Betty Feliz, pioneira em jornalismo de moda no Espírito Santo

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[h4] Desfaça-se da ideia de editor de moda arrogante e obcecado pela moda e o fashionismo. Betty dá uma lição de simpatia, competência e mostra que falar de moda nem sempre foi tão fácil quanto se imagina. [/h4]

Jhones Corbellari – Talvez o filme estadunidense O Diabo Veste Prada (The Devil Wears Prada, no original), de 2006, com Meryl Streep como Miranda Priestly, impetuosa, arrogante e obcecada editora da revista de moda “Runway” e considerada a “Dama de Ferro” da moda mundial, tenha ajudado a construir a ideia de que toda pessoa à frente de uma publicação do gênero tivesse personalidade parecida. E confesso que fui preparado para encontrar uma pessoa assim, já que quando se fala em moda no Espírito Santo, automaticamente o nome Betty Feliz vem à mente.

Aos poucos, ao longo da conversa, percebo que ela sequer gosta de ser reconhecida como editora de moda. Pura modéstia. Betty é uma profissional completa, entusiasta de novas ideias e do pioneirismo. Hoje, ela está à frente da editora Preview e de publicações como a revista Hype e construiu um nome sólido no ramo de assessoria de imprensa. Descubro depois que a primeira assessoria registrada do estado foi iniciativa dela. Porém, para esta entrevista e com o consentimento dela, foco nossa conversa na sua trajetória no jornalismo de moda.

Adentrei a sala, ainda receoso, mas de cara já vejo que não será como eu esperava. Uma mulher muito simpática me recebe. E até o final da nossa conversa assim se mantém. De repente, vejo que todo aquele estereótipo se descontrói. Saí de lá certo de que a história de Betty revela uma daquelas pessoas que estão onde estão por mérito, porque trilharam um longo caminho para chegar lá.

Começando do começo. Mesmo. Minha primeira pergunta – como não poderia deixar de ser-, é como ela iniciou no jornalismo de moda. A resposta já é bem diferente do esperado. Calmamente, ela me explica que iniciou no jornalismo no final da década de 1960, e que nem existia o curso de Jornalismo por aqui ainda. Mais tarde, já profissional de redação, formou-se em Serviço Social na Ufes. “Fiz as duas coisas – Jornalismo e Serviço Social – por três anos, mas acabei optando pelo primeiro porque era o que mais me gratificava profissionalmente”, conta ela.

E como se não bastasse ser a primeira a falar sobre moda no estado, Betty também ganhou o primeiro “Prêmio Esso de Jornalismo” do Espírito Santo, o mais tradicional e importante prêmio de reconhecimento de mérito dos profissionais de imprensa do Brasil. Mas não foi com moda, e sim com uma reportagem sobre Juventude de Periferia, em 1984.

Quanto ao jornalismo de moda, ela lembra que surgiu por acaso. “Acabei ganhando, de presente (na época, de grego) do meu editor, em A Gazeta, uma página semanal, batizada de “Mulher”, cujo nome, confesso, sempre detestei porque soava como um gueto dentro do jornalismo – e não deixava de ser, naquela época. Mas acabei me envolvendo e me especializando ao longo do tempo”. Começava a ser inserido ali o jornalismo de moda no estado.

Segundo a jornalista, na época em que começou, moda não era prioridade dentro das redações, não tinha valor. “Era uma época de muito preconceito, as mulheres estavam invadindo as redações e os homens, em geral, se sentiam ameaçados. Havia muito machismo, era uma coisa bem escancarada…”.

Atualmente, o jornalismo de moda é um segmento visado por um número significativo de profissionais. Além disso, assim como todo mundo que gosta de escrever se sente jornalista, todo mundo que julga ter um bom gosto para escolher roupas e assessórios, se acha apto para falar de moda.

“Hoje a moda ganhou status porque está provado que se trata de um negócio que gera empregos, que move a economia e que confere visibilidade ao país, inclusive. É um segmento respeitado no mercado. Daí o surgimento de sites, programas e blogs de moda… O grande problema desta expansão é que ela, infelizmente, não veio acompanhada de qualidade e informação. Hoje tudo mundo “entende” de moda, se é que vc me entende…”, comenta Betty.

Aproveito para perguntar a relação entre o jornalismo de moda e o glamour. “Essa coisa do glamour não deve ser levada a sério, porque é uma armadilha para iniciantes. Deixar-se deslumbrar pelo universo da moda é fácil, mas isso leva a equívocos e nada acrescenta, pessoal ou profissionalmente. Assim como dizemos que há consumidores “fashion victims”, há jornalistas também. É só olhar em volta”, provoca.

Como ela está há tanto tempo no meio, pergunto como é vista a moda produzida por aqui. “A moda produzida no ES começa a ganhar espaço lá fora. Esse é um processo lento porque depende de mil e um fatores, principalmente apoio institucional e investimentos. O evento Vitória Moda deu uma grande contribuição para ampliar a divulgação do nosso potencial, além dos cursos de moda que,  por sua vez, também contribuem para o crescimento e o fortalecimento da moda daqui.”

Betty é editora da revista de atualidades Hype desde o seu início, há dez anos
A revista Hype é editada por Betty Feliz desde o seu início, há 10 anos.

Por fim e não menos importante, peço para que me diga como é ser editora da Hype, uma revista de variedades, mas uma das poucas publicações do estado que falam sobre moda. “Editar a Hype é uma delícia, mas também um desafio permanente. Estou sempre de prontidão, acordando e dormindo pensando em uma nova pauta ou abordagem. Acompanho par e passo todas as etapas do processo, da escolha dos assuntos à seleção das fotos, sem tirar o olho do design, contribuindo com o trabalho de diagramação.

Não dava para terminar, sem pedir algumas dicas de como seguir carreira no jornalismo de moda, né? “Gostar muito da atividade, sem esquecer-se que um bom jornalista tem que estudar bastante e saber escrever sobre tudo. Moda é uma especialidade. Há que se ler, assistir a muitos filmes, curtir arte, viajar, ser, enfim, um grande observador e apreciador dos movimentos culturais e sociais desta e de outras épocas. Isso leva à produção de bons textos e editoriais de moda”, responde.

Bom, dá para perceber que ela tem uma trajetória  bem singular e que gostar de moda não é apenas suficiente para escrever sobre. Mas uma coisa tenho certeza: a paixão pela profissão reluzia em seu olhar a cada história que ela contava. Talvez este seja o segredo para uma carreira sólida, um bom trabalho, e, por mérito, o reconhecimento.

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