Dilma Roussef
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[h4]Três professores da Ufes, especialistas em discurso, comunicação e política, interpretam os recentes pronunciamentos da presidenta da República, Dilma Roussef, em resposta às manifestações que acontecem no Brasil.[/h4]

Any Cometti – Diante do calor das manifestações, poucas autoridades se expuseram com tamanha importância e imponência como a presidenta Dilma Rousseff. Na condição de governante máxima da população, era mais do que necessário que a presidenta estabelecesse um diálogo com a população. Ou, pelo menos, que aparecesse e apresentasse medidas que condiziam com aquilo que se pedia nas ruas, Brasil afora.

Para entender melhor os motivos do pronunciamento, as ideias propagadas e a eficácia das propostas sugeridas, ouvimos os professores da Ufes José Antonio Martinuzzo  (Departamento de Comunicação), doutor em Comunicação e pesquisador na área de política; Paulo Magalhães (Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais), doutor em Ciência Política, e Rafael Paes (Departamento de Comunicação), doutor em filosofia e especialista em discurso.

Primeiro pronunciamento –  21 de junho

 

A decisão de se pronunciar

“Precisamos entender que esse processo todo, para os políticos e para os poderes instituídos, é um processo que chamamos de crise. É uma contingência adversa. Num momento de crise, o pior é não falar, é não tomar uma atitude, é não se posicionar, porque a crise se avoluma, cresce e toma proporções inimagináveis. Quando uma organização, uma pessoa ou instituição está no meio de uma crise, é decisivo que ela se comunique com a sociedade e com os públicos envolvidos durante todo o processo. Nesse caso, acho que o governo demorou a se posicionar.” (Martinuzzo)

“Pra começar, ela não está usando o terninho vermelho PT. O vermelho está ligado ao perigo, ao protesto, à tensão. E o tom pastel acalma. A bandeira do Brasil denota autoridade, o posto, o lugar de onde fala, de comandante. Mas eu acho que ela não estar de vermelho é bastante significativo. O vermelho tem ligação com o PT, aqui no Brasil. Mais do que ser do PT, ela é a presidente, e aí ela está querendo marcar um lugar de neutralidade partidária.” (Paes)

“O pioneirismo foi um dos grandes méritos dela, de vir antes de qualquer outra autoridade. Achei, inclusive, muito corajoso, pois ela assumiu a responsabilidade de dar uma resposta, veio a público e deu, com equívocos de estratégia política que eu acho que ela cometeu. Foi uma resposta louvável, uma coragem admirável. Também fazia um pouco de parte da obrigação, já que ninguém foi falar, alguém tem que ir, e acaba caindo sobre o topo da hierarquia, que é ela.” (Magalhães)

O discurso

“O discurso é bem explicadinho, didático até demais, uma tentativa de botar panos quentes, acalmar. Quem fala pausadamente demonstra calma e controle, não está no calor das emoções. Há a preocupação de não desqualificar o movimento como um todo, ao destacar essa parcela que depreda.” (Paes)

“O pronunciamento teve como  foco as demandas e uma principal demanda, quando ele inclui um plebiscito. A população quer ser ouvida.” (Martinuzzo)

“O primeiro ponto é que ela reforça que está ouvindo, que é legítimo e que é democrático ir às ruas pacificamente. O segundo é que ela chama a responsabilidade para ela, de liderar uma série de coisas que ainda precisam ser feitas. Em terceiro lugar, ela se coloca como mulher de ação. Tem certeza do que vai fazer e diz saber o que o país precisa. Se coloca no lugar de autoridade, de líder, de ouvido atento, até porque a obrigação de quem está no lugar em que ela está é de ouvir.” (Paes)

“Eu acho, de fato, que o primeiro pronunciamento foi mais para acalmar. Acho que ela assumiu uma responsabilidade interessante de, como governante, como pessoa pública, aparecer para dar alguma resposta para a população. Já tinha uma série de acontecimentos, de eventos com violência e tudo o mais, e, com exceção do Geraldo Alckimin (governador do estado de São Paulo) e do Fernando Haddad (prefeito da cidade de São Paulo), ninguém havia aparecido publicamente para dizer que estava tomando providências, o que eu achei, inclusive, bastante frustrante. E a presidente teve essa coragem. Eu acho que ela fez o papel perfeito, de uma presidente da república, para acalmar os ânimos. E acho que o problema tenha sido, talvez, em relação à estratégia política, como o governo vai se portar diante desse acordo para aprovar as medidas.” (Magalhães)

A pauta 

“Foi eficaz colocar um discurso para a sociedade discutir. A presidenta fez uma proposta, ates de tudo como alguém que queria uma saída. Como viabiliza, quem viabiliza e o meio de viabilizar, é uma discussão da nação. Percebe a inteligência da estratégia? Você coloca novidades, coloca temas polêmicos e dá uma direção para a conversa. Não se conversa difusamente. Depois que a presidente foi lá e colocou a pauta dela na reunião com os governadores, todo mundo passou a discutir o que a presidente falou. Isso é uma estratégia.” (Martinuzzo)

“Eu acho que essa discussão deveria ser feita dentro do Congresso Nacional, e não dentro do quórum plebiscitário. Eu tenho um pouco de resistência a esse apelo plebiscitário, porque tem esse perigo, de chamar para decidir pessoas que têm vontade mas que talvez não tenham um conhecimento mínimo necessário pra tomar tal decisão. Acho que corremos o risco de fazer uma má reforma política.” (Magalhães)

As propostas

“A gente poderia muito facilmente dizer que as medidas são demagógicas. Mas eu me arriscaria a dizer que não. Talvez a forma de concepção daquelas medidas não seja a prevista, mas eu tenho noção clara de que são medidas importantes e que de algum jeito elas vão avançar, porque vão ao encontro do anseio da população. Até a medida mais polêmica, se era uma constituinte, se era um plebiscito, e efetivamente parece que caminha para um plebiscito, vai para o principal anseio da população, que é ser ouvida, que é participar. Eu acho que o mérito é bom. A questão, a pragmática, o conteúdo, pode tudo ser ajustado.” (Martinuzzo)

“O que eu achei problemático, e isso talvez seja uma característica da Dilma pelo próprio perfil técnico dela, é que ela toma decisões muito em função de uma lógica administrativa. Ela não tem uma habilidade – pelo menos as pessoas reclamam isso – para as negociações políticas de bastidores. Ela é centralizadora, dá pouca liberdade para o staff dela tomar alguma decisão. Eu acho que talvez essa característica dela como governante pode ter gerado certos problemas nesse caso específico, porque, ao que consta, ela não estabeleceu nenhuma negociação anterior à reunião. Eu acho que o pronunciamento dela colocou muitos problemas que vão gerar certos conflitos agora.” (Magalhães)

O segundo pronunciamento  – 24 de junho

“O primeiro pronunciamento foi menor, mais genérico, para acalmar os ânimos, chamando a responsabilidade pra ela. No segundo, com ânimos mais calmos, ela esclarece as propostas, esclarece o caminho que ela vislumbra e que o Estado deve seguir, mas continua falando como mulher de ação. A primeira Dilma, pausada e didática, não era a Dilma. A Dilma é a do segundo discurso: dinâmica e com um viés um pouco autoritário, dizendo: “Eu sei exatamente o que deve ser feito, e estou fazendo”. É mais a cara dela, uma fala mais rápida, menos professoral e mais autoritária, incisiva, de alguém que tem muita certeza, sabe o caminho.” (Paes)

“Achei o segundo discurso muito importante, porque ela mostrou um certo esforço de congregar forças políticas nacionais. Ela chamou os prefeitos das capitais, onde basicamente se concentraram as manifestações, e fez o pronunciamento numa tentativa de mostrar à população que ela, como presidente, estava tentando compor uma coalizão de múltiplos níveis, para tentar resolver os problemas ou enfrentar com mais empeenho os que já são antigos e que já têm sido enfrentados de alguma forma.” (Magalhães)

E o povo com isso?

“Um recado que fica para a população: ela está fazendo política. Cabe à população cobrar a efetividade da política, porque, também, a população já deu sinais de que precisa acompanhar o dia-a-dia e o cumprimento das promessas. Tomara que passem a ter esse hábito a partir de agora.” (Martinuzzo)

“São questões muito complexas para a população decidir, coisas sobre as quais nem os acadêmicos têm acordo. Não acho que a população deva ser obrigada a escolher isso e eu acho um risco que ela tenha que escolher, porque acho que vão escolher às cegas.” (Magalhães)

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