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Em meios aos protestos nas ruas de Vitória, um grupo se destaca. Para o senso comum, os anarquistas representam a desordem. Mas, para eles, o que o anarquismo busca é uma ordem social diferente, baseada na autonomia e na cooperação entre os indivíduos.

Fotos: Thaiana Gomes

Esther Radaelli e Maíra Mendonça – Olhando um pouco para o alto durante as manifestações que vêm acontecendo pode-se notar bandeiras pretas. Alguns reparam com estranheza, e poucos sabem dizer o que elas significam. A negritude uniforme destas bandeiras representa a negação a todas as formas e estruturas opressivas. É quase uma anti-bandeira, a negação do Estado, uma vez que as bandeiras coloridas são adotadas como símbolos de muitos países. Seu forte significado marca um grupo: os anarquistas.

A história desta ideologia é antiga. O professor de Ciências Sociais da Ufes, Francisco Albernaz, explica: “o movimento anarquista nasce no século XIX, no sentido primeiro de negar que a sociedade poderia ser construida a partir do Estado, eles acreditam que a sociedade é anterior ao Estado”. Como preceito básico da maneira como veem o mundo está a organização social com base na cooperação. Segundo o professor, é desta cooperação voluntária que nasceria a sociedade.

Analisando tal explicação, nem parece que está se falando da mesma concepção de anarquismo do senso comum, que costuma se ouvir nas ruas. E não está. O professor Francisco percebe que “a palavra anarquista se descolou da ideia da doutrina do século XIX e se transformou em uma ideia de desordem. Essa é a questão complexa para a população. O ser humano tem uma dificuldade dramática de viver na incerteza. O anarquismo denota a ideia de caos, desordem, e é muito mais numa questão específica do que política.  O modelo de sociedade que eles pensam é o da cooperação, nada mais certo do que um modelo de livre  comunidade”.

Solidariedade, horizontalidade e o desenvolvimento da autonomia dos seres humanos a partir de uma construção coletiva. Para Luther Blissett (pseudônimo do entrevistado, que prefere não utilizar seu nome real), esses são alguns dos princípios do anarquismo, cuja etimologia significa negação da autoridade. A partir disso, surge também a negação da propriedade. “Pensando de um certo ponto, o anarquismo é desordem sim. Pois, se a ordem é isso que está em vigência, se é isso que está acontecendo, então nós queremos ser desordeiros mesmo”, reflete o anarquista Pedro (nome fictício). Encarando o modelo de sociedade vigente como uma desordem, eles buscam encontrar a verdadeira ordem.

Trata-se de um movimento homogêneo, que visa a transformar a ideologia do capitalismo e do consumo em todo o mundo. “O anarquismo é um movimento sem fronteiras. Agimos no local pensando no global. Não há uma fragmentação. Buscamos uma unidade a partir da pluralidade, do respeito à diversidade”, completa Luther Blissett.

É nessa perspectiva coletivista e ao mesmo tempo autônoma que as atividades dos grupos anarquistas são desenvolvidas. Alguns exemplos são a formação de cooperativas artesanais, de editoras independentes e de coletivos de bandas. Luther Blissett fala um pouco sobre o projeto Casa Escola, organizado pelo grupo do qual faz parte. Trata-se de uma organização comunitária em que pessoas se uniram para utilizar um espaço para realização de oficinas e de cursos oferecidos de forma gratuita. Um espaço em que haja troca de conhecimentos, aprendizados. “Qual a necessidade que temos de nos unir? Ora, nós somos seres sociais e dependemos um do outro. E a comunidade é que é capaz de criar, de gerar e de reformar o trabalho coletivo constantemente. O anarquismo flui nesse movimento dialógico entre o individual e o coletivo”, acrescenta ele.

Já Pedro fala sobre o projeto Pedal Contra o Pré-Sal, fruto de uma parceria entre o Instituto Anarco-Punk (IAP) e a Fase, Organização não Governamental do Estado que desenvolve projetos ambientais. Nesse projeto, os participantes fizeram um pedalaço de Vitória a Conceição da Barra buscando identificar os impactos ambientais e a tomada geográfica da Petrobrás no Espírito Santo. Pelo caminho, o grupo conversou com as pessoas, incluindo membros de comunidades indígenas e quilombolas, fazendo também um trabalho de conscientização.

A ação direta

Para o professor Francisco, a associação entre desordem e anarquismo se consolidou socialmente em função do modo como as imagens da história chegaram à população de forma estereotipada, via linguagens e cenas simbólicas. Porém, essa maneira como o anarquismo é visto também possui relação com alguns de seus métodos, cujo o objetivo é alcançar um modelo de sociedade anti-representação. Francisco percebe que os anarquistas contemporâneos são muito mais da ação contra o sistema estabelecido do que da reflexão acerca da formação da organização social. E mais, ele analisa  que o contexto em que vivemos se assemelha ao período em que o anarquismo atingiu seu auge, no século XIX, devido ao sério problema da qualidade das representações, principalmente no que diz respeito à classe trabalhadora.

Depois desta alta do anarquismo vivida entre os anos de 1850 e 1880, os acontecimentos históricos e o modo de organização que se desenvolveu culminaram na conquista do voto. Engels, teórico alemão, dizia que  “o voto é a pedra de papel”. Mas Francisco questiona: a ideia do voto trazia consigo a ideia de mudança, porém de lá até hoje, o que se tem percebido? Você vota, o tempo passa, e a situação permanece a mesma. Então, alguns encaram esta crise da qualidade da política da seguinte forma: ir para a rua dar porrada, diz o estudioso. “Há uma crise das instituições representativas no mundo inteiro”, garante.

É justamente na forma de ação que o anarquista João (nome fictício) acredita que reside uma importante diferença entre esta ideologia e as demais. Isso porque o anarquismo se baseia na ação direta, atacando aquilo contra o qual ele luta. “Isso significa o que chamam de vandalismo, depredação, a exemplo do que acontece quando quebramos bancos, o pedágio da Terceira Ponte, a Assembleia Legislativa, que representam o poder. Destruir esses elementos simboliza a destruição do poder em prol da construção de uma nova sociedade, em que haja solidariedade, apoio mútuo. É destruir para construir”, conclui. Ele explica que dentro das manifestações os anarquistas também são os que mais pautam a auto-defesa, fornecendo utensílios para o manutenção e proteção das pessoas, como por exemplo levando máscaras, jogando as bombas de efeito moral para longe da população e fazendo barricadas em frente à polícia para impedir que ela chegue a outros manifestantes. “É uma solidariedade com aqueles que estão do nosso lado”, afirma ele.

Mas, para o professor, a força do anarquismo pode adquirir uma dimensão despótica para o outro. “Está muito perto do despotismo, do autoritarismo. Porque se a razão falha, só na porrada. A ideia é voce restaurar a razão na negociação, na argumentação.” Francisco pontua ainda que uma questão que considera grave é o ataque à propriedade privada. “Uma discussão importante. A eficiência da ação depende muito de como o outro te vê. Foi provado que a ação pela violência na história da humanidade foi muito menos eficiente que a ação não violenta. Um exemplo clássico é Gandhi.” Para ele, quando você instaura a criação de uma coisa pela violência, você a legitima.

Já para Luther Blissett, os manifestos são também uma das formas de divulgação do ideal libertário. Ele acredita que junto aos ataques há todo um arcabouço ideológico, que justifica tais ações. “O que é o Estado? O que é a autoridade? É um indivíduo que tenta dominar, controlar a vontade do outro. Então o anarquismo luta contra a opressão, contra o domínio, contra a escravidão do homem”, analisa. Além disso, Luther Blissett explica que o anarquismo só considera violência quando é praticada contra seres humanos. “Por negarmos a propriedade, nós praticamos atos simbólicos de destruição de elementos que se vinculam às relações de força e de poder. Para nós, a violência é a sociedade organizada de forma hierárquica, que impede o desenvolvimento da autonomia dos indivíduos”, finaliza.

Utopia?

Outro princípio do anarquismo é a negação da democracia representativa, que segundo os seguidores desta ideologia acaba homogeneizando os indivíduos por definir seus direitos e deveres. Nesse sentido, a organização política ideal seria a democracia direta, em que todos participam de maneira ativa na sociedade. “O que a gente quer não cabe nas urnas. Por isso nós buscamos construir à margem”, pontua Luther Blissett.

Explicado quais os preceitos desta ideologia, fica a pergunta: é possível uma sociedade sem representação e que funcione a partir da cooperação voluntária e da solidariedade? Para Francisco, do ponto de vista da representação, sim, é uma utopia. “No mundo moderno, não dá para se tomar decisões coletivas na rua, por uma questão física, real. Por exemplo, você tem que ter um representante de turma para falar com o colegiado. Então, a representação é contingente ao aglomerado humano.” Mas faz uma ressalva: “nem por isso devemos deixar de pensar em uma sociedade mais baseada no voluntarismo e na responsabilidade.”

É nesse sentido que os seguidores do anarquismo não o enxergam de forma alguma como uma utopia, mas sim como uma filosofia de vida. Ele se manifesta de várias formas na vida cotidiana até mesmo daqueles que não se identificam como anarquistas, em simples atos como a produção de suas próprias roupas, o cultivo de hortas em fundos de quintais, na formação de cooperativas, etc. Ou seja, em tudo aquilo que busca uma maior indepedência dos indivíduos e o seu apoio mútuo.”Anarquia não é utopia. Ela é vivência, ela é vida”, conclui Pedro.

 

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Comentários 1 Comment

  1. José 23 de julho de 2013 at 14:24 — Reply

    O que o anarquista defende não é a ausência de representatividade. Ao contrário, defende-se a representação política em sua radicalidade. Para o anarquista o representante do povo não é uma figura extática, que se mantém no poder pelo excesso de poder conferido. O representante libertário é mais uma instituição livre do que um personagem político. Por exemplo, um representante libertário não poderia se manter no poder por tempo instituido por uma lei. A rotatividade de um representante a outro se daria por decisão em assembléia de pessoas comissionadas de acordo com o tempo e necessidade da pauta em questão. O revolução espanhola já provou a eficiência do sistema de rotatividade e a democracia indireta já provou seu desvínculo com a liberdade.

    O exemplo do Francisco onde diz que temos que ter represnetante de turma é correto, exceto ao que provalvelmente ele entenda por representante. O representante não pode concentrar poder em detrimento do povo, como acontece com a democracia indireta, mas permanecerá junto ao povo, na medida em que o próprio ” representante fraco” se dilua diante do poder do povo sempre que necessário.Representação não é concentração de poder, mas sim a manifestação coletiva da organização libertária. O que a democracia chama de representantes é na verdade uma representação do próprio representante. Portanto, vote nulo e assumo as rédeas de suas vidas.

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