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O olhar dissecador de artistas latinos mostra grandes metrópoles por um viés existencial, contemplador, documental e artístico, capaz de problematizar novas apropriações das cidades.

Esther Radaelli e Thaiana Gomes  Nos filmes vê-se uma cinematografia não comum, que explora a relação do indivíduo com as cidades sob diferentes ângulos.  Além disso, mostra-se como os símbolos que “definem” algumas grandes metrópoles, como a Torre Eiffel, em Paris, podem ser (des) construídos e (re) construídos a partir de novas formas de relação com a cidade. No caso de Paris, a problemática está justamente no estigma de um lugar que é sempre visto como a  “cidade do cartão postal”.

Na obra de Enrique Ramirez, a Torre Eiffel, em Paris, ícone supercodificado pela história e pelo turismo, desaparece lentamente do cartão postal.

A mostra “Cidades: Derivas e Relatos”, que foi exibida no Cine Metrópolis, no dia 19 de julho, é uma pequena parte de um trabalho maior de curadoria de Valentina Montero, jornalista e especialista em novas mídias. A mostra foi exibida também em São Paulo e irá agora para Buenos Aires. Valentina explica como realizou o recorte que foi apresentado aqui no estado: “Dividi a mostra em alguns capítulos que entendi que poderiam ser articulados para ser comunicados ao público. Características comuns a estes muitos trabalhos que pesquisei: território e, particularmente, a cidade.  O recorte que me interessava e que me interessa, é a questão social e antropológica, quando se fala da questão do pertencimento, do ser humano, do estranhamento quando nos encontramos inseridos na cidade.” Além de apresentar as obras, a curadora, ao final do evento, participou de um debate com o arquiteto e professor da Ufes Heraldo Borges. O evento foi realizado pelo Grupo de Estudos Audiovisuais (Grav) da Ufes com apoio da Secretaria de Cultura da universidade e a Ecos Jr.

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Cena do curta-metragem de Marcela Moraga, “Like a Selknam”. A artista, nas rua de Berlim, traça uma linha de terra no chão e para tentar devolver terra fértil às árvores.

Artistas latinos, que desenvolveram seus trabalhos fora de seus lugares de origem, abordam as metrópoles pelo mundo por uma temática ampla, tratando questões sob várias perspectivas. Não é possível encontrar nestes trabalhos uma fronteira que delimite o que é documental do que é artístico, a fronteira é bastante híbrida. Ela explica: “São trabalhos que de alguma maneira podem ser entendido como vídeo arte, conceito que para mim já é obsoleto. Mas eles guardam uma estética que tem a ver com o cinema experimental dos anos 20, por exemplo. E que continua nos anos 60, com uma nova era de realizadores”.

Durante o debate, o professor Heraldo, levou para a discussão a relação da cidade com a tecnologia. Para ele a cidade moderna e industrial está relacionada com o cinema e o pós, com o digital. E, a partir de uma nova relação contemporânea com este espaço, ele disse que há uma “museificação dessa cidade tradicional e a comercialização dessa cidade espalhada”. Mesmo com essa nova dinâmica, ele percebe que a cidade ainda é o lugar da vida social, por mais que a internet tenha tanta força hoje. E o professor ainda faz uma provocação, para ele a importância da cidade é central, ela é permanente, já a vida humana é passageira. E que devemos enxergar a cidade como parte da natureza. Para ele, urbanista, a cidade tem que ser feita e refeita.

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A interação entre pássaros e uma antena constrói uma coreografia entre animais e um objeto, no filme de Ricardo Vázquez.

Trazendo para o contexto em que estamos vivendo, é difícil pensar em cidade e dissociar das grandes manifestações ocorridas nos últimos meses. A vida urbana é o berço dessas movimentações. Lucas Schuina, 23, jornalista, enfatiza este momento. Para ele é sempre importante repensar a cidade, ainda mais neste momento de efervescência política por qual passamos. Reforçando assim que a cidade não é só um cenário de narrativas, mas também se tornou um centro de debates e crítica.

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