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Thaiana Gomes – Uma criança anunciada na rádio Espírito Santo, no programa de Sólon Borges. Foi por meio do rádio que a mineira de Ouro Preto, Geralda Siqueira, soube que, no Hospital Santa Casa de Misericórdia de Vitória, um bebê prematuro, nascido de sete meses, foi abandonado. O radialista dizia: “o bebê está à espera de pais”, conta Galdina Ruth, hoje com 57 anos, recordando-se um pouco de sua estória de vida. As informações sobre sua origem não são assertivas, pois a mãe adotiva nunca falou sobre o assunto. As únicas coisas que sabe sobre sua chegada ao mundo foram ditas por uma tia. Lembrando-se dela, Ruth, como é mais conhecida, disse que algumas pessoas chegaram a visitá-la no hospital, porém, por ela ser um bebê negro, muitas das que foram até o local a rejeitaram.

Logo que ouviu a notícia sobre o bebê no rádio, a mãe adotiva de Ruth se aprontou e foi para a Santa Casa buscar o bebê. Não se tem informações sobre como se deu o processo de adoção da criança, e nem o tempo que foi necessário para que o bebê fosse para a casa de sua nova família: Geralda Siqueira e Isaias Siqueira, que já tinham um filho adotivo. Dona Geralda pegou a pequena Galdina Ruth – batizada com o nome da mãe de Geralda em homenagem à senhora – e, com a pequena no colo comprou roupas e a enfeitou. Era um desejo do marido de Geralda e dela, adotar uma menina. Logo quando chegou em casa, conta Ruth, a mãe a colocou em um berço. O marido estava viajando e, na volta, deparou-se com um choro baixinho vindo do quarto.

Foi um momento feliz para a família, que ganhara naquele momento mais um membro. Depois de Ruth, vieram mais dois filhos adotivos. E assim constituiu-se a família Siqueira. Dona Geralda tinha um útero que não se desenvolveu e, devido a isso, nunca pôde engravidar, o que não significou, em nenhum momento, segundo Ruth, falta de amor pelos filhos que não vieram da barriga, mas sim do coração. Quando Ruth completou cinco anos, Isaias se separou de Geralda. O fato afetou muito a menina, que era muito apegada ao pai, levando-a a adoecer. A falta da figura paterna resultava numa tristeza grande, pois, nas comemorações do dia dos pais na escola, Ruth era uma das únicas a não apresentar o pai. Assim, ela preferia nem frequentar a escola nesse dia comemorativo. E foi assim até os 15 anos de Ruth.

_DSC0909Dez anos depois de partir e deixar para trás a família, o senhor Isaias voltou para a casa, sendo recebido com alegria e felicidade por todos. Ruth conta que nesse tempo afastado o pai foi morar com outra mulher. Mas mesmo assim, o seu retorno para o lar foi feliz.  Aos dezesseis anos de idade, Ruth começou a namorar “Marinho”, de 15 anos, um jogador juvenil da Desportiva Ferroviária. Namoro acompanhado de perto pelos pais dos dois. Nessa época, era quase regra nos finais de semana viajar em caravana para acompanhar os jogos do garoto. Porém, Ruth lembra com pesar o destino do menino, que, segundo ela, se perdeu.

Ruth fez o segundo grau em um colégio particular de Vitória, estudo que foi custeado por ela mesma, uma vez que a moça trabalhava no setor de Raios-X do Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Comerciários  (IAPC). Aos 24 anos, concluiu o curso regular e, também o de técnico em Administração, que eram feitos concomitantemente. Depois disso, ela foi trabalhar na organização das fichas de atendimento e como telefonista no Hospital São Lucas, em Vitória. Dos 24 aos 34 anos, Ruth divertiu-se, trabalhou, viajou, enfim, aproveitou a vida com gosto. Dançou músicas lentas com seus namorados – que não foram poucos – pois como ela mesma diz: “era uma negra bonita, alinhada, bem vestida”. E, no meio das festas, das saídas com as amigas, Ruth conheceu Demilson, que viria a ser seu marido.

Ela já conhecia Demilson de vista, de cumprimentá-lo ao fazer compras  na loja de sapatos em que ele trabalhava. Mas foi em uma festa de aniversário em novembro de 1989 que os dois se olharam de verdade. No dia da comemoração, Ruth acabara de terminar um namoro, porém, por insistência de uma amiga, acabou cedendo e indo à festa, que era da namorada de Demilson. Ruth conta que achava o moço metido, na realidade. Naquele dia,  recorda-se, o moço usava calça social cor vinho, camisa branca de seda- que contrastava muito bem com a cor da pele dele, suspira ela – e nos pés, sapatos alinhadíssimos. Ruth,  que até então nutria pelo rapaz certo sentimento de indiferença, olhou para ele de maneira diferente; encantou-se com a conversa e a sensatez de Demilson. E, na mesma noite, ele terminou o namoro com a dona da festa, que àquela altura, já estava “mais pra lá do que pra cá”, ri Ruth. “Ele pediu meu telefone e disse que eu estava convidada  para o aniversário de 90 anos do avô dele, que seria dia 12 de dezembro de 1989.  Falou que a partir daquele dia sempre me ligaria. E ligou”, fala Ruth.

No dia 12 de dezembro, Ruth e Demilson começaram a namorar a sério. Todos aprovaram a relação e ficaram felizes pelo casal, que se casaria em abril do ano seguinte. (Rápidos!) No entanto,  antes de aceitar o  pedido, Ruth conta que relutou, porque em 1988 teve que fazer uma  histerectomia. A cirurgia impossibilitava que ela tivesse filhos. Então, ela se  preparou para dar a notícia a Demilson, sobre o casamento. Porém, a resposta do noivo foi inesperada, segundo Ruth. “Ele olhou pra mim e disse: ‘Se é essa a sua preocupação, não se preocupe. Existem tantos casais sem filhos e felizes, por que seria diferente com a gente? ’”. Em 27 de Abril de 1990, no cartório de Jardim América, em Cariacica, Ruth e Demilson se casaram.

“A minha vida de casada foi maravilhosa. Tínhamos uma relação de companheirismo muito forte. Havia respeito mútuo, diálogo. Isso  ficou ainda mais evidente, porque logo após o casamento, Demilson perdeu o emprego”, afirma Ruth. O casal morou sozinho até 1993. Depois, foram morar com os pais de Ruth, em Vila Velha.

Após um período de felicidade e tranquilidade, a vida de Ruth viria a mudar. “O ano de 2003 foi um marco pra mim; um ano de luta e sofrimento, mas, ao mesmo tempo, de esperança”, pondera Ruth. Sua mãe, em junho de 2003, foi acometida por um AVC; seu marido, em julho, descobrira um câncer na garganta. “Eu ficava de um quarto para o outro na casa, cuidando ora de um, ora do outro. À época, a ajuda dos meus irmãos foi essencial. Porém, apesar do apoio deles e de meu pai, era eu quem cuidava mais deles”. Em 30 de outubro, a mãe de Ruth faleceu e, já nesse período, o marido dela passava mais tempo no hospital do que em casa. “Apesar de ver a situação do meu marido naquele hospital, eu acreditava na sua recuperação – eu queria acreditar. Vi ele chegar aos 30 quilos – ele pesava 90 – ficar irreconhecível. Foi triste demais”.

Nem um ano após a descoberta do câncer, Demilson morreu. No dia 26 de maio de 2004. Após as duas perdas, Ruth dedicou-se ao pai, que dois anos depois a deixou também. Sem os pais e sem o marido, ela foi morar com a irmã, Madalena, que era sobrinha de Isaias. A menina também chegou nova aos braços de dona Geralda, uma vez que a mãe dela morrera logo depois que ela veio ao mundo. Ruth mora com a irmã até os dias de hoje.

Quando indagada sobre seus pais biológicos, ela tem uma afirmativa: “Eu sempre fui tratada muito bem por todas as pessoas da minha família, que me acolheram quando eu mais precisei. Fui rejeitada naquele passado de 1955, e aquele passado passou, não quero nem mais saber. Não tenho interesse em saber quem me deu à luz, não tenho em mim nenhuma curiosidade”. Essa falta de curiosidade ficou mais evidente quando Ruth conta que, por um minuto, achou que tivesse ficado cara a cara com a sua verdadeira mãe. “Eu ficava atendendo as pessoas lá no São Lucas, e um dia duas senhoras se aproximaram de mim e uma delas perguntou: ‘Você que é a filha da Geralda, né? ’. Eu confirmei. A outra senhora só me olhou, e eu a olhei. Acho que nos reconhecemos naquele momento. Ela, provavelmente,  era a minha mãe biológica, mas ela não se manifestou, e nem eu. Não fui atrás, deixei ela ir. Tenho isso como uma atitude de retribuição a tudo que a minha mãe de verdade, de coração, fez por mim desde aquele dia que ouviu no rádio que eu estava à espera de uma família”, desabafa.

Galdina Ruth diz que agradece a Deus por ter passado por tudo e ainda assim continuar lutando, persistente na vida. E que não parou e que não vai parar enquanto estiver neste mundo. “Sou uma pessoa feliz, pois continuo ajudando quem precisa de mim; e é essa capacidade de ser forte,  que nos faz sobreviver.”

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