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[h4]Programas de incentivo ajudam atletas a se manter competindo, mas ainda não estão ao alcance dos iniciantes[/h4]

Fábio Andrade e Leone Oliveira – Três tatames ocupam a quadra do ginásio Jayme Navarro de Carvalho, em Vitória. Sobre cada um deles, duplas de lutadores competem na 2ª etapa do Campeonato Estadual de Taekwondo. Nas arquibancadas há um número considerável de espectadores, mas a maioria também veste dobok, a roupa usada pelos lutadores, ou uma vestimenta de alguma academia. São técnicos, parentes e amigos dos atletas ou mesmo lutadores que já encerraram sua participação no certame.

DSC_0130 Foto - Fábio AndradeErick Almeida, 21 anos, é um dos competidores que acompanha o desenrolar do campeonato. A 2ª etapa do Estadual, para ele, já estava encerrada depois de vencer sua luta – contra um adversário maior e mais pesado. Erick compete na categoria até 58 kg e não é sempre que encontra oponentes em sua faixa de peso.

Esse, porém, é apenas um dos contratempos com o qual Erick precisa lidar para se manter como atleta. Ele não esconde que tem como sonho chegar ao topo da carreira de lutador de taekwondo e alcançar a disputa do campeonato mundial da modalidade ou os jogos olímpicos, mas esbarra na falta de condições para se dedicar exclusivamente ao esporte. “Eu treino numa academia, onde pago a mensalidade. Treino uma hora por dia, três vezes por semana. Esse tempo é pouco. O ideal era ter de duas a três horas cada um, mas o professor não consegue viver só de taekwondo, ele trabalha fora para sobreviver”, lamenta.

Assim como as academias se veem impossibilitadas de dedicar espaço e tempo unicamente a uma modalidade, os esportistas dificilmente podem pensar exclusivamente em suas carreiras como profissionais. Erick explica que a ausência de apoio e de estrutura compromete toda a preparação dos atletas. “Eu precisaria de um aporte estrutural. Cada um treina com o que existe em sua academia e cada professor se equipa com o que aguenta investir. Eu não tenho apoio psicológico nem médico. Eu me informo com as minhas amizades, com um personal trainner com quem eu pego uma ideia, vou a um médico e pesco algumas informações, mas eu não vou conseguir chegar ao nível de atleta de alto rendimento sozinho”, constata.

A falta de estrutura com a qual Erick se depara na prática do taekwondo deve ser erradicada com a construção do Centro Olímipico do Espírito Santo (COES) no espaço do próprio Jayme Navarro de Carvalho. Ao menos é o que promete o governo estadual. A expectativa é de que o COES funcione como uma incubadora de atletas de dez modalidades esportivas, inclusive do taekwondo. Ao custo de R$ 16 milhões, a conclusão da primeira fase do COES era prevista para julho de 2013, mas o projeto passa por um replanejamento e a obra não tem mais previsão de entrega.

O exemplo que vem da ginástica

Foto - Divulgação Fesg
Foto: Divulgação Fesg

Outro esporte beneficiado com a construção do COES é a ginástica. A seleção capixaba de ginástica rítmica já realiza seus treinos no local, enquanto os atletas da modalidade artística masculina e feminina só poderão utilizar o espaço quando for finalizado.

Diferente do que acontece com o taekwondo, as atletas da ginástica rítmica já contam com uma certa estrutura para praticar o esporte e muitas delas se destacam a ponto de conquistar uma vaga na seleção brasileira da modalidade. Contudo, para  atingir esse patamar foi necessário um grande esforço da equipe técnica, das atletas e até mesmo das famílias das ginastas, que arcavam com os custos das viagens para as competições dentro e fora do Espírito Santo, é o que explica Dalza das Mercês Batista, presidente da Federação do Espírito Santo de Ginástica (Fesg).

De acordo com Dalza, a conquista de bons resultados e a criação de políticas públicas, como os programas Bolsa Atleta e o Compete Espírito Santo – projeto do governo estadual que oferece passagens aos atletas de alto rendimento de diversas modalidades – foram fatores para a transformação na ginástica rítmica capixaba, passando a ser uma das potências no Brasil.

“Ajudou muito a modalidade da ginástica, porque quase todas as nossas atletas defendiam os clubes de Vitória e, com a Bolsa Atleta, conseguimos patrocinar várias delas. Talvez, este seja um dos motivos para que hoje a ginástica rítmica seja uma referência nacional”, salienta a presidente da Fesg, que complementa: “às vezes, perdemos um talento no meio do caminho, justamente, por ele não tem condições de pagar passagem, comprar as roupas e equipamentos para praticar qualquer tipo de esporte”.

Foto - Divulgação Fesg (2)O Bolsa Atleta do Governo Federal foi criado em 2003 e concede benefícios entre R$ 370 e R$ 3.100. No Espírito Santo, a prefeitura de Vitória se espelhou em uma lei paranaense, chamada Lei Jayme Navarro de Carvalho, para criar o incentivo municipal que, mais tarde, tornou-se também um benefício concedido pelo Governo do Estado, com bolsas que variam entre R$ 500 e R$ 5.000. Dalza afirma que hoje há ginastas que recebem os três benefícios. Além disso, os bons resultados atraíram empresas para patrocinar as atletas.

Federação em risco

Se por um lado as ginastas contam com boa estrutura e apoio financeiro para continuar praticando o esporte, por outro as mesmas condições não são encontradas pela Federação. “Todas as federações, com exceção daquelas que são mais ricas, estão sem salas para trabalho. A maioria está com o material de trabalho dentro do carro, em casa, em terraços (caso da Fesg) porque não temos, realmente, espaço. Com nossa arrecadação de eventos, não temos dinheiro suficiente para assumir despesas de aluguel, telefone, água, luz e funcionários”, lamenta Dalza.

Ainda segundo a presidente, a Federação é que deve gerar a receita para arcar com os custos, mas Dalza argumenta que a “Fesg trabalha muito com a inclusão social, com projetos sociais, e não cobra nenhum centavo nos eventos”.  Ela lembra que essa é uma situação delicada, pois nenhum atleta pode participar de competições sem o consentimento da Federação, além de caber à instituição popularizar o esporte.

Até o ano passado, a Confederação Brasileira de Ginástica (CBG) mantinha convênio com a Caixa Econômica Federal e repassava, mensalmente, a quantia de R$1 mil  para cada federação para pagar despesas como material de papelaria, xerox, entre outras. Esse dinheiro não podia ser gasto com aluguel de sala, salário de funcionários ou contas de água, luz, telefone. Em 2013, o patrocínio com o banco foi renovado, porém até o mês de junho nada foi repassado para a federação.

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