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Apaixonada por escrever, fotografar e se curtir as praças públicas, a argentina Cecília Leal viajou sozinha por cinco meses e meio pela América Latina. Visitou o Brasil, a Colômbia, o Equador, Venezuela, Peru e Bolívia. Contando, parece que foi ali e voltou.

Carina Couto, Vinícius Eulálio, Victoria Varejão - As promessas de fim de ano da argentina Cecília Leal, 28 anos, foram seguidas à risca. Costumeiros pedidos de ano novo como vida nova e muitas viagens foram colocadas em prática logo no primeiro dia de 2013. Logo cedo, Cecília saiu do país portenho num avião rumo a Salvador, no nordeste brasileiro. Apesar de ter claro o seu primeiro destino, a argentina não tinha a menor ideia de onde iria dormir, comer, tomar banho ou, sequer, com quem iria se deparar.

Quatro meses depois, no dia 7 de maio, Cecília estava na cidade andina de Cusco, no Peru. Já havia percorrido Venezuela, Colômbia e Equador. A bolsa em que guardava a máquina fotográfica, nunca largava.

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- Conheço o Brasil. Estou há três meses e meio viajando – disse-nos com tranquilidade, como se fosse responder seu nome. – Conheci a Bahia e a Amazônia.

O rosto vermelho queimado do sol dos Andes transmitia o engajamento de Cecília com a viagem.  Do Peru, após conhecer outras cidades turísticas do país, partiria para o sul, até chegar ao norte da Argentina.

Adepta da praticidade, ela carregava em sua mala poucas roupas, poucos acessórios e pouco tudo. Em outras viagens que fez, sempre achou que poderia levar menos roupa. E, assim, se acostumou. Tal como sua mala, a vida de turista também era prática. Limitava-se a andar com uma mochila peruana nas costas, na qual carregava a inseparável câmera.

- O maior problema de viajar sozinha é ter que ficar pedindo aos outros para tirar foto sua -  disse rindo. – Mas já tenho bastantes fotos.

No total, Cecília viajou cinco meses e meio. Visitou Brasil, Venezuela, Colômbia, Equador, Peru, Bolívia e a região setentrional de seu país. Sempre, com uma tripla companhia. “Seja a viagem de 10 ou de 10 mil km, levo um caderno, um estojo e minha câmera”, lembra.

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Ainda no Brasil, Cecília visitou a região da Amazônia brasileira

Desconforto 

“Sentia um desconforto em relação à minha vida”, justifica Cecília a quantidade de quilômetros percorridos sozinha. Ela é formada em Ciências Contábeis e trabalhava em um escritório, com horários e prazos estabelecidos, antes de embarcar para o Brasil. Faz questão de dizer que nem o sol via durante os dias de trabalho. “E, de repente, estava em um avião sozinha, tendo claro apenas o meu primeiro destino, sem saber onde ia dormir”, falou.

Depois de cinco meses e meio, “me dou conta de que a viagem foi em busca de identidade. Minha, como pessoa, como argentina, como sul-americana.”

“Pai e mãe, vou viajar”

Com uma vida que não lhe agradava, Cecília colocou na cabeça que iria se jogar no mundo. Seus pais, no entanto, não a levaram a sério. “Minha família pensou que era uma brincadeira, como as tantas coisas que falo que vou fazer e não faço”, diz. No final, sua mãe participava da viagem… pela internet. Coruja, ela perguntava sempre sobre os lugares que havia visitado, as comidas que tinha experimentado e aquelas coisas que mãe sempre pergunta. Tudo já havia sido alvo de minuciosa pesquisa.

Sobre a América Latina

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Choroní, Venezuela
Foto: Cecília Leal

Ela é enfática: “saí conhecendo muito pouco sobre cada país que visitei”. No máximo, sabia as questões históricas aprendidas na escola. “Viajando, descobri que a América Latina sofreu muito, mas sempre teve força para levantar e seguir adiante. No fundo, as pessoas e os países latino-americanos são muito parecidos”, avaliou.

O povo, pela sua experiência, se mostra muito trabalhador e acolhedor. A bondade das pessoas foi o que mais chamou a atenção da jovem ao longo dos dias fora de casa. “Não sei se é sorte, lei da atração ou o quê. Sejam amigos, amigos de amigos, desconhecidos, nativos ou estrangeiros, sempre me trataram da melhor maneira possível.”

Casualidades e história para compartilhar

Amante de praças, foi em uma delas, no El Parque Ejido, na capital do Equador, Quito, que Cecília relata um ‘causo’ que, como outros vividos em sua viagem, a faz apaixonar-se cada vez mais por compartilhar momentos com pessoas nunca antes vistas: “Enquanto lia em uma praça, chegou uma menina que lustrava sapatos. Depois de se oferecer para limpar os meus, me perguntou de onde eu era. Ela tinha entre 10 e 12 anos. Quando lhe respondi ‘da Argentina’, ela reagiu como se não soubesse ao menos onde ficava no mapa. Então, começou a me perguntar sobre o meu país e a América do Sul. Terminamos a conversa desenhando um mapa de todo o continente e compartilhando conhecimentos”.

Coragem? Que nada!

Na Venezuela, a Cecília presenciou a movimentação eleitoral antes da morte do ex-presidente Hugo Chávez Foto: Cecília Leal

Na Venezuela, a Cecília presenciou a movimentação eleitoral
antes da morte do ex-presidente Hugo Chávez
Foto: Cecília Leal

A mochileira nega que coragem seja o mais importante para poder se jogar no mundo. “Acho que tem mais a ver com o que as pessoas pensam e desejam fazer em outros países”, diz. “Viajando, as situações não são tão diferentes das que você vive no dia-a-dia. Coisas boas e coisas ruins podem acontecer em qualquer lugar”.

As preocupações de Cecília, no entanto, iam muito além da coragem. Por meio da experiência, gostaria de conquistar equilíbrio emocional, conectar seus sentimentos a pessoas e lugares. “Essa maneira de conexão é original e natural”, opina. “Mais do que coragem para viajar, considero imprescindível abrir o coração e a alma para receber o que cada lugar e cada pessoa têm para contribuir e compartilhar com você. Dessa maneira, um comparte, outro aprende e o outro se nutre”.

Uma nova pessoa?

A cada viagem que faz, Cecília se percebe diferente. Quando circulou pela América Latina, conquistou valores que foram unidos aos antigos. O papel da viagem, segundo ela, é exatamente este: de renovar, tirar a cabeça da rotina e caminhar com outro ritmo, acompanhado do sentimento de liberdade.

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Machupichu, Peru

De país em país, pessoas em pessoas, sotaques em sotaques, ela finalmente podia apreciar o entardecer de onde quisesse; de onde escolhesse. Caso tivesse vontade de ir a algum lugar, iria. Analisava as suas vontades e ‘desvontades’ e fazia o que bem entendia.  “E aqui está o equilíbrio que falamos antes”, afirma. “Escolher não é bom ou ruim, mas saber conviver com os dois. Sempre se pode escolher”, completa.

Apaixonada pelas praças que tanto visitou e fotos que tanto tirou, Cecília limita-se a compartilhar as experiências com amigos e familiares. Ainda não voltou ao batente. “Vou voltar a trabalhar, mas de forma independente para continuar viajando”.

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