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 Em manifesto redigido em apoio ao movimento e após polêmica no Twitter, professores buscam o diálogo e repudiam a posição do Governo do Estado e da grande mídia diante das manifestações populares.

Any Cometti – André Filipe Pereira Reid Santos, sociólogo e professor do mestrado e doutorado em Direitos e Garantias Fundamentais da Faculdade de Direito de Vitória (FDV), foi quem deu o pontapé inicial na ideia de escrever um manifesto de professores e pesquisadores com relação às recorrentes manifestações, condenando a truculência policial, a duvidosa cobertura da imprensa e, sobretudo, a criminalização do movimento.

Antes de conceder entrevista ao Universo Ufes, André Filipe informou que alguns professores têm tido seus discursos deturpados pela grande mídia e, por isso, só estão se comunicando por escrito com jornalistas. Entretanto, por reconhecer o papel do jornalismo na sociedade, concordou em falar.

O manifesto faz um breve histórico das manifestações, desde a primeira, do dia 17 de junho, que reuniu 30 mil pessoas, até a do dia 19 de julho, que acabou com a detenção de 69 pessoas e a prisão de 46 dessas, as quais foram liberadas gradualmente até o último dia 26. Entre elas, pessoas que só passavam pelo local da manifestação, algumas que participavam e portavam água e vinagre e outras que estavam dentro dos mesmos ônibus que os manifestantes. “A estratégia do governo é desastrosa. Uma declaração de ignorância, não-reconhecimento e tentativa de desmoralização do movimento”, qualificou o professor.

Diante dos fatos, o professor teve a ideia de produzir o manifesto junto com outros colegas da faculdade onde atua. “A sociedade espera que a gente que estuda dê um parecer sobre essas repressões que têm sofrido os movimentos socias”, considera.

Posteriormente, no dia 20 de julho, um sábado, um novo fato fez com que a ideia do manifesto se propagasse e mais professores se dispusessem a participar e ajudar a construí-lo. O jornalista Michel Bermudes Auer, da TV Gazeta, escreveu em seu perfil no twitter que “A secretaria de segurança precisa monitorar alguns perfis do face e também aqui do twitter. Tem muita gente apoiando e estimulando o crime!”. Em seguida, em resposta a um internauta, disse que “estamos monitorando os professores que incitam e estimulam a violência”. E completou: “Falta pouco!”. Procurado pela equipe do Universo Ufes, Michel Bermudes disse que não gostaria de se posicionar sobre o caso.

No manifesto, redigido de forma colaborativa pela internet, os professores criticam a opinião expressa no tweet. “Essa ameaça é uma forma de ilação: querem nos colocar como intelectuais da incitação da violência, quando esta é oriunda de um conjunto de indignações ainda não escutadas e do uso desmedido da força policial por parte do executivo estadual”.

O professor também lembra que sem o auxílio das redes sociais, o manifesto unificado dos professores não seria feito com tanta agilidade e união de alguns professores que sequer se conhecem, mas mantinham o descontentamento em comum.“As redes sociais foram fundamentais para isso. É o elemento novo, mas que sozinho não é suficiente. O sentimento de indignação é fundamental para irmos às ruas. As redes sociais, como instrumento, são muito utilizadas e ajudam, mas não são dominantes”, afirma.

Em pouco tempo, 62 professores atuantes no estado se reuniram com a ajuda de programas da internet e aprontaram o manifesto. Na manhã da segunda-feira, 22, a carta foi divulgada na internet e lida na assembleia popular do movimento, que aconteceu em frente ao Tribunal de Justiça.

O manifesto enumera as narrativas, construídas nesse mês de manifestações, que se opõem. A primeira, da “multidão conectada nas redes sociais”, que mostra que o governo não atende aos anseios da população e não adota ações adequadas às reivindicações dos movimentos sociais que estão nas ruas. A outra narrativa “é aquela produzida por alguns veículos tradicionais que descrevem a realidade a partir de um viés de análise que criminaliza a ação dos movimentos sociais”.

O professor conta que a criminalização dos movimentos sociais é histórica no Brasil, haja vista os episódios da Inconfidência Mineira, Revolta de Canudos e outros tantos movimentos que contestavam a ordem vigente. Ele também considera que a mídia sempre foi muito favorável a isso em seu discurso. André não se coloca a favor do “quebra-quebra”, mas lembra que a destruição do patrimônio em grandes manifestações acontece no mundo inteiro. “França, Itália, Grécia… E isso é parte do movimento democrático. Não há movimento democrático que não cause um certo prejuízo de ir e vir, prejuízo no patrimônio. Porque isso chama a atenção para o valor que nós damos à política, às pessoas e às coisas. E a impressão que temos é de que a polícia protege as coisas”.

Mais do que alertar para a criminalização sofrida pelos movimentos sociais, tanto por parte do governo como da mídia, e para a falta de tato do governo e da polícia em lidar com esse tipo de manifestação, os professores quiseram chamar a atenção do governo para a necessidade de dialogar com o movimento. “Essas pessoas são qualificadas a pensar a realidade social, enquanto intelectuais. Queremos demonstrar que produzimos conhecimento com função social”.

Entretanto, esse diálogo, segundo o professor, jamais existiu. O manifesto relata que “o governador se ausentou da responsabilidade de receber os manifestantes e sequer estava presente no Palácio no dia da última manifestação, quando declarou à imprensa, contraditoriamente, que estava ‘aberto ao diálogo’. “Como representantes do governo só o Batalhão de Missões Especiais, que passa a atuar com o uso de violência absolutamente desmedida, intensificando as reações por parte da manifestação, invertendo por completo sua função de preservar a vida das pessoas e tratando moradores e manifestantes indiscriminadamente como criminosos”, diz o texto.

O manifesto também alerta para questões como a mobilidade urbana, a saúde pública e a crise de representatividade política, pontos de extremo descontentamento popular que chegaram a ser pauta dos movimentos e culminam em um descontentamento geral. Para o professor André, o sentimento de indignação foi fundamental para que as pessoas fossem às ruas e não só, mas para que tantas outras apoiassem o movimento e vissem nele os próprios conflitos que sofrem diariamente. Ele conta que ouviu de um taxista palavras de apoio ao movimento. “O cidadão comum começa a aplaudir, a vibrar com um movimento que é novo. Temos o sentimento de justiça social”.

Agora, o grupo se prepara para produzir novos manifestos conforme hajam acontecimentos que os façam ter necessidade de expôr a opinião conjunta. O documento não é partidário, é coletivo e deve ser completado à medida que o diálogo seja feito, conforme o professor diz. Ele também considera que o documento é incompleto. “Faltam partes como a do extermínio e encarceramento da população negra”. O professor finaliza explicando que, mesmo que o debate entre o governo e o povo não termine em um acordo, é fundamental que haja discussão. “Somos favoráveis ao conflito de ideias, que é uma característica democrática”, completa.

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