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Festa de São Benedito é uma das representações da cultura negra no Estado com abrangência no litoral capixaba, de Anchieta a Linhares

Astrid Malacarne – Em 1856, 25 escravos vindos da África se salvaram do naufrágio do navio Palermo no litoral de Nova Almeida, na Serra, agarrando-se ao mastro que tinha a imagem de São Benedito. Desde então, as comunidades de negros do litoral capixaba passaram a fincar o mastro todos os anos para agradecer o milagre. São Benedito é louvado nas festas com a cortada, a puxada e a fincada do mastro. Os festejos começam antes do dia 26 de dezembro, dia do Santo, de acordo com o artista plástico Sérgio Oliveira Dias, em seu artigo sobre a história do congo no Espírito Santo

As festas de congo em homenagem a padroeiros, como São Benedito, São Sebastião e São Pedro – este, festejado no dia 29 de junho com procissão marítima na baía de Vitória -, acontecem ao longo do litoral capixaba, desde Anchieta até Linhares, e também nos municípios de Cariacica e Fundão. Há 21 associações de bandas de congo em todo o Estado. Além disso, o congo é a única manifestação cultural tipicamente do Espírito Santo, de acordo com a subsecretária de Patrimônio Cultural da Secretaria de Estado da Cultura, Joelma Consuelo. “Em outros lugares existe a congada, mas só aqui no Espírito Santo há o congo”, afirma.

Um exemplo é a comunidade Sagrado Coração de Jesus de Alto Rio Calçado, interior de Guarapari. Lá são realizados os festejos em homenagem ao padroeiro São Benedito e quem rege a festa é a Banda de Congo de São Benedito de Alto Rio Calçado, criada há mais de 100 anos e composta por 25 a 30 pessoas. “Mas quem vem de fora, cai junto também brincando”, anima-se o organizador da festa e integrante da banda, José Muller (ou Zé).

A Banda de Congo de São Benedito
rege os festejos da festa em homenagem ao santo.

Na comunidade, um cortejo sai ao redor da igreja carregando o barco, o mastro e o estandarte com a bandeira do santo. A banda de congo toca os seus instrumentos acompanhada pelo povo, que entoa as suas cantigas. “É uma festa religiosa das mais tradicionais e é totalmente popular. Há momentos lindos como a lavagem do mastro com vinho antes de sua fincada”, descreve José Amaral, que sempre “vai ao tambor”, como diz.  Ao final, com espocar de fogos, o mastro é fincado em frente à igreja. E o batuque continua com a festa.

Para fechar esse ciclo, geralmente no Domingo de Páscoa, acontece a retirada do mastro, que é levado pelo povo em uma coreografia que lembra o movimento das ondas do mar revolvendo o mastro, no qual os sobreviventes do Palermo se agarraram e foram levados até a praia, por um milagre de São Benedito. A banda acompanha todo o trajeto da manifestação.

A banda conta com tambor recoberto com
couro de boi, casaca (ou reco-reco), pandeiro,
triângulo,chocalho, apito e cuíca

A roda de congo atrai tanto idoso quanto jovem, além das damas que dançam ao som do batuque. “Uma coisa interessante é que a comunidade era tipicamente negra até a chegada das famílias alemãs e depois as italianas. Isso faz com que hoje a banda de congo tenha descendentes de negros, alemães e italianos participando. Tanto jovens como velhos”, conta José Amaral.

Segundo Zé Muller, o couro do boi que recobre os tambores coloridos garante boa sonoridade típica do congo. Além do tambor, a banda conta com casaca (ou reco-reco), pandeiro, triângulo, chocalho, apito e cuíca. A casaca, feita de madeira, é um instrumento típico capixaba e símbolo do congo.

A letra que acompanha os instrumentos é chamada de “jongo” ou toada. E, de acordo com Zé, quem sabe jongar, puxa a sua música, sem ensaio. “Eu toco tambor, triângulo, chocalho, mas não tenho o dom de puxar o jongo”, admite Zé. Essa função é destinada ao mestre da banda.

Na comunidade, a família Rosa é a mantenedora da Banda. Hoje, Oez Rosa, filho do mestre de congo Joaquim Rosa, é o responsável pela banda, já que seu Joaquim está doente. Mas todas as famílias da comunidade, de origem negra ou europeia, mantêm a tradição, como afirma Zé: “nós, da comunidade, continuamos com a tradição tocando na banda de congo”.

Por que genuíno do ES?

Segundo a antropóloga da Secretaria de Estado da Cultura Erika Figueiredo, ser típico ou genuíno de um lugar ou de uma tradição não se sustenta histórica e antropologicamente. “Porque as manifestações são marcadas por diversidade e identidades culturais que se expressam ali. Toda tradição é inventada, atualizada em algum momento, que pode se valer de vários elementos e se constituir de algo próprio e, assim, construir sua identidade”.

Alguns elementos que formam as particularidades de cada grupo de congo do Espírito Santo expressam a diversidade cultural do Estado. “Em cada banda de congo há alguma coisa diferente. Por exemplo, o uso da sanfona de oito pés numa comunidade do interior de Colatina, que agregou um elemento da cultura italiana de imigrantes daquela região”, explica.

Ainda de acordo com Erika, é muito significativa a identidade capixaba pela sua diversidade cultural “e não necessariamente na integração de uma coisa una”, finaliza.

 

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