Existencialismos e a questão do tempo em ‘longevo quando’

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[h4]“Por seres tão inventivo / E pareceres contínuo / Tempo, tempo, tempo, tempo / És um dos deuses mais lindos” Caetano Veloso[/h4]

Isabella Mariano (texto e foto) – “Ler Gabriel Ramos é entrar num âmbito de identificação instintiva, é experimentar junto com ele os sons e os sumos das palavras […]”. São essas algumas das palavras que Milena Paixão usou no prefácio do livro longevo quando, primeira obra de Gabriel, lançada em 2012 pela editora Quorum, com apoio da Lei Rubem Braga. Há uma sonoridade e um dinamismo comuns a todos os poemas, revelando um eu-lírico que ora parece ter pressa, ora parece querer ir bem devagar.

Os jogos de palavras, as brincadeiras e os duplos sentidos, como em “toda vontade” e em “momento III”, dão um tom informal à leitura. É como assistir à vida passar, gastando o tempo observando os transeuntes numa avenida da cidade grande. longevo quando apresenta poemas sem letras maiúsculas, como o título, e sem nenhuma pontuação. Sobre isso, Gabriel afirma: “parto do princípio de que as letras não têm uma liderança. Letras maiúsculas para poemas, para mim, não fazem sentido”. Essa escolha estética reforça a informalidade que perpassa todo o livro, introduzindo, também, um pouco da espontaneidade oral.

[tabs][tab title=”momento III”]como tocar
se sempre tremo quando dorme
como dormir
se sempre me toca quando tremo
como tremer
se sempre durmo quando me toca[/tab] [tab title=”toda vontade”]toda tarde
arde louca
toda sede
cede a boca
toda pele
anda à solta
toda mão
quer a outra
toda vida
grita rouca
toda vontade
grita rouca
toda vida
quer a outra
toda mão
anda à solta
toda pele
cede a boca
toda sede
arde louca[/tab][tab title=”demora”]sou agora mais um com pressa
peço agora um pouco de demora
mas não cesso sem pesar
penso ser só o que pareço
sem seguir o alvoroço
ouço mudo o mundo rodar
sem o peso de um colosso
não mais me reconheço
quando estou neste lugar
sem tempo de tentar caber
dentro da teia do tempo
que mato ao ver o trem passar
de passagem pelo mato
salto ao atravessar a rua
sua silhueta sem eixo
quase que só cabe no meu peito
perdido por tanto sobra de falta de hora
agora sou mais um com pressa
mas passa logo não demora[/tab][tab title=”longevo”]longe me vou
no tempo
a caminho de ver
a idade ruir
perco meus olhos
no céu a se tingir
num cinza-tempestade
espero quieto
a longevidade da chuva
cair[/tab][tab title=”quando”]ando a nado
e nada ando
até o pé
pelejando
pensando ser
quando[/tab][tab title=”feliz”]
feliz
se faz
feito a folha
que foi
fadada ao fim
fino sabor
de fruto cítrico
que não se molda fruto
foi a folha que se findou
feito fuligem
enfeando a fria sexta-feira
a fio
enfileirada de fumaça[/tab]
[tab title=”a palavra”]
a palavra
ida assim
pela boca desaba
deságua
abre minha língua
num instante
em poesia falada
como numa vasta ilha
molhada de tanta
saliva[/tab]
[/tabs]

O próprio título já contém significados múltiplos que dizem bastante a respeito do que será lido. Um deles é o questionamento sobre ser, no tempo que temos, enquanto durar, traduzido na dedicatória que vem logo em seguida: “dedicado ao tempo de sermos o que nos permitimos ser”. Essa relação com o tempo, inclusive, é expressa nos poemas, até mesmo pelo uso de palavras como demora, pressa, ontem, hoje, depois, momento e instante. De acordo com Gabriel, “a questão do tempo é trabalhada sim, mas não como uma marcação somente. A ideia é retratar o instante da página passada, do texto lido, como um instante infinito”.

São apresentados 61 poemas, divididos em nove capítulos: a palavra, de braços abertos ou da água, sobre o ciso, de peito aberto, senhora chuva, o mistério de ser um quando dois, repentes e cronicassambas, arquitetar-se e instante. Desses, destaco dois por apresentarem número maior de poemas que são: de peito aberto; e repentes e cronicassambas. de peito aberto aborda questões existenciais e cotidianas sobre desejos, sentimentos e paixões, no sentido daquilo que nos move.

repentes e cronicassambas destoa esteticamente do restante do livro, por apresentar poemas que ocupam quase a página inteira. Mas a diferença é só visual, porque os jogos de palavras, a sensação de espontaneidade e a questão do tempo presentes no restante do livro, também, são encontrados neste capítulo.

longevo quando pra mim é uma proposta de dialogar com o tempo, me munindo dele, mas também tomando distância. É uma tentativa de colocar isso como questão. Muitos buscam o poema como metáfora, e quem sou eu pra questionar, a interpretação é sempre livre. Mas eu não busco interpretação. Para mim, ele é simplesmente o meio”, explica o autor.

Gabriel Ramos, nascido em Vitória em 1988, além de escritor, é 
graduado em Arquitetura e Urbanismo, pela Ufes. Seu primeiro livro o longevo quando, é uma compilação de poemas autorais escritos entre 2007 e 2010. Conheça o livro na íntegra em http://gabrieltramos.com/longevoquando/.

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