Share Button

Rhayan Lemes Depois da marcha que levou, no dia 17 de junho, 100 mil pessoas às ruas da Grande Vitória, em busca da melhoria nos serviços públicos, o movimento, que tinha várias pautas, decidiu focar em uma específica: derrubar o pedágio cobrado para atravessar a Terceira Ponte, que liga a Capital a Vila Velha.

Apesar da manifestação ter explodido há cerca de um mês, a articulação para exigir melhorias no transporte público e na mobilidade da Grande Vitória começou em 2008, com o Movimento Passe Livre (MPL). Quatro anos depois do início das movimentações do MPL no Estado, neste ano a adesão às manifestações nas ruas surpreendeu e as reivindicações se agigantaram.

Milhares foram às ruas por saúde, educação, política e mais um punhado de insatisfações entaladas. Todos as manifestações terminavam num ponto emblemático: a praça do pedágio da Terceira Ponte. Não tardou para que a energia do movimento fosse direcionada para uma única bandeira: o alvo da insatisfação com os problemas de mobilidade urbana virou o pedágio cobrado para atravessar a Terceira Ponte.

O governo do Espírito Santo e a concessionária Rodosol firmaram o contrato de concessão do Sistema Rodovia do Sol em dezembro de 1998, por meio de um processo licitatório. Na época, o governador do Estado era o médico Vitor Buaiz, que se elegeu pelo PT, mas no final do seu governo migrou para o PV. O contrato prevê que a concessão dure 25 anos, terminando, portanto, somente em 2023.
Cabe à Rodosol garantir a operação, a manutenção e a conservação do Sistema Rodovia do Sol, da Terceira Ponte, em Vitória, ao Km 67,5, em Meaípe, Guarapari. Também coube à empresa a responsabilidade pela duplicação da Rodovia do Sol, concluída em 2000, e a construção do Contorno de Guarapari, entre 2001 e 2003. O retorno desses investimentos dá-se por meio dos pedágios da ponte e da rodovia.

Para o professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Kleber Frizzera,  isso acontece pois o pedágio da Terceira Ponte representa simbolicamente a privação de liberdade das pessoas que querem atravessá-la.

“Esse movimento é simbólico, pois o pedágio é visto como limitador da circulação e vira ícone dessa resistência. As pessoas se sentem barradas, impedidas. Além da questão do valor, para os condutores, o carro é um elemento de liberdade. Então, eles acabam sentindo que essa liberdade é restringida”, aponta. O professor ressalta, no entanto, que a cobrança de pedágio é enxergada como empecilho e entrave da mobilidade urbana também para aqueles que não possuem veículo próprio.

“Vila Velha se tornou uma cidade dormitório. O preço dos imóveis acaba sendo mais barato lá do que em Vitória. Por isso, o movimento Vila Velha-Vitória é intenso e a tendência é o aumento do fluxo. As pessoas vêm para a Capital o tempo todo para trabalhar, para a universidade e para o lazer, pois há mais opções. A mobilidade urbana incomoda todo mundo e precisa ser discutida”, destaca.

Segundo ele, estudo de 2007 mostra que em Vitória 75% das viagens são feitas em veículos motorizados, sendo que 42% delas em carros ou táxi e 33% em ônibus. Os outros 25% correspondem ao deslocamento feito a pé e de bicicleta. Em 1998, o cenário era inverso: 43% das viagens eram feitas em coletivos e 33% em carros.

“O carro ganha esse status de liberdade, de permitir a circulação, e os números mostram que em Vitória temos mais veículos que condutores habilitados. A mobilidade urbana gera insatisfação e é há um desafio hoje em se fazer e pensar as cidades com acesso para todos os lados, sem restrição de fluxo”, pondera.

Frizzera diz que a questão do passe livre – tão emblemática para o MPL – tem que ser discutida no conjunto da mobilidade urbana. “Como eles mesmos dizem, não é por 20 centavos, é pela restrição no trânsito, pelos problemas de mobilidade urbana. É possível que se tenha passe livre no transporte público? Isso tem que ser discutido. Para que se deixe o carro em casa, seria preciso um transporte público de qualidade e que facilitasse a locomoção”, exemplifica.

As pessoas e, principalmente, os jovens são contra pagar o transporte público. Eles querem que isso esteja inserido nos impostos que já são cobrados. Então, todas essas cobranças são encaradas como impedimento de circulação. Por isso eles são contra a privatização, a concessão e todos os ingredientes que possam representar um controle, um cerceamento dessa liberdade”
– Kleber Frizzera

Tarifa

Apesar de a Terceira Ponte estar diretamente ligada à discussão de mobilidade urbana, uma possível extinção da cobrança do valor do pedágio não influencia na tarifa do transporte coletivo, informou a Companhia de Transportes Urbanos da Grande Vitória (Ceturb-GV).

“Os ônibus do Transcol que passam na 3ª Ponte são isentos do pagamento do valor do pedágio”, explica, em nota. A Rodosol também foi procurada pela reportagem, para esclarecer o que é feito com o valor arrecadado pelo pedágio, bem os custos e últimas obras de manutenção realizadas no trecho, mas não retornou o contato.

Share Button

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *