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Com brincadeiras de criança, e preço que só gente grande pode pagar, a educação infantil privada de Vitória desafia os pais a encontrar uma equação que equilibre essa despesa no orçamento

DUDU

Eduardo, apresentando o amigo Peixe, está na escola desde um aninho

Raquel Henrique – O Dudu ainda não sabe fazer contas, mas o que está sendo pago para ele aprender é uma das despesas mais altas no orçamento da família. O menino só tem 2 anos, mas seus pais já pagam R$ 1.618 pelas aulas no período integral; que, além de atividades pedagógicas, inclui natação, música, artes e inglês.

A mãe do menino, a servidora pública Ludmila Perez, acha que o preço não justifica o serviço prestado pela escola, e que Vitória está acima da média na cobrança. “Não que eles deem pouco… mas em nível de Brasil, outros lugares, como São Paulo, oferecem até mais do que aqui por um preço menor. Não é possível que aqui tenha que cobrar tanto”, considera. E por causa da “defasagem no ensino”, a creche pública não era uma opção para família. “As opções eram babá ou creche. O custo com babá daria no mesmo, e ainda teria que contar com confiança na pessoa e possíveis faltas ao serviço. Na creche é tudo programado”, analisa a mãe do menino, lembrando que apesar de todo o investimento, Dudu prefere mesmo é ficar na casa da vovó.

SARA

Sarinha faz suas atividades acompanhada pela mãe, Beatriz

Já a pequena Sara é uma bonequinha de 3 anos, que mudou de escola e de cidade há 4 meses. A mãe da menina, Beatriz Cunha, é pedagoga e trabalha na educação infantil. A família veio de Bauru, interior de São Paulo, e se assustou com o custo de vida aqui na Ilha. “Eu pagava 400 reais para minha filha estudar em Bauru, com aula de música, ballet… Não tem diferença na qualidade de ensino entre lá e Vitória. Não ‘tô’ pagando por algo extraordinário aqui”, enfatiza Beatriz, que optou pela escola da menina porque o pai já havia estudado lá quando criança. A escola de Sara oferece música, artes e inglês, e a mensalidade custa R$ 987 – valor que Beatriz garante que é maior do que pagava de aluguel por um bom apartamento em Bauru.

E provavelmente o valor de algumas é maior do que se paga de aluguel por aqui também. O custo da educação infantil privada em Vitória é alto, bastante alto. O economista Roberto Fassarela, professor do Departamento de Economia da Ufes confirma isso, e ressalta que um dos motivos é o fato de Vitória ter uma renda per capita relativamente alta, e um grupo de famílias disposta a pagar alto pela educação dos filhos.

Em consulta a quinze escolas que oferecem educação infantil, de 3 a 5 anos, aqui na Ilha, apenas três cobram até R$ 600. Onze delas cobram entre R$ 950 e R$ 1.241. E na mais exclusiva, o valor chega a R$ 1.967 para um turno de aula. Nas escolas que oferecem período integral (normalmente 10 horas/dia), os valores variam em torno de R$ 1.500, mas podem chegar a R$ 2.518.

Ao que parece, o valor exorbitante é exclusivo da capital, já que até no entorno da cidade é possível encontrar qualidade por um preço mais em conta. Em Vila Velha, por exemplo, um colégio tradicional como o Marista, oferece o mesmo serviço por R$ 736. Uma escola conceituada da Praia da Costa, que tem até aulas de culinária com os pequenos, sai por R$ 502. Outro exemplo é o Darwin, que em Vitória custa R$ 954, e oferece o mesmo serviço em Cariacica, por 518. Na Serra, a escola Contec oferece ballet, inglês e informática para os pequenos por R$ 489. Diferenças consideráveis para orçamentos apertados.

FASSARELA

Fassarela acredita que os pais pagam pelo simbólico

Fassarela afirma que muitos pais ainda consideram que ensino público na educação básica em geral, que é a época em que se forma a capacidade cognitiva do cidadão, não oferece concorrência com as escolas privadas. Na sociedade moderna, onde já não é a herança material que determina a renda (até porque ela pode, e normalmente se dissipa muito rápido), é o desenvolvimento cognitivo, a informação, que são cotados como diferenciais no mercado. E os pais pagam por uma escola que ofereça isso. “Nessas escolas, paga-se pelo simbólico, pelo imaginário. Só do filho estudar lá os pais têm um status. A seleção acaba sendo feita por grana. Você pensa: as crianças estão seguras lá, vão receber o que há de melhor em desenvolvimento intelectual… tem gente disposta a pagar muito por isso!”, ressalta o economista.

Para Margarida Daher, proprietária da Escola São Domingos, a última coisa importante a ser ensinada nessa fase é a letra, o número, o papel. “Quando vi pelo Facebook um monte de ex-alunos meus nas manifestações, pensei: – ‘Será que eu criei revolucionários?’ Acho que a educação é por aí. Ensinar é fácil. O educar, ensinar o repartir, o dividir, é mais difícil. Nosso compromisso é com a formação do cidadão”, frisa. Tia Magá, como é conhecida, admite já ter tido alunos filhos de governadores, de desembargadores, mas diz que a maioria deles é de classe média, de vários bairros de Vitória e das cidades vizinhas, o que enriquece ainda mais a experiência das crianças nas trocas de vivências. Para Magá, os pais pagam pelos valores que a escola trabalha. Prova disso é que “os que saíram daqui trazem os filhos de volta. Temos mais de 300 filhos de ex-alunos na escola. O pai reconhece isso. Ele paga o que não tem preço”, reforça.

Mas também há contramão nessa maré. Nem todo mundo está disposto a pagar tanto, e pais que podem pagar encontram alternativas para evitar essa despesa com a educação infantil. Tatiana Muniz, é mãe de Heitor, de 2 anos. Mesmo com pouca idade, Heitor já passou por três creches privadas e hoje está na educação infantil da Prefeitura de Vitória. Tatiana, que é professora municipal da Serra, precisou colocar o menino com oito meses numa creche privada em Jardim Camburi. E a experiência custou caro, literalmente. “Ele só ficou três meses na creche e foi mordido mais de três vezes. Ele também teve uma infecção intestinal, que acabou desenvolvendo uma alergia alimentar que ele tem até hoje”, lembra a mãe. Como a escola não deu conta de resolver a situação, Tatiana pegou o dinheiro pago de volta (e não era pouco), e conseguiu outra creche para deixar o menino. No ano passado, Heitor foi para uma terceira creche privada, mais próxima de casa, e esse ano conseguiu vaga na creche da Prefeitura, em Jardim da Penha.

Por sua experiência como professora da educação infantil pública, Tatiana não vê diferença nos aspectos pedagógicos nessa idade. Ela percebe que a diferença maior está no retorno sobre o aluno que a escola dá aos pais. “Na particular eles te dão uma agenda detalhada: se comeu, se trocou fralda, o que fez, o que deixou de fazer… Eles mostram serviço. Na pública não te passam tanto isso”, afirma a mãe. Quanto aos valores transmitidos, ela acredita que a educação precisa ser compartilhada entre a escola e os pais. Não dá pra pagar caro e esperar que a escola faça isso sozinha. E com essa questão bem resolvida em casa, mais uma vez foi o custo que determinou a escolha. “Se eu achasse que o ensino era muito diferente, eu faria um esforço para pagar. Mas como eu conheço a dinâmica das duas (pública e privada), não vejo necessidade. Vai ser bom pro bolso e pro meu filho”, conclui Tatiana.

Valores informados pelas escolas, para o ano letivo de 2013

Valores informados pelas escolas, para o ano letivo de 2013

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Comentários 1 Comment

  1. André Santos 9 de julho de 2013 at 18:43 — Reply

    Eu acho que um ensino de qualidade é muito bom para o desenvolvimento de uma criança, mas se engana que acha que a escola é capaz de oforecer todo esse conteudo sozinha. Os pais são peças fundamentais para o desenvolvimento intelectual, educacional e de cidadania de seus filhos, pois as crianças aprendem mais com exemplos de que com o que ensinamos. Por isso essa diferença em valores dessas escolas não tem muito sentido, tem sim a falta de uma boa educação publica para equilibrar a balança, e uma fiscalização para saber até onde esses valores não estão abusivos.

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