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Diante de bombas e balas de borracha, o povo que foi para a Assembléia Legislativa acompanhar a votação do fim do pedágio, viu seu direito democrático acabar em correria. 

Fotos: Lais Lorenzoni

Esther Radaelli e Izabelly Possatto – Bombas, balas de borracha, spray de pimenta e muita correria. Esse foi o cenário do que era para ser um dia em que o povo participaria de um mecanismo básico de um sistema democrático: o acompanhamento de uma votação na Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales). Era o dia em que o projeto que poderia estabelecer o fim da cobrança do pedágio na Terceira Ponte seria votado. Mas, a terça-feira (15), não será marcada pelo arquivamento do projeto, derrotado por 16 votos a 11, e sim, pelo que ocorreu em frente à Assembleia.

Iago Amaral, 21, é estudante de Filosofia e participou do Movimento Ocupa Ales desde o princípio. Este movimento tinha como objetivo pressionar os deputados pelo fim do pedágio. Os integrantes dele permaneceram na Assembleia por 12 dias. Com os olhos ainda vermelhos devido ao gás lacrimogêneo, Iago lembrou que entre os acordos firmados para a desocupação do prédio, estava a garantia da entrada de todos que quisessem acompanhar a sessão. Chegando lá, foram surpreendidos com a notícia de que apenas 140 pessoas poderiam entrar e com cadastramento, o que não foi aceito pelos manifestantes. O que Iago viu em seguida foi a porta sendo fechada muito antes de esse número ter chegado ao menos perto, e a polícia reagindo com spray de pimenta, a princípio, à  tentativa do povo de entrar na Ales. Viu senhoras, que estavam na fila para acompanhar a votação, sendo atingidas e sem condição de defesa. Logo em seguida, ele relembra que o Batalhão de Missões Especiais (BME) começou a sair de dentro da Assembleia e das regiões laterais do prédio. E a partir daí, só bomba. “Não conseguia nem enxergar direito.”

O Conselho Estadual dos Direitos Humanos (CEDH) tem atuado na intermediação entre a Ales e o movimento. Assim foi para a desocupação do prédio e também na definição de como transcorreria a votação pelo fim do pedágio. De acordo com o professor Edgard Rebouças, representante da Ufes no CEDH, estava acordado que a sessão seria aberta ao público, seguindo o regulamento da casa. Mas o combinado não foi cumprido. “Na segunda de manhã, a mesa informou que para garantir a segurança, iria fazer uma fila para  entrada, cadastrando as pessoas. No que entraram 30 pessoas, fecharam as portas alegando lotação esgotada (cabem 300). O segundo andar das galerias estava fechado e havia quase 100 ‘convidados’ de deputados já dentro da ALES desde cedo,” afirma Edgard.

A votação estava marcada para acontecer a partir de 15h. Marina Santana, 20, estudante de Ciências Sociais que entrou na fila por volta de 13h40, disse que o clima estava tranquilo, mas tinha um excesso de policiais dentro do prédio. Próximo das 14h começaram a liberar a entrada; tinham que passar pela revista e pelo cadastro. Começou a ficar um pouco tumultuado na hora do registro na recepção, então ela foi dispensada do processo. Logo depois que ela entrou, fecharam a porta. Foi a última. Os seguranças disseram que o limite de pessoas já tinha sido alcançado e as responsáveis pelo cadastro diziam que não, mas precisavam de um tempo para organizar a inscrição. E assim o confronto do lado de fora começou. As portas foram fechadas para a população aproximadamente às 14h30.

No transcorrer da tarde houve momentos de aparente tranquilidade – nada de bombas, mas a policia sempre se mantinha em posição de protidão, e havia muita tensão – e outros momentos de correria. A certa altura, chegou a notícia de que seria autorizada a entrada de mais algumas pessoas, mas a possibilidade não se confirmou. Ou entrariam todos ou nenhum, assim bradou um dos manifestantes.

No intervalo de um dos momentos mais tensos, em que o BME desceu da escadaria da Assembleia e foi para a rua atirando e jogando bombas, Suzana Tatagiba, da Comissão de Ética da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), falou sobre tudo o que estava presenciando. Para ela, “os deputados estão completamente fora de sintonia com a população”, e “não têm o direito de proibir o povo de entrar na casa do povo”. Além disso, enfatizou ter se escandalizado com a quantidade de policiais que estavam lá, enquanto vários bairros vivem em situação de insegurança total. Suzana reforçou ainda que “os deputados precisam parar de pensar que são autoridades, eles são representantes do povo”. E disse acreditar ser preciso urgentemente de uma reforma política, destacando o financiamento público de campanha como essencial neste processo.

De um lado, escudo, bombas, balas de borracha, armas. De outro, manifestantes que corriam e tentavam se proteger, enquanto alguns reagiam atirando pedras e outros objetos. Em meio a uma guerra desleal e desigual, uma garota de 15 anos deu seu depoimento. Equipada com um nariz de palhaço, a estudante, que não quis se identificar, disse que um policial mirou a arma na direção onde ela e outras pessoas estavam e disse: “não é arma com bala de borracha não”.

“Os movimentos sociais decidiram não negociar mais nada com o governo até que as reivindicações sejam atendidas, ou que ao menos o governador se pronuncie“, informou Edgard Rebouças. E os protestos devem continuar. Uma nova manifestação está prevista para quinta-feira à noite, em uma audiência pública sobre o aquaviário no Álvares Cabral. Um ato está programado para sexta-feira pela manhã com saída da Assembleia Legislativa e chegada no Palácio Anchieta. Resta saber se o poder público continuará se manifestando através da força.

 

 

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