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*Um ensaio fotográfico da grande manifestação do dia 20 de Junho de2013. Mais de 100 mil pessoas estiveram presentes e todos, juntos, marcharam em direção ao pedágio e atravessaram a terceira ponte. Uma luta por menos tarifas e por uma mudançapolítica no país. Segue um olhar de 50mm em relação ao dia em que Vitória parou.

Fotos: Lais Lorenzoni

Raquel Henrique – Já não seremos culpados pela afirmação de Luther King. Poucos dias depois do início do inverno, os ventos da primavera se anteciparam por aqui. Quem ia prever – a não ser os publicitários da Fiat – que o povo ia vir pra rua e o Brasil ia ficar “gigante, grande como nunca se viu”? Os que estavam há décadas deitados eternamente em berço esplêndido, acordaram de súbito pra ver o gigante pela própria natureza despertar impávido, colosso.

Dois milhões de brasileiros. As ruas se tornaram a maior arquibancada do Brasil. Aliás, as únicas arquibancadas gratuitas, já que nossos bilhões estão se esvaindo nos gargalos da Copa, literalmente para inglês ver. Ao preço dos ingressos, o país do futebol vai ver o Brasil jogar pela televisão.

Desde o impeachment de Collor e as campanhas das diretas, não se viam as ruas tão vivas, tão efervescentes, como mentos jogados na adormecida geração coca-cola. As caras pintadas, as máscaras do V de Vingança, as bandeiras nas costas, os cartazes com ditos contundentes. Somos sim o país do futebol, do carnaval, e agora da manifestação. E quem leu o cartaz dos jovens viu: “Desculpe o transtorno, estamos reconstruindo o Brasil”.

Não era pra precisar repetir, mas como a imprensa insistiu em fazer acreditar, o problema não eram os 20 centavos. O brado retumbante era por melhoras nas condições de vida de um povo tratado sem dignidade. O aumento das passagens por um transporte público que não melhora é só parte de uma dor que se agrava nas filas dos hospitais, se alastra pelas nossas escolas e termina no cemitério, nos cadáveres dos assinados nesse genocídio que o crime organizado promove no Brasil.

A Pátria Amada não tem sido mãe gentil e nem penhor de igualdade, que ainda não conseguimos conquistar com braço algum. Os milhões se avolumaram em todas as capitais e dezenas de cidades, para mostrar que os filhos da nação não fogem à luta, nem temem tiros de borracha, gazes ou qualquer sorte de repressão na luta pelos seus direitos.

Subimos juntos com cada brasileiro a rampa da Esplanada dos Ministérios. Avançamos pela Rio Branco e pela Paulista. Chegamos tão perto do Mineirão quanto a Fifa deixou. A Fifa, aliás, podia ensinar aos nossos políticos o “fair-play” fora de campo, já que somos tão sem educação… porque eles mesmos se esquivaram de investir nisso.

Fora das redes sociais – mas também graças a ela – pudemos sentir o calor humano. Ver a compaixão motivar os que se manifestavam também por aqueles que não têm voz ou vez. Os que, a despeito das nossas mazelas, conseguiram manter um sonho intenso, um raio vívido de amor e de esperança por essa terra, se articularam, se animaram, e bradaram, e avançaram contra o status-quo, contra a corrupção, contra o câncer na saúde, contra a violência na nossa nação.

E também por seus 20 centavos. Que certamente não pagam o fragor dessa primavera, onde vemos nossos risonhos, lindos campos, com mais flores. Estamos acostumados a importar de tudo mesmo. Os árabes iniciaram, nós continuamos. Pelos sertanejos que ainda passam fome, pelas crianças que ainda são abusadas, pelo trabalhador que finge sobreviver com um salário-mínimo, pelas vítimas da violência, pelos jovens sem futuro na criminalidade – e também, claro, pelos 20 centavos – nós lutaremos. Não desistiremos até que nossos bosques tenham mais vida, e nossas vidas, mais amores.

Ah, e quase ia me esquecendo. Para alegria de Luther King, já não carregaremos o fardo do silêncio. Ele que acreditava que nossa geração ia se arrepender não apenas das palavras e ações das pessoas más, mas do silêncio terrível das pessoas boas, nos inspira a gritar quando ouvirmos o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética. Aliás, espero que seja assim. O filho ainda não nasceu. Como diz a única frase de uma música que meu marido insiste em cantar: “é hoje que só chego amanhã”, hoje começamos a caminhada. Amanhã vamos ver onde vai dar.

 

 

 


 

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Comentários 1 Comment

  1. André Santos 1 de julho de 2013 at 19:38 — Reply

    Muito bom o texto.

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