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[h4]O modelo político em que vivemos tem sido alvo de críticas nas diversas manifestações ocorridas em todo país nos últimos dias. Essa “crise de representação” não é um problema recente, no entanto ainda não há solução clara.[/h4]  [medium]Foto: Brasil de Fato[/medium]

[medium]Vídeo: Thaiana Gomes[/medium]

Esther Radaelli e Maíra Mendonça – Em meio a milhares de cartazes, alguns são presenças certas nas manifestações. Entre pedidos de melhorias para educação, saúde e clamores contra a corrupção, um verbo tem sido constantemente pronunciado: ‘representar’. Observando os inúmeros dizeres de quais políticos e atitudes “não me representam”, surge uma dúvida: estamos diante de uma crise de representação política?  Se sim, poderia haver um tipo de organização social sem ela? Como seria?

A insatisfação da população brasileira quanto às atitudes dos que foram escolhidos para representá-la, assim como a revolta quanto à ineficiência dos serviços públicos, não são sentimentos novos. Segundo o professor do Departamento de Direito da Ufes, Júlio Pompeu, há muito tempo a classe política sofre um desgaste aos olhos da população. Isso ocorre porque é possível observar um descolamento cada vez maior entre a pauta política – elaborada prioritariamente com base nos interesses dos próprios políticos ou em razão de sua importância para a manutenção do jogo de alianças – e as pautas dos cidadãos, que ao longo dos anos têm reivindicado mais políticas sociais, rejeitando os discursos voltados essencialmente para a economia.

A principal bandeira e fonte de descontentamento dos manifestantes não se refere a um partido ou instituição específica, mas sim à “atual estrutura de Estado, cujas deliberações políticas de como deve atuar não são aceitas”, esclarece Pompeu. Assim, a causa das manifestações não é uma novidade. O novo refere-se ao modo como a sociedade se organizou para ir às ruas, dando origem a um movimento de massa que se estende por todo o país e que coloca a política como pauta principal, mesmo em uma época de competição de futebol.

“A insatisfação com a política partidária e institucional existe, mas não é o foco principal, mesmo porque os partidos são organizações da sociedade civil que integram nosso modelo de democracia e têm o papel de ponte entre cidadãos e Estado”. Isso é o que explica o deputado estadual Claúdio Vereza, que busca levar a reflexão para além de uma crise de representação política. Para Vereza, esta se trata também de uma discussão sobre papeis, em que sindicatos, associações, igrejas e demais espaços de liderança, incluindo a iniciativa privada, são questionados sobre suas práticas.

“A própria imprensa (empresa de comunicação), tida como “porta-voz” da população, é rechaçada nessas manifestações, porque muitos não a reconhecem como sua representante. Porque há o desejo de se ampliar vozes. Prova disso é a força que as redes sociais assumiram nesse processo. A população não aceita mais a velha polarização na cobertura dos fatos cotidianos. Entre os extremos existe um meio diverso e plural. Em minha opinião, e mesmo pelas análises que acompanho de especialistas, o protagonismo da população está em alta. Essa redescoberta da população como agente de mudança é o amadurecimento de nossa democracia”, enfatiza o deputado.

O professor do Departamento de Filosofia da Ufes, Fernando Pessoa, acredita que para além de uma crise de representação, vive-se uma crise de linguagem. O esvaziamento dos discursos faz com que a fala política caia no império da subjetividade, em que o que vale são as vontades e desmandos de quem está no poder. “Essa descrença que é o terrível. Então tudo fica indiferente, tanto faz. Isso é o niilismo; quando você vê que aquilo que mais acreditava se revela como uma falcatrua,” explica Fernando.

Diante do vazio e da descrença, a desesperança prevaleceu por bons anos. José Antônio Martinuzzo, professor do Departamento de Comunicação Social da Ufes, lembra que a política não é algo natural e sim uma invenção humana para a vida civilizada, a qual ninguém nasce sabendo o que é e como se faz, apesar de se estar imerso nela e em suas consequências. Política é questão de educação, de formação. Por isso, o problema que o país enfrenta se mostra maior do que a falta de consciência de alguns políticos. Trata-se de um problema histórico.

Martinuzzo ressalta que a geração dos jovens, maioria nas ruas, está aprendendo o valor da política não pelo que ela tem de bom, de potência para a civilização, mas pela face mais nefasta tocada por corruptos e fundamentalistas. Dentro de uma realidade assim, os brados contra o poder não têm sido poucos. Segundo ele, “a política tem de ser contemporânea ao seu tempo. Os modelos de representação atuais já não dão conta de dialogar com os cidadãos. É preciso dizer também que a política foi majoritariamente abandonada pelas pessoas bem intencionadas. Os políticos honestos vivem sitiados. Assim, os espertos, fundamentalistas e corporativistas tomaram conta, principalmente dos Legislativos”.

Mais dignidade, amor próprio, uma sociedade com mais valores, sentido e critério. Isso que está faltando, segundo o professor Fernando Pessoa. E é um problema que perpassa as várias esferas sociais e também os vários países do mundo, uma crise do ser advinda da modernidade. O professor lembra ainda que a cultura da corrupção é ensinada dentro de casa. Um exemplo é a velha história entre pais e filhos de “se comer tudo, ganha um pirulito”. O que é isso? Para Fernando, nada mais que corrupção. A maneira de reverter? Com educação. Mas ele se diz cético com relação a mudanças, e frisa o quanto uma transformação histórica demora a acontecer. Será um legado para gerações futuras.

E a representação do movimento?

A questão da não representação possui ainda outra face: ela não se dá só entre os manifestantes e as instituições de Estado, mas também entre os próprios integrantes dos movimentos, que preferem não eleger grupos de liderança para os protestos, envolvendo-os num discurso de “movimento sem rostos”.

Para o professor Júlio Pompeu, mais do que um discurso, a não liderança é uma característica própria dos movimentos de massa, que justamente por sua grandeza não podem ser controlados. As lideranças são eleitas muito mais pela construção histórica dos fatos do que pelo fato em si. “Ninguém lidera movimento de massa. As lideranças não acontecem de fato, elas são construídas pós-fato. É claro que desse movimento vão aparecer protagonistas, mas eles vêm depois. Eles são construídos durante”, explica.

De acordo com Pompeu, o modo como esses movimentos sociais mexem com a sociedade pode culminar na criação de novas estruturas. E elas sim, para tratarem as reivindicações populares a nível institucional, necessitam de representantes. “O povo quando sai na rua não tem a obrigação de explicar nada, mas político tem obrigação de entender. Então que seja o mediador, que seja aquele que entende essa mensagem e faça alguma coisa já que tem poder para isso. Essa é a melhor forma de exercer esse papel de protagonista”, finaliza.

Afinal, para onde caminhamos?

Ao mesmo tempo em que são vistas com entusiasmo e ufanismo, as manifestações populares trazem consigo dúvidas, incertezas quanto ao futuro. Seria esse o começo de um processo efetivo de mudanças? E mais ainda, se a questão da falta de representação política se impõe com tanta força, seria possível um novo tipo de organização? Sobre isso, Júlio Pompeu acredita que este está longe de ser um movimento que acabe com a representação política, uma vez que ela é inevitável. “Tanto é que as pessoas não pedem o fim da política, elas pedem reforma política. É muito diferente”, lembra. E continua: “os movimentos de massa têm a beleza dos grandes eventos naturais: grandiosos, destrutivos, bonitos de se ver. Agora, você sabe que ele vai destruir, mas o que vai vir depois a gente não sabe. Por isso, o que eu digo é que a grande luta política vem depois. E essa luta política não é do povo, é das lideranças instituídas, é da estrutura política, com força política que gere um destino”, conclui o professor.

Uma maneira de resgatar a participação da população na política seria algo já conhecido. Fernando Pessoa se lembra das representações mais próximas das pessoas que outrora tiveram força, como as associações de bairro e também as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Seguindo a mesma linha de raciocínio de Pompeu, Fernando acredita que a demonstração que a rua está dando de que tem poder e pode intervir é positiva, mas “seria interessante se a população soubesse de novo se organizar em mecanismos de representação política que fossem legitimados”, pois o modelo sociopolítico se estrutura nas instituições.

Já para Cláudio Vereza, apesar de o Brasil adotar o modelo democrático representativo, existem possibilidades e mecanismos que podem contribuir para o amadurecimento desse sistema, fazendo com que ele avance para uma democracia participativa. E isso é o que tem sido visto a partir das manifestações. “Eu avalio que muitas coisas boas resultarão destas mobilizações. Muitas mudanças, como a reforma política, nos transportes, e tantas que estão sendo levantadas nestas mobilizações devem avançar. Faltava essa interação, esse aval da população para fazer as coisas caminharem. Nossa trajetória democrática mostra que só com a organização e a mobilização da sociedade, as grandes transformações acontecem. O Brasil está vivendo este momento, está experimentando novamente ter o povo na rua, como já ocorreu em tantos momentos da nossa história”, pontua o deputado.

Enquanto a essência da política não for resgatada, as ruas ainda terão muitos motivos para estar cheias de cartazes e palavras de ordem. “Não há projeto de vida para além do hoje e, sem passado nem futuro, o espaço da política também se restringe, pois a política de verdade diz respeito a pensar a vida sempre cada vez mais civilizada, fraterna, igualitária e livre”, reflete Martinuzzo. No entanto, quando questionado sobre os impactos que as manifestações podem gerar futuramente, Martinuzzo é simples e direto: “imagino que os melhores. Quando o poder é confrontado seriamente, avança-se no processo de emancipação humana. Estamos vivendo um momento potencialmente histórico”.

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