade desse povo. “A embaixada surge para que não possamos nos calar diante de ‘inverdades’, como as que os ciganos roubam crianças, que cigano é trapaceador e ladrão”, afirma Ramanush.

O trabalho do presidente da Embaixada Cigana no Brasil vai além do combate a esses estereótipos. Ele se dedica a resgatar a língua, a música e a tradição do seu povo. Uma forma de acabar com os preconceitos criados no imaginário popular, por meio de esclarecimento cultural e a preservação da tradição.

Segundo Jéssica Faria e o seu grupo de pesquisa, divulgar o modo de vida dos ciganos é uma forma estratégica de favorecer a desmistificação dos estereótipos de conotação negativa associados aos ciganos. Por isso, “pensamos em fomentar o debate nas diferentes instâncias da nossa sociedade”, finaliza.

Discussões

No Brasil, políticas públicas em relação à questão cigana surgiram a partir de 2002, com o Plano Nacional de Direitos Humanos. “Neste documento ressalta-se, entre outros, o direito à liberdade dos ciganos; a importância de estudos e pesquisas sobre a história e cultura dos grupos; a necessidade de revisão de livros e dicionários que contenham expressões depreciativas em relação aos ciganos; o incentivo à criação de áreas de acampamentos em municípios que tenham a presença de comunidades ciganas; e o direito ao registro de nascimento gratuito para as crianças”, explica Jéssica.

No ano de 2006, o presidente Luis Inácio Lula da Silva instituiu o dia 24 de maio como o Dia Nacional do Cigano, data em que os povos ciganos comemoram a festa de sua padroeira Santa Sara Kali. E em 2008, a Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República também criou a cartilha “Povo Cigano – o direito em suas mãos”, documento que defende a inviolabilidade dos acampamentos ciganos, o direito ao uso de trajes típicos pelas mulheres em qualquer estabelecimento e o de serem atendidos em postos de saúde e hospitais sem ter que apresentar documentação.

“Essas são algumas iniciativas que surgem mobilizadas, principalmente, pelas próprias lideranças ciganas como movimento de reivindicação de acesso aos bens sociais e também de sensibilização da sociedade não cigana, a fim de vencer o preconceito histórico a que estão submetidos”, declara Jéssica.

Hoje, estima-se que no Brasil existam um milhão de ciganos, sendo 700 mil de baixa renda, e alguns outros abaixo da linha da pobreza.

É importante ressaltar:

  • Segundo a professora de Psicologia da Ufes, Mariana Bonomo, cada comunidade cigana tem suas características próprias e, por isso, não podemos generalizá-las. Por isso, não dá para traçar perfis de “curiosidade”, para que assim “não reforcemos os estereótipos que já existem”, diz.
  • A questão do nomadismo entre os ciganos é referência em alguns grupos, haja vista que a origem do povo cigano é decorrente das castas inferiores da Índia que, assim, se espalharam para o ocidente. “Os povos ciganos são milenares e sempre foram perseguidos pelos não-ciganos”, afirma Mariana.
  • Outro ponto importante para algumas comunidades é o casamento, como tema central da estrutura que se forma, pois “em determinados grupos ele define a vida daquela comunidade em seus aspectos econômicos e sociais, o início da vida adulta, o período de virgindade da mulher.”. Entretanto, como em qualquer grupo social “em cada grupo é diferente”, reitera Bonomo.
  • Os dados sobre os ciganos no Brasil e no Espírito Santo são muito pequenos. Informações sobre sua dinâmica de vida, comportamento, preferências não são de fácil acesso. A própria pesquisadora Mariana Bonomo, apesar de estudar sobre os grupos étnicos ciganos desde 2005, afirma que os estudos no Brasil são escassos.
  • O analfabetismo entre o povo cigano é expressivo.  Segundo a pesquisadora “muitos não são escolarizados”, e isso dificulta o repasse de informações sobre suas estrutura e cultura, principalmente, porque a transmissão oral é o principal meio de passar as tradições. “Eles não se constituem como categoria social, como os negros e os índios”, complementa Bonomo, por isso, é mais difícil inseri-los nos nossos padrões e os “não-ciganos” compreenderem os ciganos.
  • A culinária também sempre teve papel importante na cultura cigana, tanto que as questões mais importantes eram realizadas ao redor do fogo, fogueira, fogão a lenha ou na cozinha. Compartilhar o alimento e a bebida também são usuais, e expressa a amizade forte em todos os grupos. (informações do site da embaixada cigana e indicado no livro Kherutni Xabe – Culinária tradicional cigana.)
  • A embaixada também traz em seu site uma advertência: “Na atualidade, os jovens querem se vestir como seus amigos não-ciganos, da escola ou vizinhos de rua”, “apenas aqui no Brasil fala-se de traje cigano tradicional envolvendo lenço de cetim na cabeça, predominância de vermelho, colete, saia de cetim, enfeites de moedinhas, etc… Na verdade, nunca houve um traje típico cigano. O que existiu foi uma forma tradicional de determinados grupos ciganos com relação à vestimenta”.
  • “Finalmente, parece ser importante destacar que as tomadas de posição individuais reforçam a interpretação de que as “pessoas têm uma participação ativa na construção das suas representações” (Amaral, 1997, p. 316), perspectiva que permite discutir a possibilidade de ressignificação ou de transformação das representações sociais, especialmente no que se refere à esfera do preconceito e da estigmatização de determinados segmentos e grupos sociais, como no caso dos ciganos.” (Bonomo, Gomes de Faria, Souza, Brasil, 2012).

 

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