Alexandre Guerra: “falta entender o skate como um meio de locomoção”

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[h4]Skatista desde os anos 80 e comandante de um dos principais portais de skatismo no Brasil, Alexandre Guerra desmistifica a polêmica entre skatistas e pedestres no calçadão de Camburi e defende o uso do skate como meio de transporte alternativo[/h4]

[medium]Fotos: Fábio Andrade[/medium]

Fábio Andrade, Leonardo Ribeiro e Leone Oliveira – Basta dar uma passada rápida por vários lugares da cidade: no calçadão, nas praças, nos parques ou mesmo na rua, você, muito provavelmente, vai encontrar um ou vários skatistas se locomovendo ou treinando manobras a bordo de seus “brinquedos”. Mas… É brinquedo ou é meio de transporte?

Esse é o cerne da discussão proposta por Alexandre Guerra sobre o lugar do skate nas ruas de Vitória, mais exatamente no calçadão da Praia de Camburi. No último verão, o debate, literalmente, esquentou: temendo colisões com skatistas, pessoas que utilizavam o calçadão para caminhar ou correr levaram suas queixas ao conhecimento do Ministério Público, que acionou a Prefeitura de Vitória. Começava aí uma longa discussão, que à primeira vista parece ser apenas sobre o skate, mas que passa pelo uso compartilhado das vias pelas diferentes modalidades de locomoção e por alternativas de transporte na cidade.

Alexandre em seu habitat natural: na rua e em companhia do skate (Foto: Fábio Andrade)
Alexandre em seu habitat natural.

Alexandre defende um novo olhar acerca do lugar do skate nas vias. Aos 38 anos, o empresário – também skatista desde os anos 80 e um dos webmasters do euamolongboard.com – acha que chegou o momento de pensar na prancha sobre rodas para além de sua função como brinquedo, passatempo ou prática esportiva: “na legislação do Brasil, o skate, é tratado como um brinquedo. Não é visto como meio de transporte. Não sei se isso vai mudar, nem quanto tempo vai levar para mudar. Talvez as pessoas se conscientizem de que não precisa primeiro mudar a lei. Eu posso começar a mudar o discurso e tornar isso um hábito. Muitas vezes, a mudança nas leis vem a reboque de mudanças comportamentais”, pondera.

Sob a luz do Código de Trânsito Brasileiro (CTB), o skate vive numa espécie de limbo. De acordo com o artigo 96, ele seria enquadrado, quanto à tração, como veículo de propulsão humana. No entanto, diferente do que acontece com a bicicleta, ele não é citado nas outras classificações que diferenciam os veículos como de passageiros ou de carga, o que dificulta, legalmente, que seja determinado um tipo de via específico onde o skate deva trafegar. Diante disso, Alexandre acredita que apenas o uso compartilhado das vias aliado ao bom senso dos transeuntes pode garantir a convivência pacífica entre skates, bicicletas, patins e pedestres.

Entrevista – Alexandre Guerra, praticante do skatismo.

Universo Ufes (UU)Quem gosta de andar de skate encontra locais para conseguir fazer isso hoje em Vitória?

Eu gosto de andar sem parar e para esse jeito de andar eu preciso de espaço. Eu preciso da Praia de Camburi, do começo ao fim. Eu gosto de andar muito na rua também, ou bem tarde da noite ou bem cedo, pela manhã, para não correr risco de encontrar com carro por aí. Eu acho que falta um pouquinho de espaço quando a gente fala da orla. Com a reestruturação, a praia ficou mais cheia, tem mais gente frequentando à noite. Dos últimos benefícios que a cidade ganhou esse tem sido um dos mais importantes.

UU – Skatistas, ciclistas, patinadores e pedestres estão dividindo então um lugar que está mais cheio. Vocês concorrem ou convivem nesse local?

O calçadão é um espaço totalmente de convivência. Eu acho que o ponto é este: várias pessoas enxergam a convivência entre pedestres, ciclistas e skatistas como uma disputa. Tem pessoas que não gostam de skate ali, tem pessoas que não gostam de patins ali, mas eu acho que elas têm que aprender a conviver, como os skatistas também têm que aprender a conviver com as pessoas, que estão ali caminhando e correndo. É preciso respeitar, saber que tem riscos, minimizar esses riscos, porque a última coisa que eu quero é machucar alguém quando estiver andando de skate. Vai ser péssimo para mim, eu vou ficar muito chateado, e péssimo para a pessoa que tomar uma trombada. Eu não quero me machucar e não quero machucar os outros, não quero causar mal estar. Para conviver tem que ter bom senso, respeito, educação, uma série de coisas que muita gente tem e outras não têm. O problema ali não é o skate, não é a bicicleta, nem o patins, nem quem corre, são as pessoas que tem que se respeitar e aprender a conviver e a dividir o espaço.

UU – E quem gosta do skate para fazer manobra, encontra espaço para essa prática em Vitória?

Foto: Fábio Andrade
Para Alexandre, existem poucos espaços para praticar manobras.

Basicamente a gente tem a rua, o Tancredão, Praça dos Namorados e há o projeto de mais uma pista no final de Camburi, próximo ao Viaduto da Vale. É pouco pelo que o skate representa em Vitória. São vários praticantes e falta espaço e também estrutura. Mas está caminhando para melhorar. Diferente de outras administrações, essa está muito aberta a conversar e frequentemente tem chamado todo mundo que representa o skate a discutir os projetos. Isso é interessante. O projeto a ser realizado no final da Praia de Camburi atende às pessoas que levam obstáculos e usam o calçadão para fazer as manobras. Esse projeto cria uma estrutura. O moleque que anda de skate vai se desenvolver muito melhor numa pista bem feita do que improvisar com caixotes e afins no meio do calçadão. Acho que é menos risco para todos. Mas é muito difícil chegar e falar: “agora eu fiz isso aqui para você e você vai andar só aqui.” Isso não vai acontecer, vai ter gente que vai andar lá e vai ter gente que vai sair de lá e andar em outro lugar. O skate não é algo que você coloca numa jaula. Não é natação, que só usa a piscina, nem jogo de tênis que é só na quadra.

UU – Em janeiro houve a polêmica em torno do uso do skate no calçadão e foram determinados horários para seu uso em Camburi. Isso ainda vem sendo cumprido?

O Ministério Público recebeu algumas denúncias da população sobre problemas com skate e patins no calçadão. As pessoas que caminhavam reclamaram e isso foi relatado para nós numa reunião com a prefeitura. Havia um risco iminente de acidente e a prefeitura foi notificada e teve um prazo para tomar uma atitude. A prefeitura, na minha opinião, passou as coisas de um jeito que não foi entendido pela imprensa. A prefeitura não falou em proibição, eu vi uma matéria num jornal às 8 da manhã com um secretário pedindo para os skatistas utilizarem a ciclovia. Disso o que foi passado para a população foi: “o skate está proibido no calçadão, quem quiser andar de skate anda na ciclovia.” A mensagem foi essa. Então os skatistas reclamaram, criou-se a polêmica e a prefeitura acabou chamando alguns representantes, inclusive eu, para conversar. Nós chegamos num consenso: no período de 6 às 10 da noite, em que as arenas funcionam no verão, há uma aglomeração muito grande no calçadão e a gente iria evitar esse horário de pico. Em nenhum momento foi falado em proibição ou que não podia andar.

UU – A ciclovia é um lugar adequado para o skate?

Hoje em dia, em vários lugares do mundo, e aqui no Brasil isso está começando, o skate

"O skate não é algo que você coloca numa jaula. Não é natação, que só usa a piscina, nem jogo de tênis que é só na quadra" (Foto: Fábio Andrade)
Alexandre entende o skate como um instrumento de libertação.

vem se tornando um meio de transporte alternativo. Em algumas cidades a ciclovia é compartilhada entre skate, patins e bicicleta para pessoas que vão se locomover, não para fazer manobra ou para utilizar como área de treino. É para você sair da sua casa e ir para o trabalho, sair do trabalho e ir para algum lugar, como um corredor de passagem, de transporte mesmo. Nesse caso, eu acho que funciona, mas precisa educar as pessoas para utilizar da forma certa.

UU – Em que locais do mundo essa já é uma visão sedimentada?

Em Nova York e Amsterdam é assim, acho que em Londres também, mas aqui no Brasil, infelizmente, ainda não se pensa dessa forma. Por aqui ainda falta entender o skate como um meio de locomoção. Acho que a gente está começando esse processo.

UU – O Brasil convive com a opção pelo transporte rodoviário e há pouco espaço para meios de transporte alternativos, ainda que tenha existido algum aumento de ciclovias em Vitória nos últimos anos. Você acredita no skate como meio de transporte dentro dessa realidade?

Acredito. Nas distâncias curtas o skate vai te atender. Hoje em dia, várias indústrias vêm desenvolvendo mecanismos de tração para o skate. São componentes mecânicos ou elétricos pequenos acoplados na roda que têm uma autonomia e vão dar tração para andar, alguns com um esquema de freio. O skate está evoluindo para esse lado. Pode funcionar como meio de transporte por ser pequeno e fácil de levar, não é como a bicicleta, que você precisa guardar em algum lugar e ter um cadeado. Um skate pequeno, de 30 polegadas, você coloca debaixo da cadeira na sala de aula. E se tiver tração você chega sem precisar remar. E além de tudo é verde, você tira as pessoas do trânsito, economiza tempo e se diverte, são muitas vantagens. Evita o aborrecimento que é ficar no trânsito, você coloca sua musiquinha no ouvido e pronto.

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